Hoje vota-se o projecto de lei da co-adopção por pessoas do mesmo sexo. Ironicamente no mesmo dia da missa e enterro de Dom José Policarpo, ex-cardeal Patriarca de Lisboa, que sempre se preocupou com a evolução sociológica das sociedades. Para quem claramente a existência de dois pais e duas mães, em vez de um pai e de uma mãe, era um passo para o absurdo, para a desagregação da célula família.
Poder a família ser constituida por dois pais ou duas mães em vez de um pai e de uma mãe, é um passo para o fim do contexto que serviu de base ao estudo da psicologia e psicanálise, pelo seu pai Freud, autor da teoria do Complexo de Édipo. Um passo para o fim da base da organização social. Para o fim daquilo que nos dá a segurança e auto-estima. As referências masculina e feminina, que contribuem para a definição da nossa identidade, tendem a desaparecer por decreto. Contribui para tornar relativo tudo aquilo que, quer na socialização primária, quer na socialização secundária, nos ajuda a definir: estamos sempre num processo de reconhecimento por identificação, e esse começa com os progenitores, identificação com um por oposição ao outro do sexo oposto, a quem queremos conquistar.
Mas eu já sei que vai tudo falar do amor e das festas de anos com palhaços que as crianças vão ter. Um idílico quadro de felicidade com um horizonte máximo de 10 anos. Vai tudo usar esses argumento do amor e do mimo para defender esta realidade social que a compaixão pessoal (e a culpa?) estão a criar.
Maria, acho que o cerne da questão lhe passou um pouco ao lado. Não é demais repetir: co-adopção e adoção por casais do mesmo sexo NÃO é a mesma coisa e apenas a primeira estava a ser discutida. A co-adopção visa tornar real perante a lei uma situação que já existe. Já existe, Maria. As crianças já são filhas biológicas/ adoptadas por um dos membros do casal (que, como em qualquer caso de adopção, foi sujeito a um rigoroso processo de selecção pelas entidades com competência para tal) e já vivem com o outro membro do casal. São uma família. A criança é educada por essas duas pessoas, elas são os seus pilares de desenvolvimento social. Já têm avós, tios, primos, irmãos, oriundos da relação dos seus progenitores. São uma FAMÍLIA. Agora vejamos o rídiculo da situação actual: o pai/mãe biológico/ adoptivo da criança morre. A criança tem outro pai/mãe, bem como toda uma família com a qual cresceu e se desenvolveu. Mas como esse pai/ mãe não vê o seu papel reconhecido, então a criança é retirada da sua família e é entregue a uma instituição. Considero que poucas situações são mais cruéis, devastadoras e traumatizantes para uma criança do que, após a morte de um pai/ mãe, ser retirada da sua restante FAMÍLIA. A situação tem de ser avaliada objetivamente, pelo prisma que aqui apresentei. Para além disso, não compreendo como é que a lei continuar a tratar duas situações iguais de maneira diferente. Como é que num casal heterossexual, após o casamento, um dos membros tem direito a exercer a parentalidade sobre os filhos do parceiro (caso a situação se aplique) e um casal heterossexual, cujo direito ao casamento já é visado pela lei, não pode. É absurdo. E absurda é também a tentativa de proibir este direito fundamental a estruturas familiares já existentes por causa de preconceito e falta de informação.
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