terça-feira, 18 de março de 2014

Putin quer a Crimeia e tem a Crimeia (outros separatistas, noutras geografias, se seguirão?)

Putin entrou pela Crimeira adentro sem grande sobressalto. 


«A República da Crimeia é considerada como integrada na Federação da Rússia a partir da data da assinatura do acordo», indicou o Kremlin num comunicado, divulgado nesta terça-feira. 


Está a cumprir-se o veredicto. Há uns dias ouvi o José Milhazes, jornalista especialista em Rússia, dizer que Vladimir Putin ia esperar pelo resultado do referendo e ocupar a Crimeia. Foi exactamente assim. Milhazes dizia que Putin iria tentar ocupar também a Ucrânia Oriental, onde a maioria da população é também pró-russa. O Ocidente não tem alavancas para pressionar Putin. Se acabarem os vistos, a Europa também vai sofrer com essas sanções porque perde os turistas. O turismo russo é um dado importante. 


No entanto Putin já disse a alto e bom som que não vai entrar pela Ucrânia. Mas neste seu sonoro anúncio lê-se um aviso subtil, como que a dizer ao Ocidente e à Ucrânia, se não levantarem ondas a esta "anexação" isto pode ficar por aqui. «Quero que me oiçam: não acreditem naqueles que receiam que, depois da Crimeia, outras regiões se seguirão. A Rússia não quer dividir a Ucrânia. Não precisamos disso», disse Putin, referindo-se às regiões do leste e sudeste da Ucrânia, de população maioritariamente russa, as quais, afirmou, serão defendidas por meios políticos e diplomáticos.


Putin quer a Crimeia e tem a Crimeia, mesmo que comece por dizer: «No que diz respeito à Crimeia, sempre foi e será russa e ucraniana e crimeo-tártara»,  acrescentando que a república autónoma «deve estar sob soberania da Rússia».


 


 


No mesmo programa da SIC, Carlos Gaspar (professor) lembrava que o tratado de Budapeste, se for rompido, a Ucrânia pode voltar a ser um Estado com armas nucleares. O Tratado é rompido a partir do momento que a Rússia invade a Crimeia e agora os Estados Unidos e a União Europeia serão chamados a defender militarmente a Ucrânia. O Tratado foi rompido. 


 


Em poucas horas, o novo Conselho de Estado da República da Crimeia pediu formalmente a integração na Rússia, anunciou a nacionalização de duas grandes empresas de gás ucranianas (a Chornomornaftogaz e a Ukrtransgaz) e deu três opções aos militares ucranianos: integrarem as forças armadas da Rússia, partirem para a Ucrânia ou mudarem de profissão. 


 


O presidente russo, Vladimir Putin, assinou hoje um tratado bilateral de união com o primeiro-ministro da Crimeia, Sergui Aksionov, e outros dirigentes da península, na presença dos membros das duas câmaras do parlamento russo, dos governadores e dos membros do governo russo. Tudo aparentemente limpo, mas a verdade é que um soldado ucraniano já foi morto a tiro durante uma invasão a uma base militar ucraniana nos arredores de Simferopol, capital da Crimeia e o primeiro-ministro ucraniano, Arseni Iatseniuk, já disse que "o conflito passou da fase política à fase militar". "Hoje as tropas russas começaram a atirar sobre os nossos soldados - é um crime de guerra", disse o governante.


 


Será improvável que o ministro russo se sente à mesa com o seu congénere ucraniano, uma vez que Moscovo insiste na ilegitimidade do novo Governo de Kiev. Por isso agora espera-se qual será a resposta da Ucrânia e dos seus aliados (segundo os acordos de Budapeste, os EUA e a UE terão de defender a Ucrânia de qualquer invasão russa)?


Para já, a UE e Estados Unidos anunciaram o congelamento de bens e a revogação de vistos de vários políticos russos e ucranianos. Barack Obama tinha dado uma autorização executiva para a aplicação de sanções a 11 cidadãos russos e ucranianos, seguindo a mesma lógica de Bruxelas. Mas o vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozin foi o primeiro a desvalorizar as sanções: "Camarada Obama, e o que fará àqueles que não têm contas nem bens no estrangeiro? Ou não pensou nisso?",  "Acho que o rascunho da ordem do Presidente dos EUA foi feito por algum brincalhão".


 


O impacto das sanções foi praticamente nulo. Os mercados financeiros também não acusaram o anúncio das sanções sobre a Rússia. Durante a tarde, a Bolsa de Moscovo contabilizava ganhos de 3,7% e o rublo tinha recuperado algumas perdas iniciais.


A reacção reflectia o sentimento dos investidores em relação ao carácter apenas simbólico das sanções, uma vez que não incluíram administradores de grandes empresas russas como se chegou a antecipar. Na sexta-feira, o jornal alemão Bild noticiava que Alexei Miller, presidente executivo da Gazprom, e Igor Sechin, presidente da Rosneft, estariam na lista da UE. 


O que quer isto dizer? Que a reacção dos EUA e da UE é apenas simbólica. Ninguém se quer meter com os russos.


 


A União Europeia está numa situação mais delicada que os Estados Unidos, pois tem no seu seio movimentos separatistas (nomeadamente em Espanha e Reino Unido). A fraca actuação sobre a Rússia na "emancipação" da Crimeia, poderá levar a que outros povos com impulsos separatistas se sintam tentados a autonomizar-se. Por exemplo a Catalunha. Hoje saiu o resultado do último inquérito do Centro de Estudos de Opinião da Generalitat (o governo regional) que mostra que quase 60% dos catalães querem que a Catalunha seja um “novo estado da Europa”.  A Geografia está a mudar.

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