
Há várias mensagens, umas claras, outras implícitas, nas respostas de Ricardo Salgado às jornalistas do Jornal de Negócios. O presidente do BES começa por dar respostas diplomáticas e vai assumindo uma postura mais frontal ao longo da entrevista, nalgumas respostas deve ter tido um tom mesmo irritado. Começa por diplomaticamente assumir os erros de gestão em solidariedade, não se descartando das suas responsabilidades na má gestão das holdings familiares. Na prática o que parece querer dizer é que todos sabiam que facilitavam; o facto de se tratarem de holdings familiares dava alguma liberdade para uma certa negligência, desde que a parte financeira (a sala e a casa de jantar de toda a casa Espírito Santo, aquela onde se recebem os convidados) estivesse muito limpa. O contexto económico obrigou os reguladores a acordarem dessa letargia que é o respeito institucional pelos banqueiros e a legislação mudou sem que o Grupo Espírito Santo tivesse tido tempo de arrumar a casa "não financeira". A isto acrescem as auditorias de vários nomes e proveniências (ETRICC, por exemplo) que trouxeram à luz do dia que as dívidas da ES Internacional estavam fora do perímetro de consolidação (não estavam contabilizadas), embora o risco estivesse no banco. Faz o mea culpa, mas não está sozinho e ninguém na família lhe pode apontar o dedo sem que também tenha co-responsabilidade nesta negligência. É nisto que se traduz o que diz o banqueiro sobre o que se passou na ES Internacional (dívidas não reconhecidas, etc). O "commissaire aux compte", ficará para a história esta expressão, Machado Cruz, foi o crucificado, demitiu-se pelo seu próprio pé. Acredito que ser voluntário na demissão seja um mero pormenor.
Sobre a sucessão
Ricardo Salgado diz sobre as alterações na administração do banco que"para mim faz sentido que haja. Para isso temos de saber o resultado do aumento de capital e quem é que vai ser accionista do BES. Depois conversa-se com o Banco de Portugal, para definir qual é a estrutura que vai permitir ao banco ser desconsolidado da ESFG, mas ter uma administração que seja capaz de levar o barco em frente, com o enorme potencial que esta casa tem". O banqueiro está a dizer nas entrelinhas que depois do aumento de capital, já com uma estrutura accionista completamente diferente, haverá mudanças na gestão do BES. Uma vez que a ESFG não terá mais de 27%, nem menos de 20% para poder consolidar, e uma vez que o Crédit Agrícole está a sair devagarinho, haverá de certeza novos accionistas - mais à frente diz que José Maria Ricciardi, o seu primo presidente do BESI, lhe apresentou um projecto interessante com investidores do Médio Oriente que poderiam estar interessados no aumento de capital, investidores do Golfo -.
A nova estrutura accionista será portanto o pretexto para imprimir uma mudança na gestão executiva do BES. Ricardo Salgado não a descarta pois a seguir diz "mas também sou realista. Sabe quantos anos eu vou fazer no dia 25 de Junho? 70. Portanto esta casa vai precisar de uma equipa inteligente, vigorosa, enérgica para seguir em frente dentro daquilo que é a União Bancária europeia". Os jornalistas insistem num plano, num calendário e ele volta a falar do pós-aumento de capital, que "se Deus quiser, termina em meados de Junho". O que se irá passar? Nessa altura, numa conversa com os reguladores e com os accionistas de referência irá escolher-se um novo CEO. Ricardo Salgado ficará Chairman, muito provavelmente. Joaquim Goes? Algum gestor profissional de fora do grupo? Ainda é cedo para garantir.
José Maria Ricciardi:
“Está sempre razoável, está sempre na sua, no banco de investimento”. Isto é, leia-se, é lá que deverá continuar. Sobre as questões que José Maria Ricciardi levantou no Conselho Superior, e que têm a ver com os alegados fees que recebeu por ajudar clientes do BES como consultor (empresário/construtor angolano José Guilherme, foi o caso tornado público), o presidente do BES foi blasé na resposta: "acho que as pessoas têm o direito a ter ambições. É normal que estas ambições se manifestem. Tivemos oportunidade de falar sobre isso, nessa altura". Alguma condescendência em relação ao primo, leva a crer que tem a certeza que o presidente do BESI não irá suceder-lhe na chefia da comissão executiva do BES.
BESA, a raiz de todos os males:
Álvaro terá, aparentemente, usado o BESA para ajudar uns "tios" angolanos, o apelido não podia ser mais indicado, estava fadado para o papel. Mas serão os "tios" inocentes nestas lides?
Graças à parte, o BES Angola, durante anos liderado por Álvaro Sobrinho, terá tido uma política de concessão de crédito desastrosa. O BESA tem um rácio de crédito sobre depósitos de mais de 200% (191% em 2012 e 220% actualmente) e a maioria do crédito concedido sob gestão de Álvaro Sobrinho não tem garantias ou colaterais. É o que sai das declarações do presidente do BES. Traduzindo: do total de créditos a clientes, no valor de €5.712 milhões no final de 2013, muitos são créditos a entidades angolanas amigas e a partes interessadas ou relacionadas com Sobrinho, sem que haja activos para fazer face ao risco de incumprimento desses créditos. Esse é o rasto de Álvaro Sobrinho no BESA que terá levado à sua demissão. Mas a facilidade com que o Governo de José Eduardo dos Santos prestou garantias ao BESA sobre esses créditos, revela que não há inocentes em Angola. Aquela questão de a independência informática ter justificado o desconhecimento parece-me francamente uma desculpa. Anos e anos a ir a Angola e a receber as contas do BESA e nunca se aperceberam? Bullshit!!! Não era crédito escondido...
Essa e a do commissaire aux compte da ES Internacional ser o culpado de tudo, parecem autênticos mitos urbanos. Ou afinal o BES se gere com uma descentralização cega e Ricardo Salgado está presente no board das várias subsidiárias e participadas apenas por simbolismo, e não se dava ao trabalho de olhar para a gestão (os gestores não executivos são supostos fiscalizarem a gestão executiva), ou então tinha uma margem muito limitada para actuar e confiava porque não tinha outra alternativa.
Sobre a Escom, confessa agora que está à venda. Afinal não está vendida, como chegou a ser registado, o valor da primeira venda não foi aceite pelos angolanos, que desrespeitaram o acordo e não concretizaram a venda. Não sei se Álvaro Sobrinho terá alguma coisa a ver com isto também.
Ricardo Salgado dá outras notícias interessantes:
Que a Rioforte vai fazer um aumento de capital de mil milhões, sem recurso à bolsa. Mas não diz quem vai lá pôr o dinheiro (investidores institucionais e particulares, diz). O IPO da Rioforte será mais tarde porque "há uma parte dos activos angolanos imobiliários, de valor substancial, que ainda não estão sequer dentro do balanço da ESI"...
Diz ainda que vai vender uma parte da Tranquilidade a um dos interessados preteridos na Caixa Seguros. Um private equity ou uma companhia internacional. Vão vender activos, tais como um imóvel em Miami.
O que é pena não dito?
A comissão de 8,5 milhões de euros que terá recebido do empresário angolano José Guilherme. Estaria a desenvolver uma actividade particular de banca de investimento?
Limita-se a dizer que não foi uma comissão. Diz que já disse a quem de direito. Mas não explica na entrevista. Diz que nunca aceitou remuneração nenhuma de quem quer que fosse.
Parece estar a proteger alguém, e por isso recusa-se a responder publicamente sobre essa "não comissão".
Em relação ao RERT tudo normal. Não há nada de novo ali e as indignações quanto à regularização fiscal são espuma dos dias.
A frase mais comovente: "não posso esconder que é uma coisa terrível sentir que há uma espécie de operação cirúrgica para denegrir o meu nome". Há, ao longo da entrevista um lamento, e a referência a uma campanha negra. São as jornalistas que referem o nome de Pedro Queiroz Pereira como um possível delator das irregularidades da Espírito Santo Internacional, e da situação de exposição da Espírito Santo Liquidez a dívida do próprio grupo (que depois se resolve com a venda do papel comercial aos balcões do banco).
As calúnias voam e são sempre imparáveis. Este país é pequeno e dado a opiniões fáceis e pouco aprofundadas. Ricardo Salgado, ter-se-á posto a jeito nalgumas coisas, noutras nem por isso, mas o efeito multiplicador da mancha na sua imagem é imparável e devastador. É uma pena passar de "o único verdadeiro banqueiro", a "Dono Disto Tudo" e finalmente a "banqueiro maldito". A desconfiança é um vírus muito resistente.
Como salvar a posteridade quando já não há futuro suficiente?