quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vêm aí tempos perigosos

Este título soa um bocadinho a Nostradamus. Mas o que pensar quando vemos os muçulmanos a fazerem manifestações de ódio ao ocidente? No Irão uma manifestação gritava morte aos EUA e Grã-Bertanha (esqueceram-se do Zapatero?). Um atentado falhado num avião que ia da Holanda para os Estados Unidos. Parece vir aí uma guerra santa. Mas será santa? O Ocidente tem hoje alguma fé? Num mundo votado ao individualismo e o narcisismo, o ama-te a ti mesmo acima de todas as coisas, substituiu o ama os outros como a ti mesmo e a Deus acima de todas as coisas.
No outro dia, ouvi um Padre (João Seabra) dizer uma coisa muito sábia: "A fé nos dias de hoje, tem uma hipótese. É que ela corresponde à natureza humana. Temos em nós o desejo do infinito". O desejo de infinito.... esse que está ameaçado por teoria culturais do corpo, da sexualidade como uma escolha "racional e consciente". Como se fosse a razão que determina o sexo e o desejo e ambos não fossem uma criação da natureza, com vista à preservação da espécie.
Quando a humanidade tenta revoltar-se contra as leis da natureza, não se lhe augura um bom fim. Para que nos querem declarar guerras santas, se nós já somos tão bons a destruirmo-nos a nós próprios?
O ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação ao meio, que lhe é simultaneamente benéfica e trágica. Por isso estamos todos a adaptarmo-nos a esta nova vaga hedonista. O que leva à solidão e ao vazio, mas todos estão muito contentes porque são livres de escolher tudo e mais alguma coisa. Escolhem, escolhem, entram em psicose com a liberdade de escolha, e depois, no fim do dia, não estão felizes. Só não podem escolher não morrer! Porque a natureza é sempre soberana.
Hoje está na moda defender com grande fervor o Ambiente, mas paradoxalmente a palavra procriação entrou no léxico maldito. Hoje quando alguém defende a procriação, saem das tumbas umas vozes revoltadas. Procriação substituiu a palavra Adultério de décadas passadas. A letra escarlate de hoje terá de ser o P, de procriação. É condenado socialmente quem defende a procriação. Sobretudo quando vem associada ao casamento. É quase um pecado que o casamento tenha procriação!
Há alguns que acrescentam um prefixo 'só' para se sentirem menos desumanos. "Só procriação, não", gritam os arautos da liberdade. Pois, ter filhos tira a liberdade... coisa chata!
Para quê defender o ambiente, para que serve o ambiente quando já não houver pessoas?
A adopção, fala-se da adopção como uma forma de procriação para os seres que a natureza impediu de procriar (por alguma razão o fez). Mas alguém dará filhos para a adopção quando puderem abortar livremente e de graça? Ninguém, como é óbvio. Para os defensores do individualismo, é mais doloroso ter um filho vivo algures do que um embrião na pia. Quem defende o aborto para libertar a mulher dessa função vital que a natureza lhe reservou, está a limitar a liberdade ao individualismo e ao oportunismo contemporâneo. Ai, ai as mulheres e esta mania de serem livres da sua função de mulheres!
Hoje quando se defende a biologia e as leis da vida, o que as pessoas ouvem são mandamentos morais a abater. E cá estamos nós no niilismo. Os outros são seres a respeitar no seu espaço a que nos recusamos a invadir, para não sentir nada. Não estamos para nos chatear, queremos sopas e descanso.
Entrega ao outro? Isso é uma miragem.... o resultado é uma corrida aos livros de auto-ajuda... anda tudo à procura da receita de como ser feliz sem precisar dos outros. Olhem, não procurem mais, não há receita. Só se é feliz naquilo que a natureza nos criou. Somos seres de amor ao outro, na entrega, na complementaridade natural, fora disso não há nada, só uma momentânea satisfação e um circulo vicioso entre a culpa e a euforia.

Vêm aí tempos perigosos

Este título soa um bocadinho a Nostradamus. Mas o que pensar quando vemos os muçulmanos a fazerem manifestações de ódio ao ocidente? No Irão uma manifestação gritava morte aos EUA e Grã-Bertanha (esqueceram-se do Zapatero?). Um atentado falhado num avião que ia da Holanda para os Estados Unidos. Parece vir aí uma guerra santa. Mas será santa? O Ocidente tem hoje alguma fé? Num mundo votado ao individualismo e o narcisismo, o ama-te a ti mesmo acima de todas as coisas, substituiu o ama os outros como a ti mesmo e a Deus acima de todas as coisas.
No outro dia, ouvi um Padre (João Seabra) dizer uma coisa muito sábia: "A fé nos dias de hoje, tem uma hipótese. É que ela corresponde à natureza humana. Temos em nós o desejo do infinito". O desejo de infinito.... esse que está ameaçado por teoria culturais do corpo, da sexualidade como uma escolha "racional e consciente". Como se fosse a razão que determina o sexo e o desejo e ambos não fossem uma criação da natureza, com vista à preservação da espécie.
Quando a humanidade tenta revoltar-se contra as leis da natureza, não se lhe augura um bom fim. Para que nos querem declarar guerras santas, se nós já somos tão bons a destruirmo-nos a nós próprios?
O ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação ao meio, que lhe é simultaneamente benéfica e trágica. Por isso estamos todos a adaptarmo-nos a esta nova vaga hedonista. O que leva à solidão e ao vazio, mas todos estão muito contentes porque são livres de escolher tudo e mais alguma coisa. Escolhem, escolhem, entram em psicose com a liberdade de escolha, e depois, no fim do dia, não estão felizes. Só não podem escolher não morrer! Porque a natureza é sempre soberana.
Hoje está na moda defender com grande fervor o Ambiente, mas paradoxalmente a palavra procriação entrou no léxico maldito. Hoje quando alguém defende a procriação, saem das tumbas umas vozes revoltadas. Procriação substituiu a palavra Adultério de décadas passadas. A letra escarlate de hoje terá de ser o P, de procriação. É condenado socialmente quem defende a procriação. Sobretudo quando vem associada ao casamento. É quase um pecado que o casamento tenha procriação!
Há alguns que acrescentam um prefixo 'só' para se sentirem menos desumanos. "Só procriação, não", gritam os arautos da liberdade. Pois, ter filhos tira a liberdade... coisa chata!
Para quê defender o ambiente, para que serve o ambiente quando já não houver pessoas?
A adopção, fala-se da adopção como uma forma de procriação para os seres que a natureza impediu de procriar (por alguma razão o fez). Mas alguém dará filhos para a adopção quando puderem abortar livremente e de graça? Ninguém, como é óbvio. Para os defensores do individualismo, é mais doloroso ter um filho vivo algures do que um embrião na pia. Quem defende o aborto para libertar a mulher dessa função vital que a natureza lhe reservou, está a limitar a liberdade ao individualismo e ao oportunismo contemporâneo. Ai, ai as mulheres e esta mania de serem livres da sua função de mulheres!
Hoje quando se defende a biologia e as leis da vida, o que as pessoas ouvem são mandamentos morais a abater. E cá estamos nós no niilismo. Os outros são seres a respeitar no seu espaço a que nos recusamos a invadir, para não sentir nada. Não estamos para nos chatear, queremos sopas e descanso.
Entrega ao outro? Isso é uma miragem.... o resultado é uma corrida aos livros de auto-ajuda... anda tudo à procura da receita de como ser feliz sem precisar dos outros. Olhem, não procurem mais, não há receita. Só se é feliz naquilo que a natureza nos criou. Somos seres de amor ao outro, na entrega, na complementaridade natural, fora disso não há nada, só uma momentânea satisfação e um circulo vicioso entre a culpa e a euforia.

Vêm aí tempos perigosos

Este título soa um bocadinho a Nostradamus. Mas o que pensar quando vemos os muçulmanos a fazerem manifestações de ódio ao ocidente? No Irão uma manifestação gritava morte aos EUA e Grã-Bertanha (esqueceram-se do Zapatero?). Um atentado falhado num avião que ia da Holanda para os Estados Unidos. Parece vir aí uma guerra santa. Mas será santa? O Ocidente tem hoje alguma fé? Num mundo votado ao individualismo e o narcisismo, o ama-te a ti mesmo acima de todas as coisas, substituiu o ama os outros como a ti mesmo e a Deus acima de todas as coisas.
No outro dia, ouvi um Padre (João Seabra) dizer uma coisa muito sábia: "A fé nos dias de hoje, tem uma hipótese. É que ela corresponde à natureza humana. Temos em nós o desejo do infinito". O desejo de infinito.... esse que está ameaçado por teoria culturais do corpo, da sexualidade como uma escolha "racional e consciente". Como se fosse a razão que determina o sexo e o desejo e ambos não fossem uma criação da natureza, com vista à preservação da espécie.
Quando a humanidade tenta revoltar-se contra as leis da natureza, não se lhe augura um bom fim. Para que nos querem declarar guerras santas, se nós já somos tão bons a destruirmo-nos a nós próprios?
O ser humano é dotado de uma capacidade de adaptação ao meio, que lhe é simultaneamente benéfica e trágica. Por isso estamos todos a adaptarmo-nos a esta nova vaga hedonista. O que leva à solidão e ao vazio, mas todos estão muito contentes porque são livres de escolher tudo e mais alguma coisa. Escolhem, escolhem, entram em psicose com a liberdade de escolha, e depois, no fim do dia, não estão felizes. Só não podem escolher não morrer! Porque a natureza é sempre soberana.
Hoje está na moda defender com grande fervor o Ambiente, mas paradoxalmente a palavra procriação entrou no léxico maldito. Hoje quando alguém defende a procriação, saem das tumbas umas vozes revoltadas. Procriação substituiu a palavra Adultério de décadas passadas. A letra escarlate de hoje terá de ser o P, de procriação. É condenado socialmente quem defende a procriação. Sobretudo quando vem associada ao casamento. É quase um pecado que o casamento tenha procriação!
Há alguns que acrescentam um prefixo 'só' para se sentirem menos desumanos. "Só procriação, não", gritam os arautos da liberdade. Pois, ter filhos tira a liberdade... coisa chata!
Para quê defender o ambiente, para que serve o ambiente quando já não houver pessoas?
A adopção, fala-se da adopção como uma forma de procriação para os seres que a natureza impediu de procriar (por alguma razão o fez). Mas alguém dará filhos para a adopção quando puderem abortar livremente e de graça? Ninguém, como é óbvio. Para os defensores do individualismo, é mais doloroso ter um filho vivo algures do que um embrião na pia. Quem defende o aborto para libertar a mulher dessa função vital que a natureza lhe reservou, está a limitar a liberdade ao individualismo e ao oportunismo contemporâneo. Ai, ai as mulheres e esta mania de serem livres da sua função de mulheres!
Hoje quando se defende a biologia e as leis da vida, o que as pessoas ouvem são mandamentos morais a abater. E cá estamos nós no niilismo. Os outros são seres a respeitar no seu espaço a que nos recusamos a invadir, para não sentir nada. Não estamos para nos chatear, queremos sopas e descanso.
Entrega ao outro? Isso é uma miragem.... o resultado é uma corrida aos livros de auto-ajuda... anda tudo à procura da receita de como ser feliz sem precisar dos outros. Olhem, não procurem mais, não há receita. Só se é feliz naquilo que a natureza nos criou. Somos seres de amor ao outro, na entrega, na complementaridade natural, fora disso não há nada, só uma momentânea satisfação e um circulo vicioso entre a culpa e a euforia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Morreu José Manuel de Mello


 


Com aquele aguçado sentido do pragmatismo que sempre caracteriza os “fazedores”, e com a tenacidade que deve ter herdado do seu avô Alfredo da Silva, levou uma vida a trabalhar para erguer, solidificar e impor um grupo económico ....


 


Morreu o patrão da CUF, a seu tempo a maior empresa da Europa.


 


Porque o tempo é o único bem que não se pode comprar, fica o seu nome na história económica do nosso país.

Morreu José Manuel de Mello


 


Com aquele aguçado sentido do pragmatismo que sempre caracteriza os “fazedores”, e com a tenacidade que deve ter herdado do seu avô Alfredo da Silva, levou uma vida a trabalhar para erguer, solidificar e impor um grupo económico ....


 


Morreu o patrão da CUF, a seu tempo a maior empresa da Europa.


 


Porque o tempo é o único bem que não se pode comprar, fica o seu nome na história económica do nosso país.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Além do Bem e do Mal

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se; para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha fica a para nós. - Friedrich Wilhelm Nietzsche, "Além do Bem e do Mal"

A visão do belo, ainda que rápida, é um prazer eterno

"A thing of beauty is a joy forever", dizia John Keats

Pedro Mexia sobre o livro da Fátima Lopes

Pedro Mexia sobre a biblioteca fútil. Desta vez: O livro da apresentadora Fátima Lopes, que já vendeu 100 mil. "É assim apresentado numa badana: 'Há o sofrimento, a paixão, o carinho, a alegria e a dor, a cumplicidade e o respeito, experiências boas e relações falhadas, escolhas e caminhos cruzados'. Parece um post no frigorífico: 'Não há margarina, óleo, papel higiénico, espuma de barbear, iogurtes de pêssego'

O elogio do provincianismo

No outro dia alguém me disse que eu era uma pessoa 'old fashion', e apeteceu-me dizer-lhe que o provincianismo nos costumes, pode muito bem ser uma virtude, desde que se seja vanguardista na cultura e nas ideias. Ao contrário o mundo (o português, essencialmente) é moderno nos costumes e nas práticas, e muito provinciano na cultura... passou tudo dos Maias, empurrado à força no secundário, para os "Códigos de Da Vinci" e os "O Segredo".

Diário de Kafka, 2 de Agosto de 1914

"Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde fui nadar".

"Sei o que fizeste no Verão passado", um filme idiota citado por um Primeiro Ministro que quer apostar na cultura

No frente a frente entre José Sócrates e Paulo Portas ficou patente que: Sócrates e Portas são fiéis seguidores da demagogia.
Cada ideia apresentada em confronto é na prática um silogismo (para quem não se lembra das aulas de filosofia, tratam-se de duas premissas verdadeiras que juntas dão um conclusão falsa, mas que ilude).
Sócrates ao fim de uma legislatura em que cultivou o primado das aparências, veio finalmente dizer que Portugal tem de apostar na cultura. Uma verdade, mas que na cabeça de Sócrates não passa de mais um chavão.
Apostar na cultura não pode estar separado de um profunda reforma na educação. Apostar na cultura não é só abrir museus ou pôr mágicos na rua. Apostar na cultura é pôr nos programas escolares, desde a primária até ao secundário, disciplinas obrigatórias como história de arte; filosofia; história da música clássica; literatura nacional e internacional, etc. É preciso pôr a cultura nas disciplinas curriculares, para que se crie uma nova geração com auto-estima, auto-confiança, com o sentido crítico necessário para se ser imune à leviandade, e à superficialidade das aparências, ao marketing político. É na falta de cultura que encontramos as razões de estarmos hoje numa ditadura do pensamento único. Ser cultos para ser livres.
Mas o Governo decidiu facilitar que os alunos passem de ano a todo o custo, não sei com que lógica, talvez seja em nome desta nova preocupação psicótica de não traumatizar as crianças. Mas os traumas são como o humor, ter não é o mesmo que quer ter.

A estrutura da educação hoje é uma estrutura para tarefeiros. A escola tende a banir disciplinas que não têm utilidade prática imediata, para favorecer as que dão instrumentos para realizar tarefas. É uma profunda miopia cultural que tende a atacar o país. Mas o que esperar de um homem (José Sócrates) que cita filmes medíocres, como "Sei o que fizeste no verão passado", um banal filme de terror de 1997?
Devemos à pobreza cultural os clichés que dominam a cabeças dos portugueses, e como o país é pequeno as ideias feitas propagam-se à velocidade da luz, sem questionar.

É por causa da falta de prática de pensar com profundidade que o mundo ocidental (sobretudo a Europa) se converte cada vez mais ao individualismo e às micro-utopias politicamente correctas.

Vivemos numa utopia narcísica, e o perigo dessas utopias narcísicas que por aí proliferam é que o homem é também fruto do meio, não consegue ser imune a ele. Como a natureza humana é feita para entregar amor, para se dar ao outro, para dar vida, em sociedades onde se altera esse paradigma criam-se psicoses, primeiro sociais e depois psicológicas. Mas isto dava para outro campo de discussão....

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Além do Bem e do Mal

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se; para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha fica a para nós. - Friedrich Wilhelm Nietzsche, "Além do Bem e do Mal"

Além do Bem e do Mal

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se; para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha fica a para nós. - Friedrich Wilhelm Nietzsche, "Além do Bem e do Mal"

A visão do belo, ainda que rápida, é um prazer eterno

"A thing of beauty is a joy forever", dizia John Keats

A visão do belo, ainda que rápida, é um prazer eterno

"A thing of beauty is a joy forever", dizia John Keats

Pedro Mexia sobre o livro da Fátima Lopes

Pedro Mexia sobre a biblioteca fútil. Desta vez: O livro da apresentadora Fátima Lopes, que já vendeu 100 mil. "É assim apresentado numa badana: 'Há o sofrimento, a paixão, o carinho, a alegria e a dor, a cumplicidade e o respeito, experiências boas e relações falhadas, escolhas e caminhos cruzados'. Parece um post no frigorífico: 'Não há margarina, óleo, papel higiénico, espuma de barbear, iogurtes de pêssego'

Pedro Mexia sobre o livro da Fátima Lopes

Pedro Mexia sobre a biblioteca fútil. Desta vez: O livro da apresentadora Fátima Lopes, que já vendeu 100 mil. "É assim apresentado numa badana: 'Há o sofrimento, a paixão, o carinho, a alegria e a dor, a cumplicidade e o respeito, experiências boas e relações falhadas, escolhas e caminhos cruzados'. Parece um post no frigorífico: 'Não há margarina, óleo, papel higiénico, espuma de barbear, iogurtes de pêssego'

O elogio do provincianismo

No outro dia alguém me disse que eu era uma pessoa 'old fashion', e apeteceu-me dizer-lhe que o provincianismo nos costumes, pode muito bem ser uma virtude, desde que se seja vanguardista na cultura e nas ideias. Ao contrário o mundo (o português, essencialmente) é moderno nos costumes e nas práticas, e muito provinciano na cultura... passou tudo dos Maias, empurrado à força no secundário, para os "Códigos de Da Vinci" e os "O Segredo".

O elogio do provincianismo

No outro dia alguém me disse que eu era uma pessoa 'old fashion', e apeteceu-me dizer-lhe que o provincianismo nos costumes, pode muito bem ser uma virtude, desde que se seja vanguardista na cultura e nas ideias. Ao contrário o mundo (o português, essencialmente) é moderno nos costumes e nas práticas, e muito provinciano na cultura... passou tudo dos Maias, empurrado à força no secundário, para os "Códigos de Da Vinci" e os "O Segredo".

Diário de Kafka, 2 de Agosto de 1914

"Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde fui nadar".

Diário de Kafka, 2 de Agosto de 1914

"Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde fui nadar".

"Sei o que fizeste no Verão passado", um filme idiota citado por um Primeiro Ministro que quer apostar na cultura

No frente a frente entre José Sócrates e Paulo Portas ficou patente que: Sócrates e Portas são fiéis seguidores da demagogia.
Cada ideia apresentada em confronto é na prática um silogismo (para quem não se lembra das aulas de filosofia, tratam-se de duas premissas verdadeiras que juntas dão um conclusão falsa, mas que ilude).
Sócrates ao fim de uma legislatura em que cultivou o primado das aparências, veio finalmente dizer que Portugal tem de apostar na cultura. Uma verdade, mas que na cabeça de Sócrates não passa de mais um chavão.
Apostar na cultura não pode estar separado de um profunda reforma na educação. Apostar na cultura não é só abrir museus ou pôr mágicos na rua. Apostar na cultura é pôr nos programas escolares, desde a primária até ao secundário, disciplinas obrigatórias como história de arte; filosofia; história da música clássica; literatura nacional e internacional, etc. É preciso pôr a cultura nas disciplinas curriculares, para que se crie uma nova geração com auto-estima, auto-confiança, com o sentido crítico necessário para se ser imune à leviandade, e à superficialidade das aparências, ao marketing político. É na falta de cultura que encontramos as razões de estarmos hoje numa ditadura do pensamento único. Ser cultos para ser livres.
Mas o Governo decidiu facilitar que os alunos passem de ano a todo o custo, não sei com que lógica, talvez seja em nome desta nova preocupação psicótica de não traumatizar as crianças. Mas os traumas são como o humor, ter não é o mesmo que quer ter.

A estrutura da educação hoje é uma estrutura para tarefeiros. A escola tende a banir disciplinas que não têm utilidade prática imediata, para favorecer as que dão instrumentos para realizar tarefas. É uma profunda miopia cultural que tende a atacar o país. Mas o que esperar de um homem (José Sócrates) que cita filmes medíocres, como "Sei o que fizeste no verão passado", um banal filme de terror de 1997?
Devemos à pobreza cultural os clichés que dominam a cabeças dos portugueses, e como o país é pequeno as ideias feitas propagam-se à velocidade da luz, sem questionar.

É por causa da falta de prática de pensar com profundidade que o mundo ocidental (sobretudo a Europa) se converte cada vez mais ao individualismo e às micro-utopias politicamente correctas.

Vivemos numa utopia narcísica, e o perigo dessas utopias narcísicas que por aí proliferam é que o homem é também fruto do meio, não consegue ser imune a ele. Como a natureza humana é feita para entregar amor, para se dar ao outro, para dar vida, em sociedades onde se altera esse paradigma criam-se psicoses, primeiro sociais e depois psicológicas. Mas isto dava para outro campo de discussão....

"Sei o que fizeste no Verão passado", um filme idiota citado por um Primeiro Ministro que quer apostar na cultura

No frente a frente entre José Sócrates e Paulo Portas ficou patente que: Sócrates e Portas são fiéis seguidores da demagogia.
Cada ideia apresentada em confronto é na prática um silogismo (para quem não se lembra das aulas de filosofia, tratam-se de duas premissas verdadeiras que juntas dão um conclusão falsa, mas que ilude).
Sócrates ao fim de uma legislatura em que cultivou o primado das aparências, veio finalmente dizer que Portugal tem de apostar na cultura. Uma verdade, mas que na cabeça de Sócrates não passa de mais um chavão.
Apostar na cultura não pode estar separado de um profunda reforma na educação. Apostar na cultura não é só abrir museus ou pôr mágicos na rua. Apostar na cultura é pôr nos programas escolares, desde a primária até ao secundário, disciplinas obrigatórias como história de arte; filosofia; história da música clássica; literatura nacional e internacional, etc. É preciso pôr a cultura nas disciplinas curriculares, para que se crie uma nova geração com auto-estima, auto-confiança, com o sentido crítico necessário para se ser imune à leviandade, e à superficialidade das aparências, ao marketing político. É na falta de cultura que encontramos as razões de estarmos hoje numa ditadura do pensamento único. Ser cultos para ser livres.
Mas o Governo decidiu facilitar que os alunos passem de ano a todo o custo, não sei com que lógica, talvez seja em nome desta nova preocupação psicótica de não traumatizar as crianças. Mas os traumas são como o humor, ter não é o mesmo que quer ter.

A estrutura da educação hoje é uma estrutura para tarefeiros. A escola tende a banir disciplinas que não têm utilidade prática imediata, para favorecer as que dão instrumentos para realizar tarefas. É uma profunda miopia cultural que tende a atacar o país. Mas o que esperar de um homem (José Sócrates) que cita filmes medíocres, como "Sei o que fizeste no verão passado", um banal filme de terror de 1997?
Devemos à pobreza cultural os clichés que dominam a cabeças dos portugueses, e como o país é pequeno as ideias feitas propagam-se à velocidade da luz, sem questionar.

É por causa da falta de prática de pensar com profundidade que o mundo ocidental (sobretudo a Europa) se converte cada vez mais ao individualismo e às micro-utopias politicamente correctas.

Vivemos numa utopia narcísica, e o perigo dessas utopias narcísicas que por aí proliferam é que o homem é também fruto do meio, não consegue ser imune a ele. Como a natureza humana é feita para entregar amor, para se dar ao outro, para dar vida, em sociedades onde se altera esse paradigma criam-se psicoses, primeiro sociais e depois psicológicas. Mas isto dava para outro campo de discussão....

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Afinal como pode o BPP chegar onde chegou?

Hoje os clientes do Banco Privado Português estão com as contas congeladas, para além das suas aplicações em produtos de retorno absoluto continuarem a desvalorizar até ao infinito. Pelo menos assim parece... Dá-se o absurdo de os clientes não poderem mexer nas suas contas e títulos. E serem obrigados a assistir impotentes à desvalorização das suas poupanças, ao ponto de em vez de créditos passarem a ser dívidas ao banco!!!).

Como se não bastasse o Banco de Portugal "esqueceu-se" de congelar as responsabilidades dos clientes para com o banco, e assim estes continuam a ser obrigados a pagar os empréstimos, apesar de não poderem mexer nem sequer nos depósitos.

Perante este cenário catastrófico, o Ministro das Finanças diz que, como é bom samaritano, está a tentar ajudar a salvar os clientes do retorno absoluto com a transferência dos clientes para um veículo a ser criado pela CGD. Ou seja, está a transferir os cerca de 2000 clientes do BPP para o banco do Estado, que ainda ganhará com isso comissões. Em troca os clientes contentam-se em receber o que valerem os títulos que lhe serão atribuídos.

A garantia do capital que investiram, essa, vão pedir ao BPP em tribunal, ou vão à massa falida. Massa essa que já foi maioritariamente penhorada pelo Estado para um empréstimo que só serviu para pagar parte dos depósitos.

E para se mostrar muito justo, Teixeira dos Santos, atiçou os ex-gestores do BPP aos seus buldozers do Ministério Público. O mesmo que já tinha feito no caso do BCP. Embora no BCP não haja vítimas colaterais ....

Voltando ao BPP. Vamos lá a ver. Eu não sou dada ao papel de justiceira, mas parece-me que se há um banco registado no Banco de Portugal, que vende produtos financeiros, com recurso a alavancagem, que são autorizados pela CMVM, então há pelo menos uma co-responsabilidade dos reguladores neste descalabro a que chegou o BPP.

Hoje a CMVM defende com unhas e dentes os clientes e ainda bem. Mas o hoje Ministro das Finanças, que chuta tudo para canto, era ainda o presidente da CMVM quando em Setembro de 2005 o contrato de gestão de carteiras, que permitia ao BPP intermediar estas operações de financiamento para alavancagem dos investimentos dos clientes, foi aprovado na integra pelo Conselho Directivo da CMVM (tal como o demonstra uma carta enviada nessa altura ao BPP).

Fernando Adão da Fonseca, em resposta à insinuação de Carlos Tavares (e que tem algum fundamento) de que esta administração do BPP não está lá a fazer nada, atirou com as armas secretas: A CMVM sabia de tudo! Diz o BPP, num singelo comunicado, que "toda a explicação dos riscos assumidos pelos clientes na sua actividade de gestão de carteiras foi remetida, já em 30 de Abril de 2004, à CMVM"; "Nesta mesma data de 30 de Abril de 2004 foi ainda fornecida à CMVM a informação relativa à gestão de vários produtos de Retorno Absoluto, em que eram referenciados os tipos de activos em que se investia, as rentabilidades esperadas, as condições de subscrição e reembolso dos mesmos. Juntava-se nessa carta elementos comprovativos de que as estratégias já procediam à alavancagem desde o ano de 2001";" Juntamente com a informação acima referida, foram enviados extractos de clientes, que já apresentavam alavancagem pronunciada".

Alavancagem e retorno absoluto, para qualquer leigo parecem coisas contraditórias, mas a CMVM de Teixeira dos Santos não achou isso e aprovou todos os produtos. Isto porque o BPP dizia que as alavancagens (endividamento) dos veículos "são realizadas com o objectivo de obter retornos adicionais resultantes de taxas mais atractivas obtidas no activo adquirido, face às que serão necessariamente suportadas no financiamento". Pronto e como era para retornos adicionais, nem se lembraram de perguntar quem é que assumia o risco de desvalorização dos activos comprados com a alavancagem. E se era o BPP porque é que isso não estava no balanço, e no rácio do BPP (coisa que o Banco de Portugal devia ter pensado).
Mas como o banco tinha menos de 20% em cada um dos veículos, logo não tinha que consolidar e por isso aqueles rácios chorudos que João Rendeiro apregoavas, pareceram bem a Constâncio!

Ainda me lembro de Vítor Constâncio ter vindo justificar o pedido de fundos por parte de João Rendeiro com o agressivo relatório da Moodys que finalmente tinha descoberto que o rácio de capital do BPP não reflectia o real risco do banco.

Resultado, para o Governo agora o melhor é sacudir a água do capote e como o PS quer mostrar que não se verga aos ricos (demagogia que colhe bem no eleitorado do Bloco de Esquerda a quem Sócrates quer agradar em ano eleitoral), diz que tudo foi culpa de João Rendeiro e seus muchachos.

Do Estado aos reguladores públicos (é preciso ver que Carlos Tavares foi mais humilde que Constâncio e admitiu que a regulação no passado não foi suficientemente eficaz) ninguém assume qualquer responsabilidade. Pois, dizem, o BPP é um banco privado. No entanto todo o futuro deste banco privado depende das "ordens" deste Governo, que no fundo já lhe decretou a falência, ainda que subtilmente.

Afinal como pode o BPP chegar onde chegou?

Hoje os clientes do Banco Privado Português estão com as contas congeladas, para além das suas aplicações em produtos de retorno absoluto continuarem a desvalorizar até ao infinito. Pelo menos assim parece... Dá-se o absurdo de os clientes não poderem mexer nas suas contas e títulos. E serem obrigados a assistir impotentes à desvalorização das suas poupanças, ao ponto de em vez de créditos passarem a ser dívidas ao banco!!!).

Como se não bastasse o Banco de Portugal "esqueceu-se" de congelar as responsabilidades dos clientes para com o banco, e assim estes continuam a ser obrigados a pagar os empréstimos, apesar de não poderem mexer nem sequer nos depósitos.

Perante este cenário catastrófico, o Ministro das Finanças diz que, como é bom samaritano, está a tentar ajudar a salvar os clientes do retorno absoluto com a transferência dos clientes para um veículo a ser criado pela CGD. Ou seja, está a transferir os cerca de 2000 clientes do BPP para o banco do Estado, que ainda ganhará com isso comissões. Em troca os clientes contentam-se em receber o que valerem os títulos que lhe serão atribuídos.

A garantia do capital que investiram, essa, vão pedir ao BPP em tribunal, ou vão à massa falida. Massa essa que já foi maioritariamente penhorada pelo Estado para um empréstimo que só serviu para pagar parte dos depósitos.

E para se mostrar muito justo, Teixeira dos Santos, atiçou os ex-gestores do BPP aos seus buldozers do Ministério Público. O mesmo que já tinha feito no caso do BCP. Embora no BCP não haja vítimas colaterais ....

Voltando ao BPP. Vamos lá a ver. Eu não sou dada ao papel de justiceira, mas parece-me que se há um banco registado no Banco de Portugal, que vende produtos financeiros, com recurso a alavancagem, que são autorizados pela CMVM, então há pelo menos uma co-responsabilidade dos reguladores neste descalabro a que chegou o BPP.

Hoje a CMVM defende com unhas e dentes os clientes e ainda bem. Mas o hoje Ministro das Finanças, que chuta tudo para canto, era ainda o presidente da CMVM quando em Setembro de 2005 o contrato de gestão de carteiras, que permitia ao BPP intermediar estas operações de financiamento para alavancagem dos investimentos dos clientes, foi aprovado na integra pelo Conselho Directivo da CMVM (tal como o demonstra uma carta enviada nessa altura ao BPP).

Fernando Adão da Fonseca, em resposta à insinuação de Carlos Tavares (e que tem algum fundamento) de que esta administração do BPP não está lá a fazer nada, atirou com as armas secretas: A CMVM sabia de tudo! Diz o BPP, num singelo comunicado, que "toda a explicação dos riscos assumidos pelos clientes na sua actividade de gestão de carteiras foi remetida, já em 30 de Abril de 2004, à CMVM"; "Nesta mesma data de 30 de Abril de 2004 foi ainda fornecida à CMVM a informação relativa à gestão de vários produtos de Retorno Absoluto, em que eram referenciados os tipos de activos em que se investia, as rentabilidades esperadas, as condições de subscrição e reembolso dos mesmos. Juntava-se nessa carta elementos comprovativos de que as estratégias já procediam à alavancagem desde o ano de 2001";" Juntamente com a informação acima referida, foram enviados extractos de clientes, que já apresentavam alavancagem pronunciada".

Alavancagem e retorno absoluto, para qualquer leigo parecem coisas contraditórias, mas a CMVM de Teixeira dos Santos não achou isso e aprovou todos os produtos. Isto porque o BPP dizia que as alavancagens (endividamento) dos veículos "são realizadas com o objectivo de obter retornos adicionais resultantes de taxas mais atractivas obtidas no activo adquirido, face às que serão necessariamente suportadas no financiamento". Pronto e como era para retornos adicionais, nem se lembraram de perguntar quem é que assumia o risco de desvalorização dos activos comprados com a alavancagem. E se era o BPP porque é que isso não estava no balanço, e no rácio do BPP (coisa que o Banco de Portugal devia ter pensado).
Mas como o banco tinha menos de 20% em cada um dos veículos, logo não tinha que consolidar e por isso aqueles rácios chorudos que João Rendeiro apregoavas, pareceram bem a Constâncio!

Ainda me lembro de Vítor Constâncio ter vindo justificar o pedido de fundos por parte de João Rendeiro com o agressivo relatório da Moodys que finalmente tinha descoberto que o rácio de capital do BPP não reflectia o real risco do banco.

Resultado, para o Governo agora o melhor é sacudir a água do capote e como o PS quer mostrar que não se verga aos ricos (demagogia que colhe bem no eleitorado do Bloco de Esquerda a quem Sócrates quer agradar em ano eleitoral), diz que tudo foi culpa de João Rendeiro e seus muchachos.

Do Estado aos reguladores públicos (é preciso ver que Carlos Tavares foi mais humilde que Constâncio e admitiu que a regulação no passado não foi suficientemente eficaz) ninguém assume qualquer responsabilidade. Pois, dizem, o BPP é um banco privado. No entanto todo o futuro deste banco privado depende das "ordens" deste Governo, que no fundo já lhe decretou a falência, ainda que subtilmente.

Afinal como pode o BPP chegar onde chegou?

Hoje os clientes do Banco Privado Português estão com as contas congeladas, para além das suas aplicações em produtos de retorno absoluto continuarem a desvalorizar até ao infinito. Pelo menos assim parece... Dá-se o absurdo de os clientes não poderem mexer nas suas contas e títulos. E serem obrigados a assistir impotentes à desvalorização das suas poupanças, ao ponto de em vez de créditos passarem a ser dívidas ao banco!!!).

Como se não bastasse o Banco de Portugal "esqueceu-se" de congelar as responsabilidades dos clientes para com o banco, e assim estes continuam a ser obrigados a pagar os empréstimos, apesar de não poderem mexer nem sequer nos depósitos.

Perante este cenário catastrófico, o Ministro das Finanças diz que, como é bom samaritano, está a tentar ajudar a salvar os clientes do retorno absoluto com a transferência dos clientes para um veículo a ser criado pela CGD. Ou seja, está a transferir os cerca de 2000 clientes do BPP para o banco do Estado, que ainda ganhará com isso comissões. Em troca os clientes contentam-se em receber o que valerem os títulos que lhe serão atribuídos.

A garantia do capital que investiram, essa, vão pedir ao BPP em tribunal, ou vão à massa falida. Massa essa que já foi maioritariamente penhorada pelo Estado para um empréstimo que só serviu para pagar parte dos depósitos.

E para se mostrar muito justo, Teixeira dos Santos, atiçou os ex-gestores do BPP aos seus buldozers do Ministério Público. O mesmo que já tinha feito no caso do BCP. Embora no BCP não haja vítimas colaterais ....

Voltando ao BPP. Vamos lá a ver. Eu não sou dada ao papel de justiceira, mas parece-me que se há um banco registado no Banco de Portugal, que vende produtos financeiros, com recurso a alavancagem, que são autorizados pela CMVM, então há pelo menos uma co-responsabilidade dos reguladores neste descalabro a que chegou o BPP.

Hoje a CMVM defende com unhas e dentes os clientes e ainda bem. Mas o hoje Ministro das Finanças, que chuta tudo para canto, era ainda o presidente da CMVM quando em Setembro de 2005 o contrato de gestão de carteiras, que permitia ao BPP intermediar estas operações de financiamento para alavancagem dos investimentos dos clientes, foi aprovado na integra pelo Conselho Directivo da CMVM (tal como o demonstra uma carta enviada nessa altura ao BPP).

Fernando Adão da Fonseca, em resposta à insinuação de Carlos Tavares (e que tem algum fundamento) de que esta administração do BPP não está lá a fazer nada, atirou com as armas secretas: A CMVM sabia de tudo! Diz o BPP, num singelo comunicado, que "toda a explicação dos riscos assumidos pelos clientes na sua actividade de gestão de carteiras foi remetida, já em 30 de Abril de 2004, à CMVM"; "Nesta mesma data de 30 de Abril de 2004 foi ainda fornecida à CMVM a informação relativa à gestão de vários produtos de Retorno Absoluto, em que eram referenciados os tipos de activos em que se investia, as rentabilidades esperadas, as condições de subscrição e reembolso dos mesmos. Juntava-se nessa carta elementos comprovativos de que as estratégias já procediam à alavancagem desde o ano de 2001";" Juntamente com a informação acima referida, foram enviados extractos de clientes, que já apresentavam alavancagem pronunciada".

Alavancagem e retorno absoluto, para qualquer leigo parecem coisas contraditórias, mas a CMVM de Teixeira dos Santos não achou isso e aprovou todos os produtos. Isto porque o BPP dizia que as alavancagens (endividamento) dos veículos "são realizadas com o objectivo de obter retornos adicionais resultantes de taxas mais atractivas obtidas no activo adquirido, face às que serão necessariamente suportadas no financiamento". Pronto e como era para retornos adicionais, nem se lembraram de perguntar quem é que assumia o risco de desvalorização dos activos comprados com a alavancagem. E se era o BPP porque é que isso não estava no balanço, e no rácio do BPP (coisa que o Banco de Portugal devia ter pensado).
Mas como o banco tinha menos de 20% em cada um dos veículos, logo não tinha que consolidar e por isso aqueles rácios chorudos que João Rendeiro apregoavas, pareceram bem a Constâncio!

Ainda me lembro de Vítor Constâncio ter vindo justificar o pedido de fundos por parte de João Rendeiro com o agressivo relatório da Moodys que finalmente tinha descoberto que o rácio de capital do BPP não reflectia o real risco do banco.

Resultado, para o Governo agora o melhor é sacudir a água do capote e como o PS quer mostrar que não se verga aos ricos (demagogia que colhe bem no eleitorado do Bloco de Esquerda a quem Sócrates quer agradar em ano eleitoral), diz que tudo foi culpa de João Rendeiro e seus muchachos.

Do Estado aos reguladores públicos (é preciso ver que Carlos Tavares foi mais humilde que Constâncio e admitiu que a regulação no passado não foi suficientemente eficaz) ninguém assume qualquer responsabilidade. Pois, dizem, o BPP é um banco privado. No entanto todo o futuro deste banco privado depende das "ordens" deste Governo, que no fundo já lhe decretou a falência, ainda que subtilmente.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Michael Jackson é mais entertainer do que músico

Acabo de ouvir o Pedro Mexia a dizer à Constança Cunha e Sá (no programa Cartas na Mesa) que Michael Jackson, a Madonna e o Prince não fazem parte das suas referências musicais. Dentro do pop, prefere o Bob Dylan que apesar de tudo tem bastante mais qualidade e profundidade do que o Michael Jackson. Não posso concordar mais.

E espanta-me que o mundo esteja obcecado com esta personagem de tão fraca qualidade.
É o espelho da futilidade do mundo.

A música rock/pop é, e sempre foi, património dos britânicos. David Bowie, Dire Straits, Rolling Stones, Joy Division, Billy Idol, Pink Floyd, Genesis, ACDC, U2, Amy Winehouse.... os norte-americanos não atingem a qualidade daquele seu país materno.

Pedro Mexia é um regalo para o ouvido. Mas nesta entrevista ficou encavacado, quando para dizer expressamente que escreve essencialmente sobre o amor (escusava de ter reforçado que estava a falar das relações heterossexuais, como se se quisesse salvaguardar de alguma minoria intimidatória) começou a falar das beleza das mulheres, e por estar em frente de uma senhora já de mais de 40 disse que as mulheres mais velhas são mais interessantes. Ao que ela lhe perguntou até aonde é que ia a bitola dele? Só faltou trocarem telefones e marcarem o date!

O Michael Jackson é mais entertainer do que músico

Acabo de ouvir o Pedro Mexia a dizer à Constança Cunha e Sá (no programa Cartas na Mesa) que Michael Jackson, a Madonna e o Prince não fazem parte das suas referências musicais. Dentro do pop, prefere o Bob Dylan que apesar de tudo tem bastante mais qualidade e profundidade do que o Michael Jackson. Não posso concordar mais.

E espanta-me que o mundo esteja obcecado com esta personagem de tão fraca qualidade.
É o espelho da futilidade do mundo.

A música rock/pop é, e sempre foi, património dos britânicos. David Bowie, Dire Straits, Rolling Stones, Joy Division, Billy Idol, Pink Floyd, Genesis, ACDC, U2, Amy Winehouse.... os norte-americanos não atingem a qualidade daquele seu país materno.

Pedro Mexia é um regalo para o ouvido. Mas nesta entrevista ficou encavacado, quando para dizer expressamente que escreve essencialmente sobre o amor (escusava de ter reforçado que estava a falar das relações heterossexuais, como se se quisesse salvaguardar de alguma minoria intimidatória) começou a falar das beleza das mulheres, e por estar em frente de uma senhora já de mais de 40 disse que as mulheres mais velhas são mais interessantes. Ao que ela lhe perguntou até aonde é que ia a bitola dele? Só faltou trocarem telefones e marcarem o date!

O Michael Jackson é mais entertainer do que músico

Acabo de ouvir o Pedro Mexia a dizer à Constança Cunha e Sá (no programa Cartas na Mesa) que Michael Jackson, a Madonna e o Prince não fazem parte das suas referências musicais. Dentro do pop, prefere o Bob Dylan que apesar de tudo tem bastante mais qualidade e profundidade do que o Michael Jackson. Não posso concordar mais.

E espanta-me que o mundo esteja obcecado com esta personagem de tão fraca qualidade.
É o espelho da futilidade do mundo.

A música rock/pop é, e sempre foi, património dos britânicos. David Bowie, Dire Straits, Rolling Stones, Joy Division, Billy Idol, Pink Floyd, Genesis, ACDC, U2, Amy Winehouse.... os norte-americanos não atingem a qualidade daquele seu país materno.

Pedro Mexia é um regalo para o ouvido. Mas nesta entrevista ficou encavacado, quando para dizer expressamente que escreve essencialmente sobre o amor (escusava de ter reforçado que estava a falar das relações heterossexuais, como se se quisesse salvaguardar de alguma minoria intimidatória) começou a falar das beleza das mulheres, e por estar em frente de uma senhora já de mais de 40 disse que as mulheres mais velhas são mais interessantes. Ao que ela lhe perguntou até aonde é que ia a bitola dele? Só faltou trocarem telefones e marcarem o date!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Robin dos Bosques do Seculo XXI

Nunca achei romântico o Robin dos Bosques. Sempre achei que roubar os ricos para dar aos pobres, não deixava de ser um roubo.
Desde então, Robin dos Bosques tem sido o pai da demagogia, que vê nos ricos a origem da pobreza do mundo. Como se a vida fosse tão linear.

Não há qualquer relação entre os salários altos dos grandes gestores e o baixo crescimento económico. Os altos salários tendem a corresponder às responsabilidades e aos altos riscos que correm os homens que gerem. E quando ainda são mais altos é porque estão indexados aos lucros. Por isso só são maiores quando produzem ou vendem mais. Mas o mundo não resiste a esta relação de causalidade básica e aparente: os ricos são os culpados da crise.

No entanto, a crise financeira deve muito mais à vaidade, e à pressão subtil dessa massificação da imagem que domina o mundo, nesta era do marketing, do que aos euros nos bolsos dos banqueiros. Os bancos não foram à falência porque alguém fugiu com uma mala de dinheiro, o mundo financeiro foi à falência porque vive de aparências. Foi a aparência do dinheiro, e não o dinheiro em si que deu cabo da economia mundial.

Foi o narcisismo, imposto pelo sistema onde a imagem tem mais poder do que um rei, que destronou o castelo de cartas.
Porque é quase impossível na natureza humana erradicar a vaidade. O poder aguça essa paixão.


Aqui vai uma imagem destes Robin dos Bosques modernos que proliferam num mundo votado ao individualismo narcísico, que arrasa as relações humanas.

Robin dos Bosques do Seculo XXI

Nunca achei romântico o Robin dos Bosques. Sempre achei que roubar os ricos para dar aos pobres, não deixava de ser um roubo.
Desde então, Robin dos Bosques tem sido o pai da demagogia, que vê nos ricos a origem da pobreza do mundo. Como se a vida fosse tão linear.

Não há qualquer relação entre os salários altos dos grandes gestores e o baixo crescimento económico. Os altos salários tendem a corresponder às responsabilidades e aos altos riscos que correm os homens que gerem. E quando ainda são mais altos é porque estão indexados aos lucros. Por isso só são maiores quando produzem ou vendem mais. Mas o mundo não resiste a esta relação de causalidade básica e aparente: os ricos são os culpados da crise.

No entanto, a crise financeira deve muito mais à vaidade, e à pressão subtil dessa massificação da imagem que domina o mundo, nesta era do marketing, do que aos euros nos bolsos dos banqueiros. Os bancos não foram à falência porque alguém fugiu com uma mala de dinheiro, o mundo financeiro foi à falência porque vive de aparências. Foi a aparência do dinheiro, e não o dinheiro em si que deu cabo da economia mundial.

Foi o narcisismo, imposto pelo sistema onde a imagem tem mais poder do que um rei, que destronou o castelo de cartas.
Porque é quase impossível na natureza humana erradicar a vaidade. O poder aguça essa paixão.


Aqui vai uma imagem destes Robin dos Bosques modernos que proliferam num mundo votado ao individualismo narcísico, que arrasa as relações humanas.

Robin dos Bosques do Seculo XXI

Nunca achei romântico o Robin dos Bosques. Sempre achei que roubar os ricos para dar aos pobres, não deixava de ser um roubo.
Desde então, Robin dos Bosques tem sido o pai da demagogia, que vê nos ricos a origem da pobreza do mundo. Como se a vida fosse tão linear.

Não há qualquer relação entre os salários altos dos grandes gestores e o baixo crescimento económico. Os altos salários tendem a corresponder às responsabilidades e aos altos riscos que correm os homens que gerem. E quando ainda são mais altos é porque estão indexados aos lucros. Por isso só são maiores quando produzem ou vendem mais. Mas o mundo não resiste a esta relação de causalidade básica e aparente: os ricos são os culpados da crise.

No entanto, a crise financeira deve muito mais à vaidade, e à pressão subtil dessa massificação da imagem que domina o mundo, nesta era do marketing, do que aos euros nos bolsos dos banqueiros. Os bancos não foram à falência porque alguém fugiu com uma mala de dinheiro, o mundo financeiro foi à falência porque vive de aparências. Foi a aparência do dinheiro, e não o dinheiro em si que deu cabo da economia mundial.

Foi o narcisismo, imposto pelo sistema onde a imagem tem mais poder do que um rei, que destronou o castelo de cartas.
Porque é quase impossível na natureza humana erradicar a vaidade. O poder aguça essa paixão.


Aqui vai uma imagem destes Robin dos Bosques modernos que proliferam num mundo votado ao individualismo narcísico, que arrasa as relações humanas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Nunca digas que sou o que fui!

O mais espectacular em Joe Berardo é a capacidade de passar de vilão a polícia num ápice. Depois de anos a especular com títulos cotados - era conhecido como o raider. Comprava 10% das empresas chateava até à exaustão nas AG para valorizar a sua participação juntos dos maioritários. Depois de anos a beneficiar das abébias que a lei permitia. Anos à boleia dos Caldeiras desta vida. Dono de inúmeras offshores e de uma Fundação pessoal que lhe dá beneficios fiscais vem criticar George Soros por "economizar impostos".
Vejam só esta notícia: "Joe Berardo culpa os executivos bancários e os operadores do mercado de derivados pela actual crise financeira dizendo que eles deveriam estar todos presos . O empresário aponta também o dedo ao investidor George Soros pelo falta de controlo no mercado financeiro". É caso para dizer, nunca digas que sou o que fui!
O empresário, cujas principais perdas sofridas foram com as acções do BCP, lamenta também os prejuízos com acções do Citigroup e do Royal Bank of Sctland que tinha comprado “para os netos” e diz que se sentiu enganado ao assistir à sucessão de prejuízos anunciados pelas instituições. “Eles deveriam estar todos presos. Levaram o mundo à bancarrota”, disse citado pela Valor, referindo-se aos executivos de bancos e operadores do mercado de derivados. Outro culpado pela crise apontado por Berardo é o milionário George Soros. O empresário madeirense diz que o investidor húngaro é o “grande culpado” pela falta de controlo no mercado financeiro depois do bem sucedido ataque especulativo à libra esterlina, em 1992, que mudou a estrutura do sistema financeiro.“O Soros dá uma patacas para caridade e ninguém percebe que ele quer economizar impostos”, disse Berardo, qual arauto do altruismo, e da ética fiscal!
Nunca digas que sou o que fui!

Nunca digas que sou o que fui!

O mais espectacular em Joe Berardo é a capacidade de passar de vilão a polícia num ápice. Depois de anos a especular com títulos cotados - era conhecido como o raider. Comprava 10% das empresas chateava até à exaustão nas AG para valorizar a sua participação juntos dos maioritários. Depois de anos a beneficiar das abébias que a lei permitia. Anos à boleia dos Caldeiras desta vida. Dono de inúmeras offshores e de uma Fundação pessoal que lhe dá benefícios fiscais vem criticar George Soros por "economizar impostos".
Vejam só esta notícia: "Joe Berardo culpa os executivos bancários e os operadores do mercado de derivados pela actual crise financeira dizendo que eles deveriam estar todos presos . O empresário aponta também o dedo ao investidor George Soros pelo falta de controlo no mercado financeiro". É caso para dizer, nunca digas que sou o que fui!
O empresário, cujas principais perdas sofridas foram com as acções do BCP, lamenta também os prejuízos com acções do Citigroup e do Royal Bank of Sctland que tinha comprado “para os netos” e diz que se sentiu enganado ao assistir à sucessão de prejuízos anunciados pelas instituições. “Eles deveriam estar todos presos. Levaram o mundo à bancarrota”, disse citado pela Valor, referindo-se aos executivos de bancos e operadores do mercado de derivados. Outro culpado pela crise apontado por Berardo é o milionário George Soros. O empresário madeirense diz que o investidor húngaro é o “grande culpado” pela falta de controlo no mercado financeiro depois do bem sucedido ataque especulativo à libra esterlina, em 1992, que mudou a estrutura do sistema financeiro.“O Soros dá uma patacas para caridade e ninguém percebe que ele quer economizar impostos”, disse Berardo, qual arauto do altruísmo, e da ética fiscal!
Nunca digas que sou o que fui!

Nunca digas que sou o que fui!

O mais espectacular em Joe Berardo é a capacidade de passar de vilão a polícia num ápice. Depois de anos a especular com títulos cotados - era conhecido como o raider. Comprava 10% das empresas chateava até à exaustão nas AG para valorizar a sua participação juntos dos maioritários. Depois de anos a beneficiar das abébias que a lei permitia. Anos à boleia dos Caldeiras desta vida. Dono de inúmeras offshores e de uma Fundação pessoal que lhe dá benefícios fiscais vem criticar George Soros por "economizar impostos".
Vejam só esta notícia: "Joe Berardo culpa os executivos bancários e os operadores do mercado de derivados pela actual crise financeira dizendo que eles deveriam estar todos presos . O empresário aponta também o dedo ao investidor George Soros pelo falta de controlo no mercado financeiro". É caso para dizer, nunca digas que sou o que fui!
O empresário, cujas principais perdas sofridas foram com as acções do BCP, lamenta também os prejuízos com acções do Citigroup e do Royal Bank of Sctland que tinha comprado “para os netos” e diz que se sentiu enganado ao assistir à sucessão de prejuízos anunciados pelas instituições. “Eles deveriam estar todos presos. Levaram o mundo à bancarrota”, disse citado pela Valor, referindo-se aos executivos de bancos e operadores do mercado de derivados. Outro culpado pela crise apontado por Berardo é o milionário George Soros. O empresário madeirense diz que o investidor húngaro é o “grande culpado” pela falta de controlo no mercado financeiro depois do bem sucedido ataque especulativo à libra esterlina, em 1992, que mudou a estrutura do sistema financeiro.“O Soros dá uma patacas para caridade e ninguém percebe que ele quer economizar impostos”, disse Berardo, qual arauto do altruísmo, e da ética fiscal!
Nunca digas que sou o que fui!

terça-feira, 24 de março de 2009

As memórias procriam,

Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fosse pessoas vivas.

Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo

As memórias procriam,

Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fosse pessoas vivas.

Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo

As memórias procriam,

Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fosse pessoas vivas.

Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo

sábado, 21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

Adeus

de Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Dia Mundial da Poesia

Adeus

de Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Dia Mundial da Poesia

Adeus

de Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Madonna vista pela Agustina

Perdição
Madonna é mais do que um título, é uma expedição às regiões da infecundidade. Longe de estarmos perante um espectáculo sensual e excitante. Há nele um acelerar da perdição, por isso parece tão impolgante, tão desvairado. A atroz fusão num destino geral produz nas multidões um desejo incomensurável: o de não procriar mais, o desencadear um desafio ao género humano - o ódio à espécie.

Não vamos equivocar-nos. A tremenda apoteose de Madonna, o seu triunfo no palco, a perigosidade do ruído por ela provocado, não estão na linha da sexualidade permitiva. Pode ela despir-se em público e receber como troféu milhares de calcinhas e outras roupas interiores. Isto não significa declaração dos instintos vitais.
A partir de certo grau de solidão as multidões tornam-se rebeldes ao amor. Esses jovens, aparentemente arrebatados por Madonna e pelas suas liberdades cénicas, estão mais perto de renegar a mulher do que de a desejar. Madonna não é um estímulo sexual, é o seu contrário, uma justificação para o desprezo que os homens preferem ao amor.


P.S. Isto diz muito sobre o tipo de fãs

Madonna vista pela Agustina

Perdição




Madonna é mais do que um título, é uma expedição às regiões da infecundidade. Longe de estarmos perante um espectáculo sensual e excitante. Há nele um acelerar da perdição, por isso parece tão empolgante, tão desvairado. A atroz fusão num destino geral produz nas multidões um desejo incomensurável: o de não procriar mais, o desencadear um desafio ao género humano - o ódio à espécie.

 


Não vamos equivocar-nos. A tremenda apoteose de Madonna, o seu triunfo no palco, a perigosidade do ruído por ela provocado, não estão na linha da sexualidade primitiva. Pode ela despir-se em público e receber como troféu milhares de calcinhas e outras roupas interiores. Isto não significa declaração dos instintos vitais.


A partir de certo grau de solidão as multidões tornam-se rebeldes ao amor. Esses jovens, aparentemente arrebatados por Madonna e pelas suas liberdades cénicas, estão mais perto de renegar a mulher do que de a desejar. Madonna não é um estímulo sexual, é o seu contrário, uma justificação para o desprezo que os homens preferem ao amor.

 



 


P.S. Isto diz muito sobre o tipo de fãs

Madonna vista pela Agustina

Perdição




Madonna é mais do que um título, é uma expedição às regiões da infecundidade. Longe de estarmos perante um espectáculo sensual e excitante. Há nele um acelerar da perdição, por isso parece tão empolgante, tão desvairado. A atroz fusão num destino geral produz nas multidões um desejo incomensurável: o de não procriar mais, o desencadear um desafio ao género humano - o ódio à espécie.

 


Não vamos equivocar-nos. A tremenda apoteose de Madonna, o seu triunfo no palco, a perigosidade do ruído por ela provocado, não estão na linha da sexualidade primitiva. Pode ela despir-se em público e receber como troféu milhares de calcinhas e outras roupas interiores. Isto não significa declaração dos instintos vitais.


A partir de certo grau de solidão as multidões tornam-se rebeldes ao amor. Esses jovens, aparentemente arrebatados por Madonna e pelas suas liberdades cénicas, estão mais perto de renegar a mulher do que de a desejar. Madonna não é um estímulo sexual, é o seu contrário, uma justificação para o desprezo que os homens preferem ao amor.

 



 


P.S. Isto diz muito sobre o tipo de fãs

segunda-feira, 9 de março de 2009

Medina Carreira acha que Portugal não tem remédio.. e eu também

Como povo tivemos pouca sorte. A inteligência não faz parte do ADN do nosso povo... Não temos nos antepassados nenhuns um Kant, nem um Kierkgaard, nem um Freud... Somos o país da nostalgia e melancolia, e esses ainda são os sentimentos mais nobres que temos. Mesmo assim cada vez mais escassos nesta cultura do centro comercial... do fascínio do consumo como alternativa ao amor...

Continuamos reféns dos instintos básicos, no caso, em regra espontaneamente maus... porque há a tentação do mal, mas também há a tentação do bem. Há quem tenha o bem por instinto ...

Temos hoje a agravante de ter perdido as benesses do provincianismo sem ganharmos a vantagens do cosmopolitismo.
Perdemos a solidariedade de vizinhança, os sítios familiares, a entreajuda e o sentido de pertença, em troca não ganhámos, nem o profissionalismo, nem o valor do mérito, nem a auto-estima que nos tornaria arrojados.
Importámos as ervas daninhas da moderna Europa, a tolerância hipócrita, a ilusão do individualismo, a soberba do narcisismo. Somos narcisistas em todos os momentos da nossa vida. Os outros passaram de cúmplices a espelhos de nós. Woody Allen, dizia ironicamente "nasci judeu mas já me converti ao narcisismo".

Em Portugal, por exemplo, a vida acaba aos 40 anos. Quem até aí não encontrou o seu lugar, não o encontra mais. Não há em Portugal exemplos de advogados, engenheiros, bancários que decidam aos 40, 50 mudar radicalmente de vida, ser actores de teatro, ser guionistas, ser artistas, escritores ... mesmo que alguém o quisesse, seria provavelmente impossível. Um dia tentei encontrar um curso de guinonismo, um curso a sério. Mas em Portugal só encontrei workshops caros e desinteressantes. Já em Espanha encontrava-se guionismo por todo o lado, nas universidades espanholas. Cá nada. Eu que queria aprender a escrever guiões para cinema e para o teatro. Não encontrei nada. Mesmos os cursinhos curtos que andam para aí são dados com desânimo porque os professores (guionistas desempregados) sabem que aquilo que estão a dar não serve para nada.

Antes era pelo menos mais fácil cada um encontrar mais cedo seu lugar. As pessoas tinham o sentido do compromisso. Comprometiam-se umas com as outras, com os maridos, com as mulheres, com os amigos, com os filhos, com as tarefas. Hoje ninguém se compromete com nada... qualquer coisa tem a medida do deve e haver de benefícios para cada um. Vivemos num permanente estado de marketing. "O que é que eu ganho com isto" está sempre nas entrelinhas das conversas, mesmo nas mais íntimas, é por isso que os casamentos acabaram. Ninguém se divorcia porque se apaixonou por outra pessoa, as pessoas divorciam-se porque estão a perder na sociedade contratual. Porque estão a ser penalizados nas suas vontades, e nos seus caprichos. Por isso o "Não me comprometa" é a máxima do individualismo.

Depois em Portugal ser bom nalguma coisa é sempre um mau agoiro. Os portugueses desconfiam, pelo que nunca têm a coragem de legitimar o bom, ainda que tenham uma leve suspeita das qualidades do outro. O bom que nunca foi legitimado por instituições credíveis tem um difícil caminho pela frente. Instintivamente tenta-se obstruir o outro, abafá-lo, escondê-lo, aniquilá-lo antes que conquiste um lugar ao sol, que ofenda os que lá não conseguem chegar.
Por isso é que os portugueses mais importantes foram todos laureados fora de Portugal. Então aí, nessa altura, venera-se.

Voltando ao Medina Carreira que em entrevista ao Mário Crespo foi o mais cáustico possível:
O país está ao serviço de partidos políticos, partidos que usam as leis com o único objectivo de ganhar clientela, para perpetuar poderes individuais...
Isto não é um país, é uma brincadeira... não há solução. Não há mesmo, e Medina Carreira tem razão. Cavaco Silva também foi sincero, não tem soluções para esta crise.
Andamos a viver de tretas, de Magalhães, andamos a viver de aparências. Prometer criar 150 mil empregos, não é sério.
Um processo fiscal que demora 12 a 20 anos, não trás ninguém para investir em Portugal.
Não foram feitas verdadeiras reformas, na educação, na justiça... [em Portugal até a cultura é uma coisa de lobbys...]
Cada partido político é mais uma porta para abrir 30 lugares para entrarem pessoas... à espera de tachos.
Não há soluções...
Este Governo vai estar no banco dos réus daqui a umas dezenas de anos.
A nossa economia está ao mesmo nível de há cem anos. [O Gráfico de Medina Carreira prova ainda que o maior crescimento económico deu-se entre 1960 e 1970... no Estado Novo, portanto].
Diz Medina Carreira que esta democracia não cria soluções. Sugere o presidencialismo?!


Em Portugal os profetas da desgraça são sempre melhores videntes...

THE END OF LOVE









The end of love convoca esse indelével rasto que o não vivido deixa... Encontramo-nos com Pessoa, Beckett e Leonard Cohen.... o nome roubado ao acaso de uma música.



Trabalhar sobre as sobras, os restos, o que ficou de fora, estes, quase sempre os materiais do amor.








excertos de L.C.


Someone stole my youth.... who did it?

Medina Carreira acha que Portugal não tem remédio.. e eu também

Como povo tivemos pouca sorte. A inteligência não faz parte do ADN do nosso povo... Não temos nos antepassados nenhuns um Kant, nem um Kierkgaard, nem um Freud... Somos o país da nostalgia e melancolia, e esses ainda são os sentimentos mais nobres que temos. Mesmo assim cada vez mais escassos nesta cultura do centro comercial... do fascínio do consumo como alternativa ao amor...

Continuamos reféns dos instintos básicos, no caso, em regra espontaneamente maus... porque há a tentação do mal, mas também há a tentação do bem. Há quem tenha o bem por instinto ...

Temos hoje a agravante de ter perdido as benesses do provincianismo sem ganharmos a vantagens do cosmopolitismo.
Perdemos a solidariedade de vizinhança, os sítios familiares, a entreajuda e o sentido de pertença, em troca não ganhámos, nem o profissionalismo, nem o valor do mérito, nem a auto-estima que nos tornaria arrojados.
Importámos as ervas daninhas da moderna Europa, a tolerância hipócrita, a ilusão do individualismo, a soberba do narcisismo. Somos narcisistas em todos os momentos da nossa vida. Os outros passaram de cúmplices a espelhos de nós. Woody Allen, dizia ironicamente "nasci judeu mas já me converti ao narcisismo".

Em Portugal, por exemplo, a vida acaba aos 40 anos. Quem até aí não encontrou o seu lugar, não o encontra mais. Não há em Portugal exemplos de advogados, engenheiros, bancários que decidam aos 40, 50 mudar radicalmente de vida, ser actores de teatro, ser guionistas, ser artistas, escritores ... mesmo que alguém o quisesse, seria provavelmente impossível. Um dia tentei encontrar um curso de guionista, um curso a sério. Mas em Portugal só encontrei workshops caros e desinteressantes. Já em Espanha encontrava-se guionismo por todo o lado, nas universidades espanholas. Cá nada. Eu que queria aprender a escrever guiões para cinema e para o teatro. Não encontrei nada. Mesmos os cursinhos curtos que andam para aí são dados com desânimo porque os professores (guionistas desempregados) sabem que aquilo que estão a dar não serve para nada.

Antes era pelo menos mais fácil cada um encontrar mais cedo seu lugar. As pessoas tinham o sentido do compromisso. Comprometiam-se umas com as outras, com os maridos, com as mulheres, com os amigos, com os filhos, com as tarefas. Hoje ninguém se compromete com nada... qualquer coisa tem a medida do deve e haver de benefícios para cada um. Vivemos num permanente estado de marketing. "O que é que eu ganho com isto" está sempre nas entrelinhas das conversas, mesmo nas mais íntimas, é por isso que os casamentos acabaram. Ninguém se divorcia porque se apaixonou por outra pessoa, as pessoas divorciam-se porque estão a perder na sociedade contratual. Porque estão a ser penalizados nas suas vontades, e nos seus caprichos. Por isso o "Não me comprometa" é a máxima do individualismo.

Depois em Portugal ser bom nalguma coisa é sempre um mau agoiro. Os portugueses desconfiam, pelo que nunca têm a coragem de legitimar o bom, ainda que tenham uma leve suspeita das qualidades do outro. O bom que nunca foi legitimado por instituições credíveis tem um difícil caminho pela frente. Instintivamente tenta-se obstruir o outro, abafá-lo, escondê-lo, aniquilá-lo antes que conquiste um lugar ao sol, que ofenda os que lá não conseguem chegar.
Por isso é que os portugueses mais importantes foram todos laureados fora de Portugal. Então aí, nessa altura, venera-se.

Voltando ao Medina Carreira que em entrevista ao Mário Crespo foi o mais cáustico possível:
O país está ao serviço de partidos políticos, partidos que usam as leis com o único objectivo de ganhar clientela, para perpetuar poderes individuais...
Isto não é um país, é uma brincadeira... não há solução. Não há mesmo, e Medina Carreira tem razão. Cavaco Silva também foi sincero, não tem soluções para esta crise.
Andamos a viver de tretas, de Magalhães, andamos a viver de aparências. Prometer criar 150 mil empregos, não é sério.
Um processo fiscal que demora 12 a 20 anos, não trás ninguém para investir em Portugal.
Não foram feitas verdadeiras reformas, na educação, na justiça... [em Portugal até a cultura é uma coisa de lobbys...]
Cada partido político é mais uma porta para abrir 30 lugares para entrarem pessoas... à espera de tachos.
Não há soluções...
Este Governo vai estar no banco dos réus daqui a umas dezenas de anos.
A nossa economia está ao mesmo nível de há cem anos. [O Gráfico de Medina Carreira prova ainda que o maior crescimento económico deu-se entre 1960 e 1970... no Estado Novo, portanto].
Diz Medina Carreira que esta democracia não cria soluções. Sugere o presidencialismo?!


Em Portugal os profetas da desgraça são sempre melhores videntes...

Medina Carreira acha que Portugal não tem remédio.. e eu também

Como povo tivemos pouca sorte. A inteligência não faz parte do ADN do nosso povo... Não temos nos antepassados nenhuns um Kant, nem um Kierkgaard, nem um Freud... Somos o país da nostalgia e melancolia, e esses ainda são os sentimentos mais nobres que temos. Mesmo assim cada vez mais escassos nesta cultura do centro comercial... do fascínio do consumo como alternativa ao amor...

Continuamos reféns dos instintos básicos, no caso, em regra espontaneamente maus... porque há a tentação do mal, mas também há a tentação do bem. Há quem tenha o bem por instinto ...

Temos hoje a agravante de ter perdido as benesses do provincianismo sem ganharmos a vantagens do cosmopolitismo.
Perdemos a solidariedade de vizinhança, os sítios familiares, a entreajuda e o sentido de pertença, em troca não ganhámos, nem o profissionalismo, nem o valor do mérito, nem a auto-estima que nos tornaria arrojados.
Importámos as ervas daninhas da moderna Europa, a tolerância hipócrita, a ilusão do individualismo, a soberba do narcisismo. Somos narcisistas em todos os momentos da nossa vida. Os outros passaram de cúmplices a espelhos de nós. Woody Allen, dizia ironicamente "nasci judeu mas já me converti ao narcisismo".

Em Portugal, por exemplo, a vida acaba aos 40 anos. Quem até aí não encontrou o seu lugar, não o encontra mais. Não há em Portugal exemplos de advogados, engenheiros, bancários que decidam aos 40, 50 mudar radicalmente de vida, ser actores de teatro, ser guionistas, ser artistas, escritores ... mesmo que alguém o quisesse, seria provavelmente impossível. Um dia tentei encontrar um curso de guionista, um curso a sério. Mas em Portugal só encontrei workshops caros e desinteressantes. Já em Espanha encontrava-se guionismo por todo o lado, nas universidades espanholas. Cá nada. Eu que queria aprender a escrever guiões para cinema e para o teatro. Não encontrei nada. Mesmos os cursinhos curtos que andam para aí são dados com desânimo porque os professores (guionistas desempregados) sabem que aquilo que estão a dar não serve para nada.

Antes era pelo menos mais fácil cada um encontrar mais cedo seu lugar. As pessoas tinham o sentido do compromisso. Comprometiam-se umas com as outras, com os maridos, com as mulheres, com os amigos, com os filhos, com as tarefas. Hoje ninguém se compromete com nada... qualquer coisa tem a medida do deve e haver de benefícios para cada um. Vivemos num permanente estado de marketing. "O que é que eu ganho com isto" está sempre nas entrelinhas das conversas, mesmo nas mais íntimas, é por isso que os casamentos acabaram. Ninguém se divorcia porque se apaixonou por outra pessoa, as pessoas divorciam-se porque estão a perder na sociedade contratual. Porque estão a ser penalizados nas suas vontades, e nos seus caprichos. Por isso o "Não me comprometa" é a máxima do individualismo.

Depois em Portugal ser bom nalguma coisa é sempre um mau agoiro. Os portugueses desconfiam, pelo que nunca têm a coragem de legitimar o bom, ainda que tenham uma leve suspeita das qualidades do outro. O bom que nunca foi legitimado por instituições credíveis tem um difícil caminho pela frente. Instintivamente tenta-se obstruir o outro, abafá-lo, escondê-lo, aniquilá-lo antes que conquiste um lugar ao sol, que ofenda os que lá não conseguem chegar.
Por isso é que os portugueses mais importantes foram todos laureados fora de Portugal. Então aí, nessa altura, venera-se.

Voltando ao Medina Carreira que em entrevista ao Mário Crespo foi o mais cáustico possível:
O país está ao serviço de partidos políticos, partidos que usam as leis com o único objectivo de ganhar clientela, para perpetuar poderes individuais...
Isto não é um país, é uma brincadeira... não há solução. Não há mesmo, e Medina Carreira tem razão. Cavaco Silva também foi sincero, não tem soluções para esta crise.
Andamos a viver de tretas, de Magalhães, andamos a viver de aparências. Prometer criar 150 mil empregos, não é sério.
Um processo fiscal que demora 12 a 20 anos, não trás ninguém para investir em Portugal.
Não foram feitas verdadeiras reformas, na educação, na justiça... [em Portugal até a cultura é uma coisa de lobbys...]
Cada partido político é mais uma porta para abrir 30 lugares para entrarem pessoas... à espera de tachos.
Não há soluções...
Este Governo vai estar no banco dos réus daqui a umas dezenas de anos.
A nossa economia está ao mesmo nível de há cem anos. [O Gráfico de Medina Carreira prova ainda que o maior crescimento económico deu-se entre 1960 e 1970... no Estado Novo, portanto].
Diz Medina Carreira que esta democracia não cria soluções. Sugere o presidencialismo?!


Em Portugal os profetas da desgraça são sempre melhores videntes...

THE END OF LOVE











The end of love convoca esse indelével rasto que o não vivido deixa... Encontramo-nos com Pessoa, Beckett e Leonard Cohen.... o nome roubado ao acaso de uma música.




Trabalhar sobre as sobras, os restos, o que ficou de fora, estes, quase sempre os materiais do amor.














THE END OF LOVE











The end of love convoca esse indelével rasto que o não vivido deixa... Encontramo-nos com Pessoa, Beckett e Leonard Cohen.... o nome roubado ao acaso de uma música.




Trabalhar sobre as sobras, os restos, o que ficou de fora, estes, quase sempre os materiais do amor.














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Someone stole my youth.... who did it?

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Someone stole my youth.... who did it?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Simone Beauvoir

É horrível assistir à agonia de uma esperança

Woody dixit

Numa entrevista ao Expresso, aqui há um par de anos, Woody Allen disse "cada pessoa é um fenómeno que nunca mais vai existir em lugar algum"

Lá Fora


Uma fotografia de Margarida Correia (que não é esta que está aqui ao lado, esta é minha), exposta no Museu da Electricidade, tem o seguinte texto:

"Acentua o destino histórico da fotografia como guardiã da memória ou guardiã de memórias, afinal como instrumento de uma ficção. A vocação narrativa das fotografias de família, os pequenos momentos que elas perpetuam, até que se percam os sentidos e as identidades dos que nela posam, é uma das suas características de trabalho".

quinta-feira, 5 de março de 2009

Simone Beauvoir

É horrível assistir à agonia de uma esperança

Simone Beauvoir

É horrível assistir à agonia de uma esperança

Woody dixit

Numa entrevista ao Expresso, aqui há um par de anos, Woody Allen disse "cada pessoa é um fenómeno que nunca mais vai existir em lugar algum"

Woody dixit

Numa entrevista ao Expresso, aqui há um par de anos, Woody Allen disse "cada pessoa é um fenómeno que nunca mais vai existir em lugar algum"

Lá Fora


Uma fotografia de Margarida Correia (que não é esta que está aqui ao lado, esta é minha), exposta no Museu da Electricidade, tem o seguinte texto:

"Acentua o destino histórico da fotografia como guardiã da memória ou guardiã de memórias, afinal como instrumento de uma ficção. A vocação narrativa das fotografias de família, os pequenos momentos que elas perpetuam, até que se percam os sentidos e as identidades dos que nela posam, é uma das suas características de trabalho".

Lá Fora


Uma fotografia de Margarida Correia (que não é esta que está aqui ao lado, esta é minha), exposta no Museu da Electricidade, tem o seguinte texto:

"Acentua o destino histórico da fotografia como guardiã da memória ou guardiã de memórias, afinal como instrumento de uma ficção. A vocação narrativa das fotografias de família, os pequenos momentos que elas perpetuam, até que se percam os sentidos e as identidades dos que nela posam, é uma das suas características de trabalho".

quarta-feira, 4 de março de 2009

Hegel

Hegel escreveu que a essência da tragédia não é o conflito entre o certo e o errado, mas o conflito entre o certo e o certo

Não sabemos nada do que somos nós

... Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes, e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.... apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Frase de Miguel Sousa Tavares (recortada).

Caixa Geral de Depósitos marca o preço da Cimpor


Voltemos ao tema que leva amanhã o Presidente da CGD ao Parlamento, para mais uma comissão parlamentar de inquérito. Desta vez para explicar porque o banco do Estado pagou pela Cimpor mais 25% do que a média da cotação da cimenteira nos seis meses antes (deixemos os detalhes das contas para o Louçã que gosta de impressionar com números aparatosos).

Tal como já tinha escrito numa nota anterior, a CGD anunciou a compra de 9,58% da Cimpor a Manuel Fino para que este pudesse pagar a dívida que tinha contraído em 2007 para comprar acções do BCP, numa altura em que um grupo se movimentava para combater Jardim Gonçalves. Faria de Oliveira é apenas o bode espiatório de uma operação de crédito concedida com poucas garantias, pela anterior administração (que hoje por coincidência está no BCP). Perante o facto consumado de que Manuel Fino tinha mais dívida que património, e perante a situação de tal obrigar o banco a constituir provisões e diminuir o rácio de capital, a CGD não teve alternativa, senão comprar-lhe a Cimpor. Mas pergunta-se porque o fez a 4,75 euros, quando as acções pouco andam acima dos 3 euros? Foi para a que dívida fosse saldada no maior montante possível? Para evitar as tais imparidades de 80 milhões de euros?

Ou terá sido porque assim a CGD também ajuda os bancos privados que tinham descobertos nos créditos concedidos à Teixeira Duarte e a Manuel Fino. De que forma? Ora a partir desta operação todas as acções da Cimpor que a Teixeira Duarte e Manuel Fino deram como garantia de empréstimos que estão com fortes descobertos, serão avaliadas a este preço. Os 22% da Cimpor que a Teixeira Duarte deu como garantia à CGD, BCP e BES, valem assim muito mais do que valeriam se o preço tivesse por base a cotação em Bolsa. Com 22% da Cimpor Pedro Maria não precisa de hipotecar as jóias da família para se manter como terceiro maior accionista do BCP. Também nos créditos do BCP a Manuel Fino, os 10% da Cimpor como garantia são agora mais valiosos, e pemitem cobrir mais da dívida do que se o referencial fosse a cotação. Todos ganham.

Ora como Fernando Ulrich disse e bem, este prémio de 25% não faz bem nenhum às imparidades da CGD. De facto poupam-se imparidades num lado e abrem-se no outro (e a Cimpor não pára de cair). Isto é, impedem-se perdas no crédito do Manuel Fino, mas criam-se perdas potenciais na participação da Cimpor. A CGD ainda disse que isto era o preço a pagar pelo controlo... mas que controlo é este com menos de 10%? Os administradores da CGD lá responderam que estes 10% juntos com outro accionista dão o controlo. Como quem diz, impede-se a Lafarge de comprar. Afinal o que somos não é um banco à rasca com um crédito de elevado risco, o que somos afinal é cavaleiros da defesa do capital das empresas em mãos nacionais.

Claro que quando é o banco do Estado a falar de concertação accionista, a mesma que leva a CMVM, tutelada pelas Finanças, a aplicar normalmente elevadas multas, torna-se num caso complicado e cada vez mais embrulhado.

Depois, e assim que Fernando Ulrich gozou com os argumentos da Caixa, veio Santos Ferreira, o presidente do BCP, com a indirecta ao presidente do BPI: "também vendemos 10% do BPI aos angolanos da Santoro com um prémio de 33%".
Todos alinhados. Até Fernando Ulrich acabou por se calar.
Amanhã o que é que vamos ver? Meia dúzia de deputados mal preparados técnicamente, a serem ofuscado pelo demagogo Louçã, esse sim, tem a esperteza de estudar dos cadernos, e um Faria de Oliveira muito autêntico e simplório a explicar uma operação para o qual contribuiu pouco. Falará de imparidades, e de como a compra da Cimpor é melhor para a CGD do que um crédito a descoberto. Rir-se-á das perguntas incómodas como quem confirma as críticas, sem o expressar. Tal qual na conferência de imprensa da CGD, quando lhe perguntaram se achava que a administração anterior da CGD tinha feito bem ao emprestar dinheiro à Investifino para comprar acções do BCP e ter aceite as mesmas acções como garantia. Não houve respostas. Um silêncio. Olhares cumplices entre os administradores e risos subtis. Não foi preciso mais nada.

Hegel

Hegel escreveu que a essência da tragédia não é o conflito entre o certo e o errado, mas o conflito entre o certo e o certo

Hegel

Hegel escreveu que a essência da tragédia não é o conflito entre o certo e o errado, mas o conflito entre o certo e o certo

Não sabemos nada do que somos nós

... Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes, e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.... apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Frase de Miguel Sousa Tavares (recortada).

Não sabemos nada do que somos nós

... Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes, e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.... apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Frase de Miguel Sousa Tavares (recortada).



humor negro...

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humor negro...

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humor negro...

terça-feira, 3 de março de 2009

Woody Allen

Acho graça quando no Facebook, as pessoas põem a religião no perfil. Assim tipo Estado Civil. Só me faz lembrar o Woody Allen no Scoop. E apetece-me dizer nasci católica mas já me estou a converter ao narcisismo!

...ainda no livro

...Fez lembrar um brilhante diálogo no filme de Martin Scorcese, A Idade da Inocência, entre a matriarca da nobre família Townsend, Manson Mingott, e a sua sobrinha Regina Beauford, que lhe vai pedir ajuda financeira para suportar os desaires do marido, um nouveau riche recém-caído em desgraça por negócios pouco transparentes. Regina vai pedir ajuda em nome da ascendência comum das famílias, o que a velha recusa porque na sua casa honra sempre foi honra, mas honestidade também sempre foi honestidade.
“Mas o meu nome, tia, está em causa a honra do meu nome, Regina Townsend”. Ao que Manson Mingott responde: “O teu nome era Beauford quando te cobria de jóias e vai ser Beauford agora que te cobre de vergonha”.
....

O facto de ser católico e de ser da Opus Dei deu uma grande ajuda à propagação desse ódio. O ódio a Jardim Gonçalves é o ódio à Opus Dei, que por medo, por desconfiança, pela inveja que o dinheiro suscita e por fim por ignorância, são vistos como os malfeitores do século, ideia que conseguiu a proeza de pôr o Dan Brown a best-seller.
...

Agustina Bessa Luís, essa genial conhecedora da alma humana, escreveu uma vez “os homens sérios não olham de frente quando são mais sinceros do que o habitual. Digam o que disserem é assim”.
....

Alguém disse uma vez que a política se reduz aos espertos que querem subir e aos tolos que lhe servem de degrau, a que Agustina acrescentou os vingativos
....
disse uma vez que séculos de pregação do bem não deram resultado, é mais importante gerir o mal do que pregar o bem.