Eu não tenho nada a obstar contra a trasladação para o Panteão Nacional dos restos mortais de Sophia de Mello Breyner. Este ano comemoramos quatro décadas passadas sob a revolução e Sophia foi indiscutivelmente, através da sua poesia, uma acérrima defensora da liberdade e uma das mais importantes escritoras portuguesas do séc. XX, pelo que esta distinção é duplamente merecida. Inclusive, e se não me falha a memória, é a segunda mulher, após Amália Rodrigues, a ser para lá trasladada.
Há, no entanto, algo que sobressai desta decisão: a falta de palavra dos nossos parlamentares! Quando das comemorações dos 150 anos da morte de Manuel da Silva Passos e principal impulsionador da criação de um Panteão Nacional, a Assembleia da República decidiu homenagear, em 17 de Janeiro de 2012, o estadista. A intenção era que os seus restos mortais de Passos Manuel fossem do cemitério dos Capuchos, em Santarém, para a Igreja da Santa Engrácia, o que não viria acontecer. Porque, fruto da crise financeira que se vive, a AR argumentou não ter orçamento, e que a situação seria “corrigida” logo que o país saísse da crise. Ficou-se por uma singela e sentida homenagem…
Há ainda, e para terminar, duas notas que convém referir. Com efeito, goste-se ou não, comemoram-se os quarenta anos do 25 de Abril e ao depositar-se os restos mortais de uma personagem consensual como Sophia, que agrada a gregos e a troianos, impede-se que os sectores mais à esquerda viessem a propor a trasladação, por mais justa que fosse, de um nome seguramente fracturante e divisionista. Por outro, afasta (para já) do horizonte a ideia contra procedente da trasladação para o referido espaço de Eusébio, um jogador de futebol. Até porque significaria, por maior respeito que os homens do desporto merecem, a sua total banalização e o Panteão Nacional foi criado, como se pode ler no artigo 2º da Lei n.º 28/2000, para “Homenagear e perpetuar a memória dos cidadãos que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.
A imagem foi encontrada aqui.
Naturalmente que a concepção actual do Panteão (lei 28/2000) nada tem a ver com a ideia original. Aliás, a própria edificação do PN foi, tal qual o nome da igreja que o alberga, uma verdadeira "obra de Santa Engrácia".
ResponderEliminarPara saberem mais: http :/ pt.wikipedia.org wiki /Pante%C3%A3o_nacional