Na obra “Portugal, hoje: O Medo de existir”, José Gil fala de nós como o “país da não inscrição”. Um posicionamento com o qual concordo em absoluto. Foi uma característica evidente do salazarismo que a revolução e os “novos tempos” não dissiparam, e o que se reflecte nas “naturais” reacções à morte de Eusébio: seja na patética ideia de se alterar o nome do Estádio da Luz, tomando o nome do falecido craque, ou numa hipotética transladação dos seus restos mortais – como indevidamente aconteceu com Amália – para o Panteão Nacional!
Reconheço que há uma grande diferença entre alguns de nós e os demais cidadãos. Reconheço inclusive que alguns, por aquilo que fizeram na vida, ganharam por direito próprio a imortalidade. Porém, e como o “sacralização da imortalidade” exige número clausus, só me resta questionar os critérios para futuras, e seguramente merecidas transladações?
Em Portugal há um desrespeito enorme pelo culto da morte, quiçá fruto da nossa tradição religiosa. Em França, visitei recentemente em Paris o cemitério de cemitério do Père Lachaise. Inaugurado em 1804, esta necrópole foi mal recebida, pois estava localizada fora da zona do perímetro urbano da capital, extramuros, de mau acesso. A situação alterou-se radicalmente quando decidiram transferir para lá as ossadas de duas figuras míticas da história francesa e uns dos casais mais românticos da humanidade: Pedro Abelardo e Heloísa de Paráclito. Hoje repousam neste cemitério “imortais” como Balzac, La Fontaine, Óscar Wilde, Marcel Proust, Delacroix, Modigliani, Auguste Comte, Yves Montand, Chopin, Édith Piaf, Jim Morrison, etc. Não seria então, e pelo respeito que merecem, a altura de se criar entre nós, em Lisboa, um espaço assim?
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