terça-feira, 24 de setembro de 2013

Opinar até onde?

Eu estive mal. Não se deve insultar ninguém mesmo num quadro da dita "liberdade de opinião". Porém são matérias que nos podem levar numa grande viagem: até onde pode ir a nossa liberdade de opinião? Há tempos um conhecido comentador chamou o que chamou ao Presidente da República. Ele considerou ser uma injúria contra a sua pessoa, e de facto dizer-se que alguém, e logo o principal símbolo da república, é um "palhaço" tem que ter consequências. O comentador reconheceu que esteve mal, não disfarçando, no entanto, o seu desconforto com a acção política do Presidente Cavaco Silva. Porém tudo ficou em águas de bacalhau. Num país onde nada acontece o caso foi arquivado. Nos Estados Unidos, que são um povo de outra colheita, e à boleia da primeira emenda, a rede é bem mais larga: inclusivé, como aconteceu no Texas, desde que consiga provar que foi para marcar um posicionamento crítico, pode-se pegar fogo à bandeira nacional. Aqui teria caído o Carmo e a Trindade, lá nada aconteceu. Efectivamente o americano é mais livre que o português, e do que o europeu em geral. Porque, e falando do português em particular, ainda não conseguimos superar a barreira ética e paternalista que o salazarismo durante épocas impôs!


Uma outra nota. Quando falamos em ofensas – como chamar energúmeno a um presidente de câmara – temos que entender se elas são pessoais ou políticas? O tratamento de que foi alvo por parte de um crítico de arte o Presidente Rui Rio foi exclusivamente por causa da gestão ou ideia que ele tinha sobre a Casa da Música, nomeadamente aquando da exoneração de Pedro Burmester da sua administração. Foi uma história que fez correr muita tinta e, numa segunda instância, Augusto M Seabra, foi ilibado do crime de injúrias contra o edil. Foi uma boa decisão porque o termo forte utilizado não se aplicava à pessoa em si, o que é condenável, mas em respeito ao seu posicionamento programático relativo a essa sala de espectáculos, que deveria ser um espaço elitista (pois só pessoas de um certo patamar cultural gostam da musica erudita). Por outro lado, quando se assumem posicionamentos ou lugares públicos, porque se metem a jeito, as pessoas deixam de ser “profundamente” livres, e os seus actos escrutinados até à exaustão.


O meu pai foi dirigente partidário e é um homem com estômago de ferro. Perante aquilo que lhe diziam, e foram tantos (maioritariamente jornalistas), e se tivesse a envergadura de certas aves raras do nosso tecido político, passaria a vida em tribunais. Não. Ele sobreviveu porque soube engolir em seco, porque caso contrário estaria, como os demais, feito ao bife!


 


A ler: "A Liberdade de Expressão em Tribunais" de Francisco Teixeira da Mota. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013

1 comentário:

  1. António, há um critério que, na dúvida, serve sempre: Tudo é susceptível de crítica excepto aquilo que não se pode mudar. Tu não podes criticar um anão por ser anão, porque ele não pode fazer nada para mudar isso. Pode-se criticar o que é passível de ser alterado pela pessoa criticada. Caso contrário, em vez de ser crítica é um insulto, e o insulto define mais quem o faz do que quem o recebe.
    Por isso, ainda que escudado noutros, o insulto é sempre um insulto, e ainda por cima é um insulto cobarde. Críticas de carácter são possíveis, insultos gratuitos não.
    Não concordei que se chamasse ao Presidente da República palhaço, porque acho uma falta de respeito, mas chamar alguém que monta circos para entreter (desviar) dos verdeiros factos importantes, de palhaço não me parece grave.
    Pensa bem, no comentário da tua amiga, qual é a crítica? Ali eu só vi insultos de uma pessoa que acha que é melhor que a Merkel, portanto insultos de uma pessoa com soberba.

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