domingo, 13 de dezembro de 2015

A democracia segundo a esquerda

Não pude deixar de me rir com o começo da carta do Comendador Marques de Correia (a sátira que é publicada no Expresso) - confesso que só li a parte acessível ao público - mas é na mouche na crítica a essa esquerda unida que jamais será vencida e que está no poder, a que se juntam os ecos de alguma direita por tradição, mas que na alma que se encosta ao centro (pertinho, pertinho da esquerda).


COMENDADOR MARQUES DE CORREIA


A esquerda vai pôr a direita no lugar que ela merece e a política alternativa vencerá


«Estavam refugiados, praticamente cercados, numa reunião inóspita entre a Beira e Trás-os-Montes. Quase não tinham comida, e a água de um riacho que saltitava (exactamente como nos contos de Almeida Garrett) era tão fria que tornava o acto de tomar banho uma prova de coragem a que poucos se atreviam. A higiene não imperava, mas isso era comum aos sitiantes, pelo que por aí havia pouca diferença.


Regularmente chegavam mensagens que, no geral, eram lidas pela voz baritonal de Passos Coelho: rendam-se, seus reaccionários miseráveis, fascistas, defensores de touradas e homofóbicos; exploradores, capitalistas e padrecas! Rendam-se ou nós, com as nossas Forças Armadas ao serviço do Povo, avançamos e não deixamos um vivo!
— Nunca! — ouvia-se Paulo Portas gritar»


 


Tão bem retratado aqui o mainstream opinativo.


É que os argumentos do actual primeiro ministro para justificar ter ido para o governo com um pacto que não é uma coligação governativa, com os partidos da esquerda, é este ódio "legitimo" a um PSD de direita, coligado a um "queque" CDS.


Esta visão de que há legitimidade democrática no combate a um governo de direita é que torna natural esta aceitação de assalto ao Governo pelo PS. Uma espécie de revolução dos cravos, versão 2015, que combate o "terrível" Pedro Passos Coelho, visto como um perigoso direitista, essa ideologia tolerada apenas para legitimar a "grandeza humana" do socialismo por contraposição, mas jamais tolerada no poder.


Meus senhores, vejam se percebem que em nome da democracia a direita é para ser um partido minoritário patusco em que os seus adeptos se vestem de verde seco e veludo cotelê e tratam-se por você. Mas nem pensem em governar, ou sequer em ter voz mediática credível, isso não. Vocês existem para serem caricaturados. São os resquícios do Estado Novo, do Portugal salazarento, jamais podem ser levados a sério. Se tivermos o azar de haver pessoas inteligentes entre vocês (coisa que nós nos recusamos a reconhecer), a esquerda arranja uma maneira de vos ridicularizar e conta para isso com o apoio cúmplice da imprensa e dos fazedores dos artigos de opinião, por sua vez escolhidos dentro do mainstream do pensamento dominante. Percebem? Por isso é que o PSD de Passos Coelho, a europeísta Maria Luís Albuquerque, o CDS queque de Paulo Portas e o conservador Cavaco Silva têm de ser banidos do poder. Se o povo não percebe isso com o voto, é porque não lê jornais, nem vê os programas de humor portugueses. Por isso há que encontrar formas de virar a democracia a nosso favor. O Parlamento é soberano, e a esquerda está em maior número, por isso caput, o poder não é para vocês. O PSD só volta ao poder se for governado por algum moderado centrista, e apenas se as contas públicas estiverem a derrapar e o PS já nada conseguir fazer. 

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