Deparei-me com uma entrevista do Observador a Ricardo Araújo Pereira, em que este diz, para explicar às filhas a diferença entre esquerda e direita, o seguinte: dei-lhes a definição do politólogo italiano Norberto Bobbio: quem é de esquerda acha que as pessoas são mais iguais do que desiguais, e por isso a sociedade deve tender para reproduzir essa igualdade; quem é de direita acha que são mais desiguais do que iguais, e por isso acha normal, e até justo, que na sociedade se verifique essa desigualdade.
Esta perspectiva é no entanto a visão de uma pessoa de esquerda. A direita sabe que a igualdade como mandamento é em si mesma uma tirania. A esquerda tem na igualdade um mandamento, mas a verdade é que a igualdade como mandamento retira lugar ao mérito, porque o mérito implica alguém que se superiorizou. Ora a direita defende a igualdade só no ponto de partida, mas não no ponto de chegada. E isso faz toda a diferença. O mérito (a muitos níveis, até no gosto e na estética) é soberano na direita pois a igualdade encerra em si uma hipocrisia. A esquerda defende "a igualdade" social mas, no fim do dia, não gosta de "Belmiros de Azevedo" porque não gostam ainda mais de quem deixou de ser desfavorecido e entrou na alta roda, ignorando mesmo o valor do mérito. Estou tentada a dizer que ainda gostam menos desses porque os vêem como alguém que está indevidamente no topo e ali não devia estar.
Ao contrário, a direita gosta de sociedades que premeiam o mérito e por isso acham bem os privilégios e não subscrevem igualdades, que de tão teóricas, aniquilam os bons.
Claro que há também aquela direita, que apesar de saber que o bem é olhar para os outros como iguais, até porque têm o exemplo de Cristo, consideram que no fundo o ser humano tem de ser perdoado por ter algumas vaidades e no fundo acreditam que a hierarquia social é exclusivamente determinada pelo nascimento (embora nalgum ponto lá atrás o mérito tenha sido o detonador de tudo). Mas dessa não falo, porque mais do que direita é uma certa forma monárquica (no sentido da fé na hereditariedade) de ver as sociedades e que procura perpetuar uma estrutura que lhes é favorável, e na verdade é uma coisa enraizada tanto na direita como na esquerda. Na verdade nas sociedades humanas, temos de admitir, e isso não é uma questão de esquerda ou direita, heredity rules. Pode talvez dizer-se, sem que haja um estudo sociológico empírico que sustente esta minha ideia, que as sociedades mais auto-suficientes economicamente (mais desenvolvidas) tendem a ser menos influenciadas por esta visão do determinismo da hereditariedade subjacente a essa visão da organização e hierarquia social.
Mas é preciso rebater a ideia que a esquerda é mais "boazinha" porque defende os fracos e oprimidos e que todos "somos iguais". Até porque como a igualdade é uma teoria, a imposição de uma coisa anti-natura torna-se tirana.
A defesa do mérito é uma forma mais justa de se ser "bonzinho", e essa é a base da direita. Premiar os bons é a antítese da igualdade e a direita defende uma sociedade que premeie a excelência. Deixando para o Estado essa função social, a famosa sentença de "o Estado para os pobrezinhos", por oposição à esquerda que defende o Estado para todos, porque somos todos iguais e todos temos os mesmos direitos.
O Estado como entidade abstracta que tem a mão invisível sobre tudo, como entidade que está acima para que as sociedades humanas funcionem "em igualdade", é isto a esquerda.
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