
Em Espanha, naquele país que teve uma enorme bolha imobiliária (sintoma de uma corrupçãozinha que está entranhada no país vizinho), os bancos chegaram ao fim de 2014 com bons lucros. O Santander, maior banco europeu em valor de mercado, viu subir em 39,3% o resultado líquido no ano passado, conseguindo passar dos 4.175 milhões de euros alcançados em 2013 para os 5.816 milhões de euros em 2014. O BBVA aumentou lucros em 25,7% para 2,6 mil milhões de euros em 2014. A contribuir para o aumento do resultado líquido está a recuperação do mercado doméstico em Espanha.
A CaixaBank, dono de 44% do banco português BPI, registou lucros de 620 milhões de euros em 2014, o que representa um acréscimo de 96,3% face ao ano anterior após um ajuste contabilístico das contas de 2013. Sem este ajuste, ainda assim, o crescimento de 2014 seria de 23,2%.
Espanha teve os seus bancos intervencionados pela troika. Espanha também teve bancos falidos. Em Maio de 2012, o espanhol Bankia recebeu duas injecções do Estado no valor de 22 mil milhões de euros. O mega-resgate levou as taxas da dívida pública espanhola a tocarem na perigosa fasquia de 6% e Madrid teve de solicitar à União Europeia um programa de resgate à banca. Após as perdas de 19 mil milhões de euros em 2012, o banco que resultou da fusão entre sete ‘cajas de ahorro' regressou aos lucros em 2013 com um resultado de 395 milhões de euros.
E em Portugal?
Portugal orgulha-se de ter bancos modernos, que nunca investiram em obrigações subprime, que não tiveram uma bolha imobiliária. Mas...
O BPI apresentou recentemente os seus resultados de 2014. Teve um prejuízo de 161,6 milhões de euros o que compara com um lucro de 66,8 milhões de euros em 2013. O BPI, muito dependente da actividade do seu banco em Angola, poderá ainda ter dificuldades acrescidas devido a alterações na regulação e à crise do petróleo naquele país.
O BCP apresentou prejuízos em 2014 pelo quarto ano consecutivo. Apesar de estar numa trajectoria de redução de prejuízos, perdeu, em 2014, 218 milhões de euros. A contribuir para que o banco liderado por Nuno Amado esteja ainda em terreno negativo conta o nível de imparidades e provisões que foram necessárias devido à avaliação feita pelo Banco Central Europeu.
Em Portugal só a sucursal do Santander, o Totta, teve lucros. Uns orgulhosos 193,1 milhões de euros. Claro que aqui há a receita da venda de 51% da participação que a área de seguros tinha na parceria com a Aegon: a operação teve uma receita extraordinária de 32 milhões de euros. Mas, ainda assim, "excluindo este impacto não recorrente, o resultado líquido subiu 57,8% em relação ao período homólogo".
Em Portugal um dos maiores bancos desapareceu. Em Agosto de 2014 o BES foi resgatado pelo Fundo de Resolução e dividido entre um banco bom e um banco mau. As taxas da dívida pública portuguesa praticamente não se ressentiram com o resgate e as acções dos bancos nacionais também não sofreram estragos de maior. O sucesso da venda do Novo Banco vai depender de quem? Mais uma vez dos bancos espanhóis. Caixa Bank, Santander, BBVA...
A diferença entre Portugal e Espanha é que Portugal arrasta-se e Espanha avança seja qual for o tamanho da queda. Em Portugal tudo estagna. Tudo demora. Portugal tem pés de chumbo.
A classe média espanhola é uma força da natureza. Em Portugal a classe média é para fazer sketchs humorísticos. É olhada de soslaio. É um clube de que ninguém quer fazer parte. Portugal é um país obcecado com classes sociais. Não se fala de outra coisa nas conversas de cafés. Nos artigos dos jornais é um tema recorrente. É sempre um factor de análise da performance dos outros. Está sempre tudo a tentar encontrar motivos para olhar por cima do ombro do vizinho. Perde-se tempo e energia nisto e é como viver na caverna de Platão, só se vê sombras e toma-se as sombras por verdade.
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