terça-feira, 29 de abril de 2014

Alto e pára o baile! Vou elogiar uma crónica do Daniel Oliveira

Quando no passado domingo, dia 27, Portugal perdeu um dos seus últimos grandes intelectuais, eu escrevi aqui que tinha morrido um dos grandes intelectuais de Direita. Fui criticada. Cometi o sacrilégio de dizer que um dos homens mais inteligentes do país era de Direita. Como eu sou. Quase que me disseram que eu estava a denegrir o Vasco Graça Moura.


Um país sempre disponível para o pensamento fácil e estereotipado, de que Vasco Graça Moura não era um exemplo, facilmente bebeu a aversão à palavra Direita. Ninguém quer ser de Direita. Têm medo da palavra. Vê-se muita gente de Direita a dizer que é de Centro. O Centro é como o preto para as Senhoras: "com um vestido preto nunca me comprometo"! Portugal é assim povoado pelas meias-tintas. Tudo muito preocupado com o politicamente correcto. O que a maioria dos mediáticos disserem é que é para seguir. Ser de Direita é um insulto que serve apenas para atirar aos Governos quando são de Direita, como o de Pedro Passos Coelho.


Vem este intróito para dizer que finalmente alguém diz sem medo, e sem retirar os merecidos elogios, que Vasco Graça Moura era um homem intrinsecamente de direita e conservador. Diz Daniel Oliveira na sua crónica do Expresso que "Graça Moura era, ao contrário do que diz Maria Teresa Horta, intrinsecamente de direita. Mesmo como intelectual. E no que defendia como políticas públicas para a cultura ainda mais". E acrescenta que: "Acontece que Graça Moura era um conservador. E ser de direita e conservador, apesar de não ser irrelevante para o seu perfil intelectual e cultural, em nada beliscava as suas qualidades literárias".


"Penso perceber o que estava na cabeça de Maria Teresa Horta. No momento do elogio fúnebre (ainda por cima a um amigo), misturam-se, mesmo que involuntariamente, duas coisas: um preconceito específico da esquerda e o preconceito político mais geral. Para Maria Teresa Horta, um intelectual tão admirável não podia estar no lado oposto da barricada. O preconceito da esquerda é este: a direita é ignorante, inculta e odeia a liberdade das artes. O que torna o posicionamento político de Graça Moura, homem culto e "das letras", "contranatura". É claro que é um disparate. A direita não é nem mais nem menos culta do que a esquerda. Acontece apenas que a esquerda foi culturalmente hegemónica na segunda metade do século XX. E ainda mais em Portugal. Contou, por isso, com o apoio da grande maioria dos intelectuais. Mas, como é evidente nas gerações mais novas, não vive numa qualquer superioridade intelectual ou cultural. Tem um olhar diferente sobre o papel dos intelectuais na vida pública? Provavelmente. Tem um olhar diferente sobre a democratização do acesso à cultura? Seguramente. E nisso Graça Moura era indiscutivelmente de Direita".


Confesso-me surpreendida porque das únicas vezes que troquei mensagens com Daniel Oliveira senti-o precisamente um preconceituoso de esquerda. Nesta crónica prova que afinal consegue não o ser. Mais do que isso, consegue reconhecer que há um preconceito de esquerda que vê todas as pessoas de Direita e conservadoras como ignorantes. Isso é muito bom. Mesmo muito bom.

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