terça-feira, 6 de outubro de 2015

Adeus Birgit

Hoje pela manhã sinto que o meu pai está triste - na idade dele isso é cada vez mais frequente: os amigos vão morrendo. Depois de tantos e bons amigos, desta feita a notícia vem de longe. A sua querida amiga, dos tempos de Bruxelas, dos parlamentarismo europeu, morreu.


Desde sempre me habituei a admirar a Birgit Bjørnvig. Uma mulher de causas. Ela vivia, como dizia o meu pai, num pequeno paraíso dinamarquês chamado de Samsø. E era casada com um homem extraordinário, que também conheci, e que é uma referência das letras dinamarquesas: Thorkild Bjørnvig 


Ela era uma convicta apaixonada pelo nosso país.Vinha cá quase todos os anos e tinha um sonho: ver as obras do homem com quem se casou em 1970 editadas na nossa língua. Não sei se estão, e nesse sentido seria obrigatório traduzi-las. Porém descobri na blogoesfera que um tal de  Amadeu Baptista teve a coragem de traduzir e colocar online três poemas dele e que, em homenagem a ambos, publico aqui.


 


TRÊS POEMAS DE THORKILD BJØRNVIG


 


TARDE NUMA CIDADE DESCONHECIDA


 


 


É isto a morte?: no meio do alvoroço da festa.


                Conversa, amigos e estrépito de música,


                a amada descansando nos meus braços,


                enquanto o bramido como um zumbido melífluo


me invade o ouvido – roça-te o frio gélido.


                Vais-te. Atrás de ti perdem-se as vozes,


                a música soa como um mosquito alto e longínquo –


                Ora bem: um instante os salões estiveram cheios


agora a luz apaga-se. O que esperas


                aconteceu há muito tempo. Fecho os olhos, os ouvidos,


                tento recordar imagens e palavras –


então sinto que uma corrente gélida vem da porta,


 


e ouço passos a acercar-se da minha mesa,


e uma voz em surdina que me diz: tem que ir-se.


 


                              


                                                                              Fiur og ild, 1959 


 


 


 


EROS


 


 


Divindade não chamada, só a vida numa forma ou a pureza te


                comovem,


se algo te comove – tu, doçura inumana, e de repente


púrpura perante o olhar, tu, absurdo, que crias felicidade,


                desassossego,


fazes e desfazes famílias, impávida, indiferente,


tu – se te resistimos, provocamos a tua crueldade, até que a dor


nos faz crer em espírito, ou te aniquilamos no abraço:


és indefectível. Como a fénix, uma águia num longínquo e desolado


                cume,


perscrutas firmamentos em brasa, ressuscitada, insaciável.


 


Corpos clarividentes, descansamos, meu amor, imóveis,


constelações refrescadas pelo vento descansam sobre as


pálpebras fechadas,


e os rios primitivos do sonho fluem en torno do coração – como


                ritmos dentro de mim


continua o movimento dos teus braços, erguidos para o abraço,


e o desejo bruscamente, dispo os teus seios, o estremecimento


das ancas – um ritmo que esquece a sua substância até que apenas


                recordamos,


quando passaram os anos, as copas das árvores sobre nós,


                a ondulação do mar,


os enfeitados minuetes de um campanário que abriram o céu.


 


Uma noite sonhei, meu amor, que te vi com uma máscara dourada,


vi-te sair por uma porta secreta, gritei, não me


ouviste; família e amigos rodeavam-te, despedindo-se – Eros:


um rosto totalmente desconhecido, impregnado da doçura


                da intimidade,


um rosto terno e familiar, iluminado pela estranheza,


sim, essa é precisamente a tua obra – e sejas quem sejas, tu, a abraçada,


bela até transtornares-me, és a máscara que generaliza


                os gestos individuais


e a que, sem que os apague, aperfeiçoa com toda a pureza a tua nudez.


 


                                                                                              Figur og ild, 1959


 


 


 


O pesadelo, nele


não és corpo nem espírito,


não és mais que uma alma entre


as mós do moinho


do incorpóreo e do não espiritual.


Aí só ajuda Platão


ou o Corpo do Amado.


 


                                                                                              Vibrationer, 1966


 


P.S. - Por curiosidade, e como nos confirmou em viva voz, ele foi, em dada altura da sua vida, amante de Karen Blixen.

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