Hoje pela manhã sinto que o meu pai está triste - na idade dele isso é cada vez mais frequente: os amigos vão morrendo. Depois de tantos e bons amigos, desta feita a notícia vem de longe. A sua querida amiga, dos tempos de Bruxelas, dos parlamentarismo europeu, morreu.
Desde sempre me habituei a admirar a Birgit Bjørnvig. Uma mulher de causas. Ela vivia, como dizia o meu pai, num pequeno paraíso dinamarquês chamado de Samsø. E era casada com um homem extraordinário, que também conheci, e que é uma referência das letras dinamarquesas: Thorkild Bjørnvig
Ela era uma convicta apaixonada pelo nosso país.Vinha cá quase todos os anos e tinha um sonho: ver as obras do homem com quem se casou em 1970 editadas na nossa língua. Não sei se estão, e nesse sentido seria obrigatório traduzi-las. Porém descobri na blogoesfera que um tal de Amadeu Baptista teve a coragem de traduzir e colocar online três poemas dele e que, em homenagem a ambos, publico aqui.
TRÊS POEMAS DE THORKILD BJØRNVIG
TARDE NUMA CIDADE DESCONHECIDA
É isto a morte?: no meio do alvoroço da festa.
Conversa, amigos e estrépito de música,
a amada descansando nos meus braços,
enquanto o bramido como um zumbido melífluo
me invade o ouvido – roça-te o frio gélido.
Vais-te. Atrás de ti perdem-se as vozes,
a música soa como um mosquito alto e longínquo –
Ora bem: um instante os salões estiveram cheios
agora a luz apaga-se. O que esperas
aconteceu há muito tempo. Fecho os olhos, os ouvidos,
tento recordar imagens e palavras –
então sinto que uma corrente gélida vem da porta,
e ouço passos a acercar-se da minha mesa,
e uma voz em surdina que me diz: tem que ir-se.
Fiur og ild, 1959
EROS
Divindade não chamada, só a vida numa forma ou a pureza te
comovem,
se algo te comove – tu, doçura inumana, e de repente
púrpura perante o olhar, tu, absurdo, que crias felicidade,
desassossego,
fazes e desfazes famílias, impávida, indiferente,
tu – se te resistimos, provocamos a tua crueldade, até que a dor
nos faz crer em espírito, ou te aniquilamos no abraço:
és indefectível. Como a fénix, uma águia num longínquo e desolado
cume,
perscrutas firmamentos em brasa, ressuscitada, insaciável.
Corpos clarividentes, descansamos, meu amor, imóveis,
constelações refrescadas pelo vento descansam sobre as
pálpebras fechadas,
e os rios primitivos do sonho fluem en torno do coração – como
ritmos dentro de mim
continua o movimento dos teus braços, erguidos para o abraço,
e o desejo bruscamente, dispo os teus seios, o estremecimento
das ancas – um ritmo que esquece a sua substância até que apenas
recordamos,
quando passaram os anos, as copas das árvores sobre nós,
a ondulação do mar,
os enfeitados minuetes de um campanário que abriram o céu.
Uma noite sonhei, meu amor, que te vi com uma máscara dourada,
vi-te sair por uma porta secreta, gritei, não me
ouviste; família e amigos rodeavam-te, despedindo-se – Eros:
um rosto totalmente desconhecido, impregnado da doçura
da intimidade,
um rosto terno e familiar, iluminado pela estranheza,
sim, essa é precisamente a tua obra – e sejas quem sejas, tu, a abraçada,
bela até transtornares-me, és a máscara que generaliza
os gestos individuais
e a que, sem que os apague, aperfeiçoa com toda a pureza a tua nudez.
Figur og ild, 1959
O pesadelo, nele
não és corpo nem espírito,
não és mais que uma alma entre
as mós do moinho
do incorpóreo e do não espiritual.
Aí só ajuda Platão
ou o Corpo do Amado.
Vibrationer, 1966
P.S. - Por curiosidade, e como nos confirmou em viva voz, ele foi, em dada altura da sua vida, amante de Karen Blixen.
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