quarta-feira, 7 de março de 2012

A opinião da moda

Não costumo criticar artigos dos jornalistas dos jornais concorrentes, mas desta vez não resisto. Vem isto a propósito do artigo de Nicolau Santos no Expresso que diz o seguinte:


«A excelente investigação da jornalista Cristina Ferreira do "Público" sobre a Ongoing permite chegar a algumas conclusões. 
1) A Heidrich & Struggles foi o cavalo de Troia, através do qual a dupla Nuninho-Rafa (como se tratam) passou a gerir as carreiras de milhares de quadros médios e superiores; 
2) o Compromisso Portugal, que teve Rafael Mora por trás, visou a ligação à geração de empresários, gestores, políticos e jornalistas na casa dos 40 anos; 
3) em 2003, o ex-ministro Pina Moura passa a consultor da H&S e transita depois para a Ongoing. Será presidente não-executivo da Media Capital e ascende a presidente da Iberdrola Portugal;
4) António Mexia, enquanto ministro, foi decisivo para abrir à H&S o acesso às grandes empresas públicas - e Mário Lino fundamental a alargar esse acesso: TAP, ANA, PT, EDP, Águas de Portugal, CTT, Carris, Estradas de Portugal;
5) foram essas avenças de empresas públicas (algumas escandalosas e outras sem justificação), que permitiram à dupla ganhar estofo financeiro para se abalançar a outros voos;
6) o salto em frente é dado com a OPA da Sonaecom sobre a PT, em que Ricardo Salgado utiliza Nuno Vasconcellos (a quem financia) como testa de ferro para ajudar a travar a operação;
7) Mora elabora o novo modelo de governação do BCP, que vai conduzir à rutura entre Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto;
8) quando PTP abandona o banco e a solução Pinhal falha, é Mexia quem mexe os cordelinhos para colocar a administração da CGD à frente do BCP; 9) o BCP vai tornar-se em seguida o princi¬pal financiador da Ongoing;
10) o sistema de remunerações da administração da EDP, que tem proporcionado enormes bónus a Mexia, foi elaborado por Mora;
11) a estratégia exige uma imprensa submissa: o primeiro passo é a compra do "Económico", por €27 milhões. O controlo da TVI falha, o domínio sobre a Impresa também;
12) a estratégia exige uma enorme alavancagem financeira. A Ongoing lança fundos de investimento de alto risco, no qual investem PT (75 milhões), BES (180 milhões) e Montepio Geral (30 milhões);
13) a escalada exige também acesso a informações privilegiadas (a Ongoing contrata quatro espiões);
14) ... e ligações ao PSD e PS (vários ex-políticos trabalham para o grupo).
Avenças de empresas públicas, financiamento de bancos amigos, influência empresarial e política, ligações à maçonaria e às secretas: assim se construiu o império daquele que ia ser o maior empresário português do século XXI.»


 


 


Vou-me concentrar na frase "a estratégia exige uma imprensa submissa: o primeiro passo é a compra do Económico". Gostava de lembrar que em 2007 e 2008, quando eu no Semanário Económico andava a revelar aquilo que Nicolau Santos agora parece concluir, isto é, que a guerra do BCP foi arquitectada nos bastidores (ler Terramoto BCP) por uma "rede de amigos", o Expresso estava entre a imprensa silenciosa que permitiu que tudo acontecesse. Na altura quase todos os jornais estavam a favor dos que moveram a guerra pelo controlo do BCP e ajudavam à festa criticando os jornalista que não alinhavam naquela farsa. Todos foram críticos da mudança de estatutos, tentada na famosa AG de Maio de 2007, por Jardim Gonçalves, mas agora Nicolau Santos crítica o "o novo modelo de governação do BCP, que vai conduzir à ruptura entre Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto, elaborado por Rafael Mora". Já nessa altura eram óbvias as ligações entre António Mexia, Paulo Teixeira Pinto e os membros do chamado Compromisso Portugal para a guerra de poder do BCP que acabou por se instaurar no banco. A visão do caso BCP como uma reprodução das forças que intervieram na OPA da Sonae à Portugal Telecom, já constava do meu livro. Tudo isto à data parecia a Nicolau Santos como uma "versão" dos velhos administradores do BCP. Já na altura a renovação etária da cúpula do BCP era um pretexto para um assalto ao 'board' do banco, com Berardo a ser a marionete dos arquitectos deste assalto. E onde estava o Expresso nessa altura? A dar as notícias do Berardo. Não tenho nada contra o Expresso, mas não posso deixar de salientar que mais uma vez Nicolau Santos tem a opinião que está na moda. Azar que o que está hoje na moda, é precisamente o oposto do que estava na moda em 2007 e 2008. 

2 comentários:

  1. Afinal esta senhora não é jornalista do Diário Económico? E escreve assim contra o patrão?

    Já todos sabíamos que a voz do dono, ou a opinião da moda, sa davam bem, como mostra o comentador...

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    1. Contra o patrão?! Que parte do artigo é que não percebeu? A minha crítica é apenas e exclusivamente à incoerência do Nicolau Santos. Não é contra nenhum patrão. Isto é, não é contra o Nuno, nem contra o Rafael Mora, que participaram, como é aliás público, nas mudanças do BCP e isso não é nenhum segredo de Estado.
      O que é inacreditável é que o jornalista do Expresso que sempre soube isso, venha agora usar isso para bater no ceguinho! Percebeu agora?

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