É sempre um prazer ver um génio das teorias macroeconómicas comentar outro génio (mesmo que com ele não concordemos). Julgo mesmo que apenas economistas consagrados podem fazer críticas aos autores de teorias económicas. Já tinha feito referência na blogosfera ao novo economista da moda, autor de "O Capital no Século XXI", Thomas Piketty, francês, cujo livro teve o seu auge quando foi publicado em Inglaterra, em Março passado, um ano depois de em França, país de raíz socialista, não ter feito grande furor, paradoxalmente. O livro debruça-se sobre as tendências da distribuição do rendimento, Tema que tem dominado os economistas desde o século XIX.
Mas quem melhor do que Vítor Gaspar para o comentar? Eis o que explica o nosso ex-Ministro das Finanças:
"O “tour de force” do livro prende-se com as forças que levam à concentração da riqueza (e por essa via também do rendimento) (...).Em concreto, quando a taxa de remuneração da riqueza (taxa de juro para simplificar) excede a taxa de crescimento do produto nacional, temos as condições que permitem conceber uma sociedade dominada pelos detentores do capital [o que é o resultado de poderosas forças de divergência]. De facto, nestas condições, basta aos capitalistas poupar uma parcela da sua riqueza para que esta – e o correspondente rendimento – acumulem mais depressa do que cresce o produto. Nestas condições, os patrimónios herdados tenderão a dominar a importância de uma vida inteira de trabalho. E Piketty conclui: uma tal situação mina os valores de justiça social e de recompensa do mérito e do esforço que são os fundamentos contemporâneos da democracia.
Acrescem adicionalmente alguns factos. Em primeiro lugar, Piketty também destaca que a distribuição da riqueza ou património (a que chama capital) é muito mais desigual que a distribuição do rendimento. Para camadas largas da população não existe um património ou riqueza líquida significativa. Em segundo lugar, documenta que desde a antiguidade até hoje a taxa de juro excedeu, em regra, a taxa de crescimento do produto".
A força de divergência fundamental do Piketty é o rendimento de capital ser superior ao produto nacional (r>g).
Isto culmina com o Piketty a defender a tributação do rendimento de capital (como forma de corrigir desigualdades). Ou será como forma de castigo? :)
Vítor Gaspar não concorda com Piketty. Porque considera que este ignora as chamadas forças de convergência: a acumulação e transmissão de conhecimentos, a educação, a mobilidade dos factores de produção e a integração de mercados.
Mas no essencial a diferença é que Gaspar defende o aumento da taxa de poupança. Diz o ex-Ministro das Finanças: "Mas existe uma questão teórica mais geral. r>g é uma condição comum em modelos teóricos de crescimento. É especificamente condição para a eficiência na afectação de recursos ao longo do tempo", diz Vítor Gaspar.
Mas o que interessa é que "Em tudo o que é humano, social e político a incerteza é dominante" e por isso O Capitalismo no Século XXI não fecha o debate. Pelo contrário. É uma referência incontornável para a continuação do debate.
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