Before Midnight (Antes da Meia Noite) é a continuação de "Antes do Amanhecer" (1995) e "Antes do pôr-do-sol" (2004). Depois de 9 anos juntos, Jesse Wallace e Celine, agora com filhos para criar e uma casa em Paris, viajam para a Grécia, onde fazem um balanço das suas vidas.
Sempre fui fã de filmes e séries em que o enredo é "about nothing" (por analogia à série televisiva Seinfeld). O 'about nothing' tem o enorme charme de ser como a vida, que é um somatório de conversas, beijos, discussões, hábitos, silêncios. Assim, o primeiro filme do casal Celine e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke) teve esse encanto das conversas intermináveis quando estamos na descoberta do outro, quando temos o infinito à frente, que é o outro. Brilhantes diálogos, brilhantes expressões, brilhante filme. "Acredito que se há algum Deus, ele não estaria em nenhum de nós. Não em você ou em mim... mas nesse espaço entre nós...", diz Celine ao rapaz que acaba de conhecer no comboio.
O papel da cigana que lê o futuro, porque há um futuro ali.
No Before Sunset 2004, é o reencontro depois do desencontro, igualmente vivos os diálogos, a retoma da intimidade. A música da Kate Bloom Come Here. A maturidade dos 30, depois das desilusões as novas ilusões mais consistentes e definitivas.
No filme Before Midnight todo o encanto do diálogo "about nothing", que é o mesmo que dizer que é sobre tudo, perde-se na banalidade das discussões cliché. O filme que está nas salas de cinema, sucumbe ao cliché de que os 40 são os anos do divórcio.
Como se o amor e a intimidade tivessem condenados a ter um prazo de validade. Como se a intimidade tivesse azedado numa rotina desmazelada e a Celine surge bastante desmazelada, fisicamente. O grotesco é confundido com o realismo. Assistimos a uma Celine feminista que acha que os seus direitos de mulher a impedem de aceitar ir com o marido para os Estados Unidos (detesto o feminismo).
Salva-se uma ou outra conversa, tal como a conversa à mesa de jantar da grega viúva que fala do homem que amou a vida toda.
A segunda parte do filme então é uma desilusão. Aquelas discussões com frases banais, repetitivas, o entra e sai de Celine no quarto do hotel, para não dizer nada.
Será que as conversas aos 40, por causa de uma escassez de expectativas e de ausência do sentido do futuro se tornam mesmo desinteressantes? Será que o problema não está no filme mas na vida? Ou será que o filme, à força de querer retratar a desilusão e a decadência das relações aos 40, cai num cliché? O facto de ser na Grécia (um país lindo em decadência) também reforça a ideia que se caminha sem rumo e sem sentido para provavelmente chegar a um beco sem saída.
Espero que aos 40 ainda se possa ter conversas intermináveis. Não devemos deixar oxidar a alma e deixar ter fé na pureza do coração do outro. Talvez só assim se salvem as relações humanas quando se chega à meia idade.
Sem comentários:
Enviar um comentário