segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dois filmes, duas realidades.



Recentemente tenho aproveitado para fazer o que não fazia há anos. Ir ao cinema. Decidi que este ano iria ver a maioria dos filmes candidatos a um óscar, e de preferência um dos candidatos ao melhor filme do ano. Isto para concluir que a entrega anual das estatuetas é - creio que já o foi menos - um atentado à 7ª Arte. Diria mesmo que é pôr o "Rossio na Betesga".


No passado sábado vi "Silêncio" de Martin Scorsese, um projecto com mais de 25 anos de maturação em que o realizador italo-americano adapta o romance homónimo do japonês Shusaku Endo.


Neste filme, como escreve o crítico de cinema do Observador, Eurico de Barros, o realizador "instala-nos em cheio no centro da dor. Dor física, dor emocional, dor intelectual, dor espiritual". A que acrescento no meio de uns quantos equívocos históricos: se é certo que na história jesuíta no Japão tenha existido, em 1633, a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira a personagem interpretada por Andrew Garfield não existiu e é um erro histórico que pode levar a enganos desnecessários. De facto na história da evangelização feita pelos portugueses no extremo-oriente existiu um célebre Padre João Rodrigues SJ, apelidado pelos japoneses de Tçuzu (o Intérprete). Este missionário jesuíta, de origem portuguesa, que também viveu na China (morreria em Macau), ficou conhecido por ter escrito o primeiro dicionário de japonês-português e a primeira gramática da língua japonesa. Ou seja, tudo leva a crer (na narrativa deste filme) que este também tenha apotasiado, o que naturalmente é falso.


Sou um fã das obras de Scorsese, e se é certo que o filme nos leve a reflectir sobre a nossa religião, e sobretudo a forma como fomos transmitindo a "Nossa" mensagem, não me encheu as medidas. Acrescento ainda - e é uma nota muito pessoal - que o meu pai, que viveu em Tóquio entre 1966 e 1968, e de onde sou natural, conheceu e privou com Shusaku Endo, e com quem correspondia até à sua morte em 1996. Em 1973, ele escreveu "Uma vida de Jesus", obra na qual procurou transmitir aos seus concidadãos a mensagem do cristianismo. Está traduzido em português (ASA, livro de bolso) e é maravilhoso.


 


Hoje, e num registo completamente diferente, vi o grande candidato a ganhar várias estatuetas: La La Land - Melodia de Amor, de e escrito por Damien Chazelle.


La La Land é uma adaptação da expressão "lalaland" e que significa: "to think that things that are completely impossible might happen, rather than understanding how things really are" e que, grosso modo, poderemos traduzir como " estar fora da realidade".


Bem sei que um do méritos desta arte é a magia, o faz de conta. Porém, e mesmo que o filme seja particularmente bem realizado, seja esteticamente bonito e tenha uma banda sonora agradável é extremamente pobre - para um amante de cinema como eu - pensar que este ano (a fazer fé nos Globos de Ouros ganhos) este divertimento possa ser considerado como o futuro melhor filme do ano. É esperar para ver.


 


 


 


 

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