quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Arte: da estética ao devir de uma nova estética!


Gilles Deleuze e Félix Guattari “Em o que é a filosofia?” (Presença; 1992, p.2) defendem a tese da relação intima entre a filosofia e o conceito, já que a sua missão “consiste em criar conceitos”. O mesmo acontece com a arte, porque esta, e enquanto representação da vanguarda, seja na actualidade, seja no decurso da construção do “objecto de arte” aos longo dos tempos, teve esse objectivo. Caso contrário : não criando conceito, “escolas”, nunca existiria uma História da Arte, nem tampouco existiria a Arte. E a resposta à pergunta “o que é a Arte?”, seria um beco sem saída. Porém, mesmo sem grande respostas e/ou soluções para esta pergunta, a Arte existe!


Observemos a questão na preservativa clássica da estética, i.e., fundamentada em Aristóteles, no qual a resposta esgotaria-se enquanto “imitação da vida”. A arte aqui limitava-se a não ser mais do que um processo, cujo o enfoque era exclusivamente técnico. Interpretar o real, copiando-o ou interpretando-a perante a necessidade funcional como acontece, por exemplo, na arte religiosa ou nas funções práticas das peças de porcelana, de prata etc. No contexto da arte religiosa, havia uma evidente “necessidade comunicativa”, i.e., através de uma pintura ou um artefacto religioso, e em especial dos crucifixos , procura-se uma ligação com o transcendente. No entanto, como viria a acontecer mais tarde, no século XIX, a ideia de arte ganha uma nova dimensão. Ou seja, não tinha que ser exclusivamente funcional, como já não “bastava” copiar e / ou “simular” (religião) para existir. Porque, de facto, o discurso artístico alterou-se. Houve uma clara inversão: a “vida passou a imitar a Arte”! Porque, e na esteira Wilde, se tornou-se sinónimo de mentira, passou a ser enganadora e, principalmente, a estética “mudou de lugar”! Doravante, a estética já não se encontra no objecto em si mas no sujeito que a vê e a aufere. Tornou-se, de um lado, num bem de consumo, como passou a ser (finalmente) conceptual. A Arte ganhou uma nova, e mais “libertadora” natureza. Sendo que o “Ser” - ser arte, ser artista – passou, portanto, a depender de factores externos. Daí que muitos considerem que a própria estética – arte enquanto exercitação do real ou “domesticação” do belo, tenha sido enterrada.


Neste processo, como na vida social propriamente dita, tal como na dicotomia direita / esquerda, o elogio da estética é uma atitude conservadora e a arte conceptual tenha adquirido uma “nova natureza”. Houve, portanto, uma imensa revolução, uma vez que a técnica passou a ser instrumental, e tenha “enterrado” - nos seus moldes mais clássicos e de status – o academismo. Hoje para se ser artista não é exigível uma formação académica. E este processo foi vital para a definição ou resposta à nossa pergunta. Porque enquanto elemento “de e para” a transcendência” o academismo procurava “ovelhas”, isto é, discípulos e continuadores mas nunca criadores de “hipóteses para o belo”. É, neste sentido, que sou, quero ser e estarei “felizmente” condenado a ser: um “hipotético artista”. Porque, e fruto dos tempos actuais e (naturalmente) globais, a ideia de arte é cada vez mais sistémica e o artista só existe enquanto “elemento sensorial”, i.e., uma vez que tem que se expor para o ser. É, por um lado, uma existência condicionada, e por outro, torna-nos (sejam-mos músicos, escritores, etc) reféns da crítica! Uma crítica que, também ela fruto das mais diversas contingências, tenda a ser conformista. Porque os espaços de afirmação da novidade – novos artistas, novos processos etc. – são sempre limitados. Hoje existe, por quem expõe ou o que é exposto, um imenso medo para o risco e uma clara ditadura, fruto das regras ou modas ditadas pelo sistema. Assim – porventura sempre foi assim - a Arte “não tem facilitada a sua tarefa de representar a irregularidade” [Daniel Innerarity; 2009]. Portanto, urge uma redefinição da crítica. De uma crítica que permita novos passo na construção de novos caminhos para Arte, e (re)leituras do belo e, que, quiçá, possibilite a “ressurreição” da estética?


De uma nova estética, que liberte e se liberte dos seus diversos fantasmas!


 


Sobre a imagem escolhida:


Pintura sobre tela cartonada, sem título e pertencente a uma colecção privada, feita em 2016 e que esteve patente na minha primeira exposição individual, em Tomar: "#1".


Terei uma nova exposição, desta feita em Lisboa, na primavera.


Darei novas informações brevemente!

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