Deixar de ter uma participação de controlo no Banco de Fomento Angola (BFA); levar o banco a reduzir a sua carteira de dívida pública angolana ou comprar o Novo Banco para diluir o peso do BFA no balanço são as principais opções que o BPI terá de ter em cima da mesa para responder às exigências do Banco Central Europeu (BCE). Mas paradoxalmente a compra do Novo Banco está cada vez mais distante.
A exclusão de Angola da lista de países considerados equiparados à União Europeia para propósitos de regulamentação e supervisão impactam negativamente no capital do banco liderado por Fernando Ulrich em 90 pontos base, quase 1%. Só para se ter uma ideia, o total de Activos Ponderados pelo Risco (RWA) atribuíveis à exposição indirecta do Banco BPI ao Estado Angolano e ao BNA era de 799 milhões de euros e 437 milhões de euros, respectivamente, antes desta mudança. Com a aplicação, a partir de 1 de Janeiro de 2015, dos novos ponderadores, os RWA atribuíveis ao Estado Angolano aumentam para 3.616 milhões de euros e os RWA atribuíveis ao BNA aumentam para 1.297 milhões de euros, o que corresponde a um aumento total de RWA de 3,7 mil milhões de euros. Foi fatal para o banco mais bem comportado do sistema.
Angola sair da lista de países terceiros com regulamentação e supervisão equivalentes às da União Europeia não é nada de admirar. Basta ver o caso do BESA para estranhar como pode alguma vez ser considerado equivalente à UE. Mas que essa evidência se tornou uma maçada para um dos mais importantes bancos portugueses isso tornou. O BFA é a jóia da coroa do BPI que tem visto o negócio no mercado doméstico contrair-se. O BFA pesa quase 50% nos proveitos bancários e um terço nos depósitos do banco português. A situação não é fácil para o banco. É uma espécie de 'escolha de Sofia' deixar de controlar o BFA e consolidar todos os resultados angolanos ou ter de reforçar o capital.
Fernando Ulrich vai ainda ter de decidir entre reduzir a exposição indirecta em kwanzas do Banco BPI ao Estado Angolano, traduzida em títulos da dívida pública angolana detidos pelo BFA e em crédito concedido ao Estado Angolano pelo BFA e ao Banco Nacional de Angola, traduzida em reservas mínimas de caixa, outros depósitos e reportes também do BFA. Em alternativa pode crescer por aquisições e reduzir o peso relativo de Angola no seu balanço consolidado. Mas para isso também não tem capital.
Vejamos:
O BPI pode vender 1% do BFA para deixar de ter o controlo do banco. Mas há ainda o risco de a exposição a dívida soberana Angolana ter de ser drásticamente reduzida – o que tem forte impacto nas receitas do banco. O limite para investir em dívida soberana angolana (que é de 25% dos fundos próprios consolidados) – o limite dos grandes riscos – foi ultrapassado com estas alterações contabilísticas europeias.
Por outro lado as probabilidades de compra do Novo Banco são agora mais baixas. Pois o capital do banco é mais baixo e a compra do Novo Banco exige capital. Estando o Santander Totta e outros na corrida a pressão no preço é maior. O preço que o BPI pode oferecer é facilmente coberto pelo Santander que tem uma grande capacidade financeira (acaba de fazer um aumento de capital o banco espanhol).
Como é que o BPI pode comprar o Novo Banco? Teria de convencer os accionistas todos (incluindo angolanos e alemães) a irem a um aumento de capital.
Mas há o cenário alternativo de o Caixa Bank comprar o Novo Banco, em substituição do seu participado BPI (o La Caixa tem 44,1% do BPI). Mas como faria depois a integração do BPI com o Novo Banco, não tendo o La Caixa 100%, ou sequer mais de 50%, do banco liderado por Fernando Ulrich?
O BPI pode fazer um grande aumento de capital protegido pelo La Caixa. Onde este garanta que se os angolanos da Santoro e os alemães da Allianz não quiserem investir, o La Caixa estaria lá para pôr o capital, e assim iria reforçar a sua posição no BPI. Até podia correr o risco de ter de lançar obrigatoriamente uma OPA sobre o BPI. Mas dadas as sinergias que daí retiraria compensa ao Caixa Bank esse investimento?
Talvez o Novo Banco esteja destinado a ser do Santander. Eduardo Stock da Cunha iria parar à casa da partida. Será que gosta da ideia?
E o BPI o que fará sem a maioria do BFA? Sem Novo Banco não lhe restará alternativa senão vender uma parte do BFA.
Amanhã o BPI apresenta resultados. Serão esperadas perguntas sobre o enublado caminho do banco.
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