sexta-feira, 14 de junho de 2013

Nasci adulta morrerei criança

"Quando digo «Nasci adulta», há crianças que nascem já com um entendimento, e não serão assim tão raras, que, depois, a sociedade vai atrofiando.


 


Não são assim tão raras?


"Não são, não. Fala com uma criança de dois, três anos, e é genial. A descoberta do mundo, a linguagem... E depois ouve-a aos dez, doze anos, e é perfeitamente banal".


 


Nessa primeira fase está ainda liberta de convenções. É por isso?


Sim. Está só à descoberta do mundo e do diálogo possível com o mundo. É um primeiro olhar e uma definição. Essa definição é muitas vezes perfeita.


 


O que há nas crianças é a inocência.


A inocência, a verdadeira inocência, é cheia de sabedoria. O que encontramos nas crianças é justamente isso. Agora, há muitas crianças que, ainda muito novas, são integradas no seu meio cultural e que imediatamente ficam travadas. Perdem a inocência e transformam-se no adulto ideal."


 


Não foi o seu caso.


Não. Conservo esse lado infantil. Espero que se torne mais agudo e que passe a morrer criança.


 


Pode detalhar o que quer dizer com «Nasci adulta, morrerei criança»?


Nasce-se inocente, mas com conhecimento daquilo que se é _ aquilo que depois se procura através da arte, através de tantas manifestações humanas: de onde viemos, o que somos, para onde vamos. A criança sabe e depois vai perdendo essas faculdades. Mas nascer adulto e morrer criança, que é o que eu quero, isso é que é difícil."


 


Anabela Mota Ribeiro entrevista Agustina Bessa Luís


 





2 comentários:

  1. António Pereira de Carvalho14 de junho de 2013 às 19:04

    “Só dois tipos de pessoas falam verdade. Os loucos e as crianças.
    Os loucos internam-se em auspícios e as crianças educam-se.”
    Jean-Paul Sartre
    (1905-1980)

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  2. sempre gostei bastante da Anabela Mota Ribeiro AMR ). Considero-a a melhor entrevistadora portuguesa da actualidade, e, provavelmente, de "quase" sempre. São entrevistas de grande lucidez. Gosto desta que ela faz a Agustina, como gostei da que ela faz ao Miguel Esteves Cardoso e mulher, sobretudo pelo seu timing - a mulher de MEC passou um tempo difícil , como é sempre o caso, de uma luta oncológica em que a doença é (quase) sempre vitoriosa.
    Para terminar aproveito para agradecer a AMR o ter disponibilizado, online, as entrevista que fez ao longo dos tempos.

    Ver aqui: http :/ anabelamotaribeiro.pt /

    A referência a esta entrevista é natural. A Maria é uma incondicional da escritora tripeira!
    Eu, um dia, quando trabalhei para ganhar uns cobres na TV Cabo Lisboa (que já não existe) tive dois contactos que ficaram nos meus anais: uma foi com a já desaparecida Rosa Lobato Faria, grande senhora das artes e das letras. O outro, por via telefónica, num contacto cordial que durou mais do que era necessário, foi com a Agustina. Contactei-a para a sua casa que tinha na capital.

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