Estou para escrever isto há uns tempos, mas por razões difíceis de explicar ainda não me tinha metido na OPA da Brisa. Agora sinto que já posso.
A propósito dos muitos inquéritos políticos questionando o facto de os bancos CGD, BCP e BES irem financiar a OPA obrigatória dos Mellos (em conjunto com o Fundo Arcus), quando não há dinheiro para a economia, ouvi as declarações dos administradores da CGD. O Estado tem sido acusado às vezes injustamente. É verdade que à primeira vista parece um favor da banca à família Mello. Mas uma análise mais profunda permite ver que isto não é um favor aos Mellos, é um favor a si próprios. Por alguma razão José de Matos, CEO da CGD (gosto muito de siglas), disse na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas que na OPA lançada pela Tagus (Mellos/Arcus) o banco não está apenas a financiar a OPA, mas está sim a entrar numa operação de reestruturação e recuperação de crédito. Ao princípio não foi claro para mim, mas depois lá veio a explicação,"estamos a fazer uma operação de crédito que nos permite reforçar garantias que temos desse crédito". E acrescentou também, "temos de proteger os sectores que precisam de ser segurados para evitar falências em cadeia". Isto é, se deveres pouco ao banco tens um problema, se deveres muito o banco tem um problema, é este o caso do Grupo José de Mello. A informação ficou completa quando a Sábado escreveu que o Grupo José de Mello deve mil milhões de euros só à Caixa Geral de Depósitos e que é apenas 40% da sua dívida bancária. Ora desses mil milhões, apenas há garantias (colaterais) para cobrir 76,8% dessa dívida (havendo por isso um défice de cobertura de 237 milhões de euros). Assim a CGD empresta 88 milhões de euros à Brisa (os restantes são emprestados pelo BCP, 401 milhões e pelo BES 99 milhões) para ajudar a compra 100% da Brisa para depois hipotecarem as novas acções. Mas mesmo que não compre 100%, ou que não compre nada, só o facto de ter criado a Tagus (que juntou duas participações numa só) já lhe permite ter acesso às reservas da Brisa e com isso pagar parte da dívida do seu accionista.
Os bancos ao emprestarem dinheiro à Tagus para a OPA estão assim a investir em garantias adicionais dos empréstimos.
Por outro lado, se conseguirem comprar 100% da Brisa, e assim retirarem-na de bolsa, conseguem que o reforço do nível de garantias dos bancos suba automaticamente, por via da reavaliação da empresa com base nos 'discount cash flows', e não com base no valor das cotações. Desta forma o Grupo José de Mello fica com a sua dívida bancária quase coberta, e os bancos atenuam um vírus que está a corroer o seu capital. Esta é uma OPA à medida dos bancos. Quem se lixa é a Abertis com 15%, que só lhe resta perder ou juntar-se a eles.
Sem comentários:
Enviar um comentário