Recentemente fui convidado a refletir sobre a onda de censura que paira no jornalismo português. Disseram-me que, conforme as tendências ou linhas editoriais, o “lápis azul” está de volta. Creio bem que nunca desapareceu.
Dizem: No Público corta-se à esquerda. No Diário de Notícias à direita, mesmo, que nesse centenário matutino, e em prol de uma suposta liberdade de imprensa e de pensamento, algumas das referências morais pairem. Cheguei mesmo, a ler na página do Facebook de uma certa jornalista, cronista e amiga conservadora, a forma carinhosa com que o diretor a tratou: “a minha reacionária favorita”!
Porém, o elo central deste “problema” é mesmo a palavra. Porque se “desnuda” nada vale quando transcrita, dita ou tele-visionada o cenário é outro, porque “muda evidentemente de destinatário e portanto de sujeito, pois não há sujeito sem Outro”. Neste caso, o campo de ação lápis é particularmente fértil! .
Ontem, à noite, citei Mounier. Porque, de facto, o personalismo que tinha (tem) como fito ser uma “reação as ideologias que escravizavam o homem moderno”, impedindo o Homem Inteiro de ser livre, que é a meu ver condição natural da sua existência, do velho mito do “bom selvagem”. A realidade é no entanto outra: somos seres sociais, e por isso regulados. E nestes casos, e mesmo em sociedades ditas democráticas, e nas quais os jornalistas deveriam ser seus defensores, o bom é inimigo do ótimo, sendo a liberdade um principio e nunca é em si mesmo um fim. Acresço ainda – e esta é uma opinião com a qual estou profundamente de acordo – que o mitólogo romeno Mircea Eliade [“Fragmentarium] acerta no alvo quando escreveu que “ser livre significa em primeiro lugar ser responsável para consigo mesmo”. A ideia de liberdade está em nós. Não é o suposto facto de se viver numa sociedade livre que nos garante a liberdade. Porque, e agora à boleia da genialidade de Fernando Pessoa, só se pode pedir a liberdade se nós o formos: “primeiro sê livre; depois pede a liberdade!"
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