A propriedade tem um peso tão sagrado, que ameaçá‑la é correr o risco de ficar detido entre a desunião dos vivos, mais pesada que a justiça.
No dia em que se reuniram na Rua São Bernardo à Estrela os nove representantes do clã, a polícia judiciária estava a vasculhar computadores na sede do Banco Espírito Santo e já um séquito de jornalistas cercava as saídas da Rua Barata Salgueiro. Era o início da tarde de um princípio de Novembro e um Verão de São Martinho espreitava por entre as árvores semi‑despidas do Outono. A reunião estava para decorrer no 195 da Avenida da Liberdade, mas porque o Ministério Público surgiu de rompante na sede do banco, os nove do Conselho Superior da família dirigiram‑se para a sede do grupo que espreita o Jardim da Estrela.
Fora assim para fugir às garras da imprensa que os representantes dos cinco ramos da velha família de banqueiros escolheram a casa cor‑de‑rosa com portadas verdes, que é o quartel‑general da família Espírito Santo. Sentam‑se à mesa nove, mas só cinco votam.
Reinava aquela calma que antecede as grandes catástrofes, marcada por um indelével rasto que o não dito deixa. Ricardo Salgado; José Manuel Espírito Santo e o seu sobrinho Ricardo Abecassis Espírito Santo; António Roquette Ricciardi e seu filho José Maria Espírito Santo Ricciardi; Manuel Fernando Espírito Santo em representação da sua mãe, Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo, e o seu irmão Fernando Espírito Santo; e aquele que era uma espécie de Espírito Santo «por adopção», Mário Mosqueira do Amaral com o seu filho Pedro, estavam na sala.
Ricardo Salgado há muito que era tema de conversa frívola nos petit comités de amigos, os portugueses dizem mal de tudo com uma insinceridade genial. Mas foram as notícias dos jornais e as informações que iam chegando de um velho ex‑aliado da família, Pedro Queiroz Pereira, que desencadearam um incómodo no coração de, pelo menos, três membros do clã: António Roquette Ricciardi; José Maria, seu filho; e Ricardo Abecassis Espírito Santo, o parente do Brasil. Não fora um mero acaso, o facto de uns meses antes, o capitão da indústria – a quem, há um par de anos, tinha sido atribuído, pelo Presidente da República, a grã‑cruz da Ordem de Mérito Industrial – ter avisado José Maria Ricciardi da situação financeira das empresas que sustentavam todo o Grupo Espírito Santo, ainda longe de saber que por debaixo do tapete havia muito mais dívida por reconhecer e que escondia a verdadeira situação de falência técnica do Grupo Espírito Santo. Por causa da sociedade que tinha com a família Espírito Santo, por herança, na Espírito Santo Control, Pedro Queiroz Pereira tinha conseguido informações que acabam por culminar com a derrocada do império da família Espírito Santo, que afinal estava enterrado numa espiral de dívidas incontroláveis. José Maria Ricciardi ficou apavorado.
Voltemos atrás. Nos dias que antecederam a reunião de patriarcas, os representantes dos vários ramos da mais velha família de banqueiros do país tinham‑se encontrado em surdina para discutir o corrupio de notícias contra o homem em quem tinham depositado a liderança do banco com o nome da família, que tem 145 anos.
Sem comentários:
Enviar um comentário