O mundo antes de 1989 e o mundo depois de 1989. O que mudou? Até 1989 a modernidade ficava do lado de cá do muro. A Europa evoluia do lado de cá do muro. Para lá do muro o mundo parara no tempo. É disso que me lembro quando me lembro do muro de Berlim. A Alemanha de lá era austera, pobre, comunista e controlada. A Alemanha de cá era moderna, rica e capitalista, democrática. Uma tinha o marco alemão oriental, outra tinha simplesmente o marco alemão. Uma tinha por lema «Proletários do mundo, uni-vos»; a outra «Unidade, justiça e liberdade».
Eu não passava de uma adolescente nessa altura, na altura do muro e na altura da sua queda, adolescente num país com pretensões ocidentais, mas ainda tão pobre como um país de leste. Um país conservador e tradicionalista, com uma estética datada, mas a espreitar as novas modas de Londres e Paris. O que eu via nessa altura? Pouco mais do que o meu universo, o meu eixo Lisboa-Cascais, os pequenos luxos de uma vida típica de uma adolescente naquele ambiente estorilense. Bôites com bolas de espelhos e de entrada condicionada, enchumaços, veludos cotelês, lodens, sabrinas de verniz, bandoletes, tafetás, Benetton (não havia Zara), Migacho, Kookai, festas, gelados, praia, barcos e optimistes, pouco se questionava nessa altura, muito pouco. Muito pouco se abordava nas conversas para lá das coisas banais, triviais e ligeiras da vidinha rotineira, entre aulas, festas, cafés, praia, e Vangogo, News ou 2001. Amores e desamores.
Berlim dividido ao meio era uma coisa que não questionava, era uma realidade que nascera antes de eu nascer. Não questionamos facilmente aquilo que existia antes de nós existirmos, talvez não nos sintamos com legitimidade para tal.
O muro existia antes de mim e isso dava-lhe uma consistência inegável. Acho que talvez me tenha passado pela cabeça, nalgum momento, que aquilo de dividir ao meio uma cidade (Berlim) e um país, não tinha grande nexo, penso que sim, que pensei nisso como um absurdo, mas era assim que era e não valia a pena pensar muito no assunto. Lembro-me de nessa altura ter de fixar duas capitais da Alemanha, a da RFA, Bona, e a da RDA, Berlim. Mas pensei nisso como quem pensa numa Guiné Bissau e numa Guiné Conacri. Havia duas Alemanhas, pronto, também havia várias Guinés.
Hoje penso que bizarro e terrível que era um povo estar encarcerado por um muro que impedia os alemães de se visitarem uns aos outros. Será que hoje, sem muro, se visitam?
Se é um fenómeno datado? Não sei. Há muros que não são de pedra, mas não são menos muros que os outros. Nesse aspecto nada mudou desde então, há muros construídos a separar pessoas, e muros por construir. O mundo está carregado de muros.
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