quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A banalidade do mal

Fui ver o filme Hannah Arendt, sobre a jornalista que em 1961 foi destacada pelo The New Yorker para cobrir o julgamento do Nazi Adolf Eichmann, em Jerusalém. O filme é bastante maçador o que impede de estarmos focados no essencial. O tom monocórdico da língua germânica também deve ajudar a isso.


Mas voltando ao essencial, o filme aborda as pressões que a jornalista sofreu por ter posto em causa a atitude de alguns judeus que denunciaram os seus (eventualmente como acto de cobardia para salvar a própria pele). Hannah Arendt, que era filósofa também, transformou a cobertura jornalística do julgamento num tratado sobre a Banalidade do Mal. 


À medida que Hannah Arendt vai relatando o julgamento torna-se cada vez mais evidente a sua linha de argumentação: trata-se de um homem banal, trata-se de actos banais, trata-se da banalidade do mal, trata-se de obedecer ao Estado, trata-se de ser humano sem questionar, trata-se de manter um status social. 




O mal é banal. É banal e reveste-se das mais variadas formas (na cobardia, na obediência, na submissão, na inveja). O tratado sobre a banalidade do mal é a constatação de que o mal é praticado diariamente pelo Homem normal, pelo Homem comum. O mal é banal. E o bem? Será também o bem banal?

1 comentário:

  1. Martin Heidegger foi indubitavelmente um dos grandes filósofos do século passado e, não obstante, a sua inteligência e contributos dados à filosofia, foi um apoiante de Hitler e do nazismo – no melhor pano cai a nódoa. Entre as suas alunas constava uma jovem judia, e com quem se envolveu amorosamente. Chamava-se Hannah Arendt , que seria também um dos nomes marcantes do pensamento novecentista, e que nas suas obras, bem amarguradas, reflectem, por um lado, as suas vivências (todos os livros tem sempre uma componente autobiográfica) e por a “gincana” mental, política e filosófica, retratou até à exaustão o "mal" como uma variável indiscutível do século passado. Li muito do que ela escreveu, o que não sendo de fácil absorção, até porque a paixão e a circunstância a moldaram, deveria ser de leitura obrigatória!
    Neste particular, uma excelente escritora francesa, Catherine Clément , fez um brilhante livro sobre essa relação impossível. Em o “Último encontro”, ela retrata, brilhantemente, a derradeira vez em que ambos se reencontram: Hannah vai visitar Heidegger nos finais da sua vida, e onde ambos recordam com doçura e amargura essa relação impossível. Há ainda a acrescentar que Clément , antes de se ter entregado á escrita – e é uma escritora que merece ser conhecida – era filósofa, o que seguramente a ajudou na montagem desta trama!

    P.S. - Espero ver brevemente este filme!

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