terça-feira, 15 de outubro de 2013

Uma esquizofrenia esta reacção à parceria com Angola

É uma comédia Seinfieldiana o que se passa no palco das relações Portugal-Angola. É que apesar de todos os comentadores serem contra o "poder angolano", agora criticam o Ministro dos Negócios Estrangeiros por ter posto em risco as relações entre Angola e Portugal. Faz-me lembrar aquela famosa piada de caserna americana: the food is terrible and it's not enough.


É por isso hilariante a reacção do Bloco de Esquerda ao facto de o Presidente José Eduardo dos Santos ter anunciado o fim da parceria estratégica com Portugal durante o discurso que proferiu hoje de manhã em Luanda, na Assembleia Nacional, sobre o Estado da Nação. O BE associa o fim da parceria estratégica de Angola ao pedido de desculpas de Rui Machete a Angola. “Esta postura do regime [angolano] tem clara relação” com as declarações de Rui Machete, sublinhou o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares. “Quem não se dá ao respeito não é respeitado, isso é factual neste contexto”, acrescentou.


Será que o líder do Bloco está a criticar o Governo por ter posto em causa a parceria estratégica entre Portugal e Angola? Mas afinal querem uma parceria estratégica com os angolanos, esses malditos? 


Parece haver em cada comentador (vide exemplo de Daniel Oliveira) a tentação de "denunciar" e "desafiar" o "poder" angolano. O facto de os angolanos serem ricos e de nós precisarmos deles como do sol ajuda provavelmente a essa tentação. Mas afinal, agora não há quem não peça a cabeça de Rui Machete por ter estragado as relações com Angola. 


 


As pessoas têm de escolher ou querem a parceria com Angola ou não a querem. Não podem ter sol na eira e chuva no nabal. Não podem criticar os angolanos à segunda, quarta e sexta, insinuar a influência excessiva, o poder não instituído dos angolanos, e à terça e quinta irem apelar à parceria estratégica para salvarem os nossos jornais da falência; para injectar capital nas nossas empresas. 


 


Mas alguém quer mesmo chatear os angolanos que compram os nossos grupos de media falidos? Que recebem os nossos bancos, sem rentabilidade no mercado doméstico, como parceiros? Que dão obras às nossas construtoras que nem um saco de cimento gastam hoje em Portugal? Alguém quer fechar a porta aos que investem nas fusões e aquisições das nossas empresas? Aos que investem no capital dos nossos bancos?


No fundo ninguém quer estragar a relação com Angola, porque é de lá que vem o capital. São eles os verdadeiros donos das nossas empresas. Porque quem manda não é quem quer, é quem pode, e quem pode é quem tem dinheiro para mandar. 


 



Fonte: Jornal de Negócios

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