Os portugueses não são dados a grandes revoluções, mas são especialistas em perder o pudor. Assim que a conjuntura permite lá salta do mais profundo do tuga o seu fel contra os ricos, contra os privilegiados, contra os sortudos. O que se está a passar em Portugal é precisamente isto: as pessoas perderam o pudor de expressar o que vai na sua alma de ressabiados sociais, no seu espírito de pobre invejoso. Uns assim e uns seguem os outros por mimetismo, por serem permeáveis aos clichés (assim já podem sempre pensar que o vosso caso se encaixa no segundo, o do mimetismo) :)
Portugal em crise, reina o espírito do pobre invejoso
Portugal em abundância, reina o snobismo e a soberba.
Pronto, não saímos disto. As ideias, a inteligência, o mérito, a vontade de atingir os objectivos por mérito próprio, a ajuda por amor ao próximo, sem sacrifico, disso pouco ou nada.
Deixo aqui um relato de um debate inédito neste país onde um bando de espantalhos, a quem nós pagamos para serem deputados, se prestam ao serviço do ressabiamento social:
«Durante a sua audição na Comissão de Orçamento e Finanças, o tema principal tem sido, sem surpresa, a declaração feita pelo banqueiro na semana
passada, sobre os sem-abrigo [Fernando Ulrich sobre as pessoas dizerem que o país nao aguenta mais austeridade, explicou que essa expressão não era verdade. Porque havia países que viviam pior que nós e havia pessoas - deu o exemplo dos sem-abrigo - que viviam pior que nós. Porque é que nós estaríamos imunes a isso? Somos todos iguais ou não?]. A deputada Ana Drago, que voltou a dizer a Fernando Ulrich que deveria pedir desculpas ao povo português, e disse mais “o senhor, que tem um salário mensal de 60 mil euros, não sabe como vivem as pessoas. E que as suas declarações são uma ofensa a todos os que lutaram para que houvesse a liberdade de cada um dizer o que pretende”. O banqueiro reagiu, afirmando que “estou grato a quem lutou para que eu pudesse dizer aquilo que digo, mas pela sua idade também não deve ter lutado muito. Mas beneficia, como eu, com aquilo que todos antes de mim fizeram”. E voltou a negar qualquer pedido de desculpas pelas suas declarações. “Não lhe reconheço a si nem a ninguém o monopólio da sensibilidade social ou da propriedade da verdade. Isso revela da sua parte um espírito da Inquisição em que as pessoas eram condenadas por crime de opinião. E portanto eu vou continuar a usufruir da liberdade de que beneficio e a sra. Deputada também”. Sobre o salário, Fernando Ulrich afirmou que “Aquilo que tenho ou não tenho foi feito com a vida numa empresa privada não lhe diz respeito. Tenho os meus impostos em ordem e se um dia alguém me quiser julgar desse ponto de vista, mais importante do que ver aquilo que eu ganho é ver como o gasto”. E concluiu em jeito de contra-ataque: “mas digo lhe que não recebo lições desse ponto de vista. E não sei porque se emociona tanto com a minha remuneração e não com a de um treinador do Benfica que ganha não sei quantas vezes mais do que eu? Se calhar porque isso afectaria os seus votos. Mas eu, como não sou de nenhum partido, sou um alvo fácil”. Na mesma ocasião, Fernando Ulrich respondeu também a algumas acusações feitas por outros deputados, sobre as declarações proferidas há uns meses, em que disse que o BPI estaria disponível para acolher desempregados que, continuando a receber subsídios do Estado, quisessem trabalhar no banco. Uma atitude que, para as bancadas de esquerda, é contrária aos “princípios” que o banqueiro diz defender. "Ao contrário da senhora deputada [Ana Drago], eu tenho alguma experiência na criação de postos de trabalho [...] Não pense que é só com medidas macro económicas que vamos conseguir reduzir o desemprego. Não são só as PME que vão reduzir desemprego. Para criar emprego não é preciso ter só dinheiro: é preciso ter organização e capacidade para criar projectos para as pessoas. E o BPI tem essa capacidade. Tal como a PT, ou a Zon ou tantas outras grandes empresas”. “Com as suas declarações, aquilo para que a senhora deputada está a contribuir é para uma sociedade mais egoísta. É que ao contrario da senhora deputada, eu consigo criar postos de trabalho e a senhora não”.»
Nota: eu se estivesse no desemprego a ganhar o subsídio adoraria estar a trabalhar numa empresa privada onde alguém pudesse reconhecer o meu trabalho e contratar-me, mas isto sou eu.
Concordo consigo, porém não percebo porque é que o tuga não possa lançar o seu fel sobre os sortudos? Porque a sorte não é objectivamente uma qualidade, como é o trabalho e o empenho. Uma vez ia quase ganhar o totoloto, fiz três apostas. Na do meio tinha quatro números e os que faltavam para ganhar uns bons milhões de euros estavam nas outras apostas. Imagina como fiquei? Passeis meses a destilar fel. Poderia ter uma vida melhor mas a sorte não quis nada comigo. Paciência.
ResponderEliminarAssim apague a palavra sorte do seu enunciado e o seu texto fica perfeito!
P.S. - Não chega de falar do Fernando Ulrich? Já enjoa, até parece que não há mais nada de interessante neste país!
Invejoso?
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