Lido no Expresso:
By Pedro Mexia (o sublinhado é meu)
De Gaulle declarou que “o Brasil não é um país sério”. Em “Breviário do Brasil”, Agustina Bessa-Luís propõe-se demonstrar que se trata de um país seriíssimo, severo mesmo, como as florestas mais obscuras da Amazónia.
Publicado em 1991, na sequência de uma extensa visita organizada pelo Centro Nacional de Cultura, este não é tanto um livro “de viagens” mas um diário civilizacional. Agustina não procura paisagens e “gente interessante”. Considera-se uma espécie de Phileas Fogg, alguém com uma missão. Começa por recusar as abordagens “turísticas” e “folclóricas”, de samba e violão. E diz trazer apenas aquilo que Vaz de Caminha trouxe, uma ignorância que é boa vontade. Porque os portugueses não descobriram o Brasil, apenas o abriram ao mundo. Amamos o Brasil porque achamos que o compreendemos. Mas embora nos possamos sentir quase-nativos, “ser português no Brasil é tão natural como ser Papa em Avinhão”, uma naturalidade um pouco ínvia.
Agustina não é estranha ao Brasil: o pai da escritora foi negociante no Rio de Janeiro durante 25 anos, e um tio-avô viveu na Bahia. Conhece autores brasileiros desde criança e cita-os como se fossem da família. Este volume, Segundo Agustina, o brasileiro convive com a tristeza sem fazer dela uma estética que inclui outros textos transatlânticos, reproduz aliás uma alocução perante a Academia Brasileira de Letras e o discurso de agradecimento do Prémio Camões, entregue no Brasil. O tom é carinhoso e nostálgico, hostil aos burocratas nacionalistas e aos antiportugueses, “caçulas da invectiva”. E Agustina confessa que deixar determinada terra brasileira é como deixar um cemitério onde temos parentes enterrados.
Uma civilização define-se através da comparação. Agustina encontra traços portugueses em todo o lado, igrejas e palacetes, socalcos como no Douro, Petrópolis que parece um Alenquer tropical, uns certos modos de Corte. Mas o brasileiro é o português do avesso, conversável, optimista, e confundimos isso com leviandade. O brasileiro crê que a tristeza é contrária à natureza e engana a vida com a alegria. Convive com a tristeza, diz Agustina, sem fazer dela uma estética. Essa estratégia justifica a aversão ao passado, o recalcamento da tragédia, a des problematização da existência, a delinquência como culto da acção, a ostentação terapêutica, o cosmopolitismo forçado, o intelectualismo dos elegantes, a consciência aguda do futuro, o narcisismo da energia sexual, o trauma da escravatura que é um pacto de culpa. Surpreendente, Agustina vê o Carnaval como uma “parada calvinista”, uma celebração do fausto enquanto bênção; acha a Teologia da Libertação evidente, porque “a religião é um indício de proletariado”; e diz que a lambada não é apenas frenesi erótico mas representa um amor que morre se pararmos.
Este Brasil mantém o fascínio da Terra Prometida, ampla e esplendorosa, continente de ouro e cacau, babaçus e jabutis, chácaras e engenhos. Mas o que interessa aqui não é o pitoresco nem sequer o cru (como em Ferreira de Castro, que Agustina defende); o que importa são os mistérios do Brasil, como a mestiçagem e o candomblé. Ou os factos observados como se fossem ficção, em magníficas divagações imaginativas: o insurgente Tiradentes; Ana Jansen, a “rainha do Maranhão”; a imperatriz Leopoldina, obrigada a conviver com a bigamia; Lampião, o cangaceiro; Santos Dumont, extravagante porque menino rico. Estas figuras dramáticas animam-se, em museus ou num teatro de sombras como Ouro Preto, e as suas intrigas incluem quase sempre aquilo a que Agustina chama “o meu assunto predilecto: a criminologia”.
Qualquer visão do Brasil convida a equívocos, excepto a que explora os seus fantasmas. Porque é também desse passado denso que nasce aquele Brasil “país do futuro” que Stefan Zweig anunciou. Escreve Agustina: “O sol está no zénite, eu acho que ele está no zénite o dia inteiro.”
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