segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A arte e a mentira

Sobre a arte, a mentira e o realismo escreveu Oscar Wilde: "A mentira, o acto de contar belas coisas não verdadeiras é o propósito exclusivo da arte" [...] O Realismo é um completo falhanço; no momento em que a arte abdica dos seus meios imaginativos, abdica de tudo".


 


Aliás, este célebre quadro de René Magritte - o surrealismo em geral - é um óptimo exemplo. Porque, para o surrealista belga, o cachimbo tem outras leituras que ultrapassam em muito o produto final.


 



 


Nota: para os que não coram a público o significado de "pipe" é este.


 


 

9 comentários:

  1. Vou te contar uma coisa: há duas maneiras (isto é História) de ver o mundo versus arte: uma delas (acho que é aristotélica) diz que a arte imita a vida, a outra (precisamente a de Oscar Wilde) diz que a vida imita a arte. Eu acho que Oscar Wilde tem razão, porque as ideias vêm primeiro. Mas o realismo é o oposto dessa tese. No realismo a arte imita a vida.
    O realismo também é arte. Tens um Camille Corot, um Gustav Courbet, Millet, o próprio Edouard Manet.

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    1. De António Canavarro a 3 de Outubro de 2011 às 17:35
      Eu no sábado acho que consegui mal passar esta ideia. A arte está mais em quem a vê no que no objecto em si mesmo. Ou seja, é aquilo que é transmitidos, que nos provoca sensações, que é verdadeiramente arte. Até mesmo, algo que o senso comum não configure beleza - como esta imagem, por exemplo: http://valberlucio.files.wordpress.com/2011/04/fotojornalismo.jpg. - não deixa, de per si, de ser arte!
      Daí que (e voltarei a esta temática) conclua como escreveu Tchekhov: "As obras de arte dividem-se em duas categorias: as de que gosto e as de que não gosto. Não conheço outro critério."

      Quanto aos realistas eu diria como Nietzsche (numa quase interpretação "wildiana": "Temos a arte para não morrer da verdade!"

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    2. Mas olha que isso não só não é verdade (isso da arte estar mais em quem a vê do que no objecto em si), como não é isso que diz o Oscar Wilde. E no Magritte também não. Porque o Magritte, como bom surrealista que é, nega a realidade óbvia. Logo a arte está em quem emite a mensagem e não no receptor.

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    3. Não podemos entender a arte como entendemos, por exemplo, um queijo da serra. Porque se o queijo da serra é o que é, a arte tem diversos ângulos: Primeiramente, temos a arte como técnica e depois temos a arte como resultado. Acresço ainda (embora considere que seja limitador) que a arte, sobretudo como resultado da industrialização e consequentemente democratização - universalizou-se, é para todos. Há claramente um sistema da arte no qual o criador (na corda bamba) depende exclusivamente do mercado. Ou seja, não tens que ser bom artista, tens que vender bem!
      Imagina: um galerista quer ter boas obras ou obras que vendem bem?
      Eu acho que o mercado da arte acabará por matar muitos artistas, mas arte de há anos a esta parte é assim. Concluindo: a ideia de arte repousa também no produto final. Não se compram artistas compram-se as obras que eles fazem!

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  2. Olha só o que disse o Miguel Ângelo:
    "A arte pode vencer a natureza, desde que o artista deixe nela a sua marca."
    Há tantos outros a pensarem assim que se a função da arte é o de imitar a vida a arte seria um pesadelo, e no entanto não o é!

    P.S. - achas que a pinturas rupestres são arte? Ela imitam a vida, não é? E no fundo falta a magia da arte!

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    1. Desde logo arte não tem função. O que tem função é o design (que não é arte).
      A arte é uma linguagem....as pinturas rupestres são a pré-história da arte...
      A arte pode imitar a vida ou a vida pode imitar a arte, vida e arte estão indissociadas.

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    2. Ora muito bem, dizes tu que a arte não tem função? Logo a arte dita religiosa é um mito? A não ser que aches que a "função", por exemplo, de um crucifixo, numa igreja, ou de uma medalha que temos ao pescoço é um mero adorno? Mas se é assim porque será que pedimos a sua bênção se estas não tem objectivamente qualquer "funcionalidade"?

      Eu não estou a dizer que sou dono da verdade, mas que é matéria que dá pano para mangas lá isso dá!

      Aliás como já referenciamos - ou tu referenciaste - a "imitação da vida" eu ofereço-te isto:


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    3. Tó, A arte não tem função, isso vem nos manuais. Se tem, logo não é arte.

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    4. Vamos por partes: Eu sei que a arte não tem função, logo confirma-se: a Arte dita religiosa não deve, por isso, ser catalogada de arte, pois tem uma função e uma componente (digamos) ideológica evidente. Se bem que muitas dessas peças tenham em nós o mesmo impacto, provoquem as mesmas sensações do que uma "verdadeira" obra de arte.

      Por outro lado, dizes tu que vem nos manuais! Ora, para mim, a ideia de manual, i.e., o seu estatuto sistémico, a componente absolutista e conservadora, uma vez que não supõe o contraditório, é limitadora! No entanto, como vivemos sempre em função de algo - por exemplo um manual de medicina - ganham o seu estatuto e importância vital!

      No entanto, e de forma a adensar o nosso diálogo, cito Aristóteles: "A arte é a ideia da obra, a ideia que existe sem matéria."

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