terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O peso das palavras

1| Há uns anos, no interessante jornal do Dr. Paulo Portas, “O Independente”, saiu uma notícia segundo a qual num documento interno do Ministério da Defesa sobre guerrilhas e grupos terroristas era dito que a Resistência Timorense fazia parte desta tipologia de organizações. Se bem se lembram caiu o Carmo e a Trindade! De facto, houve pouca prudência da parte de quem fez referido estudo, pois se existem no mundo tantas organizações guerrilheiras e terroristas porque carga de água se foram logo lembrar dos nossos amigos de Timor-leste?


 


2| No entanto o problema nem é político. É, por um lado, um caso de incompreensível distracção e, por outro, uma questão semântica, nomeadamente se as palavras são mal empregues. Porque (e para os mesmos efeitos) se o documento tivesse sido escrito por um qualquer gabinete de estudos internacionais, algures no mundo, todos comiam e calavam-se! Convenhamos: que diferença existe entre o povo Maubere e, por exemplo, o Exército Republicano Irlandês, IRA? Não são as perspectivas de ambas organizações legítimas? Com isto não queremos dizer, que no contexto táctico e estratégico, estes movimentos agem “cobardemente” e na calada, atacando pessoas indefesas. Acontece que o efeito surpresa é a grande mais-valia destes movimentos no contexto das “guerras irregulares” Acrescemos ainda que estes são movidos por ideias legítimas – a libertação do seu povo do jugo opressor - ao contrário (isso sim) dos movimentos fanáticos, integristas e ideológicos matam indiscriminadamente em nome de um suposto Deus ou ideal? Porque de facto se há alguém que deveria pedir desculpas somos nós, portugueses, de os termos abandonado, ao “Deus dará”, com uma mão à frente e outra atrás à época descolonização! E, aliás, - se bem me lembro -, não deixa de ser curioso que foram precisamente os partidos de esquerda - incluindo o Socialista - quem mais se esgrimiu a pedir explicações! Mas em política (por maioria de razões) a memória teima em ser curta!  


 


3| E já agora aproveito do ensejo para perguntar: o que terá acontecido no mundo que, de um momento para o outro, começamos, sempre que falamos ou escrevemos, a escamotear a realidade embrulhando as palavras em papel de seda? Bem sei que as por vezes magoam. Mas transformar a realidade em flores de estufa, vão por mim, é muitíssimo pior. Eu pelo menos detestaria tornar-me num coitadinho!


 


 


 



 


 

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