Emana de Inside Job um tal moralismo popularucho, fácil e óbvio, que o filme de Charles Ferguson mais parece um panfleto ideológico de esquerda. E mesmo assim entra num beco sem saída, quando ao tentar ser isento e pôr no banco dos réus os republicanos e os democratas (os republicanos mais que os democratas, note-se) acaba por ir parar a defensor da Europa. Ora a Europa também está como está, pelo que não serve de exaltação a ninguém.
Podemos começar por perguntar onde é que estava Charles Ferguson, quando os produtos financeiros sofisticados eram a estrela cadente do sistema financeiro e davam milhões? É que é muito fácil ser Cassandra depois do 'desaire', ou numa versão mais senso comum, os melhores prognósticos são sempre no fim do jogo. Gostava de dizer a Charles Ferguson, que põe na voz off de Matt Damon as perguntas tendenciosas aos agentes da "crise do subprime", que era uma prática de boa gestão os investimentos em activos terem como "rede" a aposta na queda desses activos. Essa era uma forma de minimizar o risco. Apostava-se num movimento e no seu contrário. O que não é forçosamente o mesmo que dizer que os banqueiros, qual bando de malfeitores, enganavam os clientes quando vendiam um activo e apostavam na sua queda. Há os que enganaram e os que não enganaram. Depois faltou no filme, explicar a filosofia inerente ao subprime: foi uma ideologia barata de esquerda (semelhante à desta fita) que pôs os bancos a emprestar dinheiro a todos os americanos, ainda que pudessem não ter dinheiro. Uma filosofia bem intencionada, de igualdade de oportunidades, defendida por Clinton que consistia em criar condições para que cada americano tivesse uma casa. Pois bem, com a ajuda de Alan Greenspan, e da flexibilização das regras para dar impulso à criatividade financeira, vista então como uma benesse, criou-se o crédito de alto risco "subprime". Alto risco, logo alta rentabilidade. Ninguém se lembrou, no filme, de perguntar se os clientes "enganados", na altura queriam investir em produtos conservadores de baixo rendimento? O mais provável é que não se contentassem com juros de um depósito a prazo, clientes tanto particulares como instituicionais, como os fundos de pensões de que fala o filme.
Ferguson surge aqui como a Leni Reifenstahl de um sistema político por inventar, aquele em que os pobres são santos e os ricos malditos malfeitores. Maniqueísta q.b. Inside Job é uma maçadoria, confusa, e quem não está dentro dos meandros da crise, ou familiarizado com a linguagem dos Crédit Default Swaps, derivados OTC, securitização de crédito, etc, fica sem perceber nada sobre a crise de 2008 e que dura até hoje. O realizador mistura tráfico de armas, ostentação, bónus de gestores, com boom imobiliário, créditos NINJA, enfim... uma perfeita confusão. Claro que não quero com isto dizer que a corrupção não justifica muito do que se passou no mundo a partir de 2008. Claro que sim. Sobretudo a corrupção do tráfego de influência que pôs banqueiros e políticos numa aliança de poder em todo o mundo. Claro que a ambição e a vaidade, inerentes à natureza humana, foram achas numa fogueira que o tempo e o sistema foi alimentando. Mas é preciso dizer que o sistema não permitia que os banqueiros ficassem à margem da sofisticação financeira. Vicissitudes de um capitalismo popular e disseminado. O que acontecia a um CEO que ganhasse em lucros metade do banco concorrente, apenas porque se recusava a investir em produtos financeiros alavancados e de alto risco? Era destituído pelos accionistas, que buscam apenas o dividendo anual.
Inside Job é um mau documentário e um mau filme.
É verdadeiramente necessária uma humanização do sistema financeiro mundial. (“Título” inspirado pelo título do post posterior/anterior).
ResponderEliminarConheci alguém que tinha um restaurante e um dia, em conferência com o CHEFE, acordaram fazer Arroz de Pato. De imediato o referido CHEFE disse-lhe: “Não compre quatro patos. Compre dois patos e duas galinhas do campo”. E eu pergunto: a partir do momento que se decide fazer Arroz de Pato, sem ser só com pato, qual o critério? Dois patos e duas galinhas do campo, como sugeriu o chefe? Um pato e três galinhas do campo? Ou uma galinha do campo e três patos? Ou muda-se o nome do prato para Arroz de Pato e/com Galinha do Campo? Com este pequeno exemplo, prático, concreto e real, penso tornar claro o perigo infinito em que se entra ao abandonar princípios e valores intemporais, para ceder ao pragmatismo e a sabe-se lá mais o quê. São nestes momentos que é preciso ter critérios éticos que orientem o SENTIDO DA VIDA. Se não existem, é a tal caixa de Pandora que se abre e...
Aprende-se nas faculdades de Direito de todo o mundo que “a imaginação do ladrão, anda sempre um passo à frente da imaginação do polícia.” Como tal, ou há todo um “sistema” social que educa, instrui, ensina e dá o exemplo, para que não haja ladrões, ou limitá-los de forma extrema, ou então não haverá nunca “polícias” suficientes para evitar o saque, mais ou menos generalizado. Penso que foi nos anos 50 que surgiu a expressão “white colar crime”.
Já em Junho de 2000 dizia o Prof. Rosado Fernandes, preocupando-se com a crescente sofisticação dos criminosos, que “já não têm dente de ouro nem são manetas: agora o ladrão andou connosco na escola, teve as mesmas namoradas que nós, já é gente fina e fuma charuto”.
Nessa genial obra e actualíssima que é a ARTE DE FURTAR, de 1652, de autor português desconhecido, dizia ele: “Não ensina ladrões o meu discurso, ainda que se chame ARTE DE FURTAR, ensina só a conhecê-los e para os evitar.”. Noutro capítulo ocupa-se “dos que furtam com unhas fartas” dizendo numa síntese brilhante, luminosa e duma actualidade impressionante: “Não se contentam em se verem fartos e cheios como esponjas; querem engordar com acepipes, e, por isso, lançam o pé além da mão e estendem as mãos até ao céu e as unhas até ao inferno, e metem tudo a saco, quando o ensacam e são como o fogo que a nada diz: basta!”
Segundo o Papa João Paulo II “O demónio, o príncipe deste mundo, continua as suas acções traiçoeiras. Todo e qualquer homem está sob tentação do demónio”.
Esta ganância desmedida, tão actual, encontra eco no Editorial da revista Fortunas & Negócios de Outubro de 2001 onde Rui Camarinha pergunta: “O ACCIONISTA É REI?”.
AMORALIDADE e INDIFERENÇA são primas direitas e chegadas.
Também conheço quem tenha escrito aos sócios e batido com a porta, dizendo: “A um mundo de princípios e valores, cada vez mais arreigados na minha pessoa contrapõe-se-lhe um mundo de interesses que é cada vez mais e em definitivo inconciliável com aquele. Por diversos motivos teria tendência para, cada vez mais, ser profundamente incómodo e inconveniente.”
Num misto de ingenuidade e imbecilidade pura, de que cada vez me sinto mais possuidor, tal o número de fenómenos que não percebo, admito que possa existir algo de ideológico neste documentário, mas fiquei com a impressão de que se trata mais de uma peça quase jornalística, tipo GRANDE REPORTAGEM, jornalismo de investigação, do que qualquer outra coisa.
Toda a raiz principal e única retratada neste “filme” é um problema espiritual de fundo e que existe desde o pecado original, em que os homens, seduzidos pelo mafarrico, que os convence, antes do mais, da sua não existência, vende-lhes todas as ilusões e tentações para, chegada a altura, lhes tirar a passadeira vermelha antes estendida, deixando um rasto de NÃO AMOR, com todos os substantivos, adjectivos e verbos que lhe possam estar associados.
Para terminar este “comentário” cito a notável Nota Pastoral da Co
Não vi o filme. Apenas, direi com Pereira de Carvalho: "É verdadeiramente necessária uma humanização do sistema financeiro mundial." Resta saber quem fará tal humanização. Os líderes politicos actuais, não! Os economistas actuais, da direita à esquerda, também não! Muito menos os directamente interessados em obterem lucros com o sistema vigente: os malditos " ricos, os não menos malditos " accionistas! Entre aspas porque eles, servindo-se e servindo o sistema, desumanizaram a humanidade, pondo a pólis e a pessoa ao serviço da economia e da finança e não estas ao serviço daquelas.
ResponderEliminarO apelo que faço, em intervenções públicas, no meu blogue e também no meu último livro "Um Mundo Liderado por Mulheres" é aos jovens, sobretudo universitários de economia, juntamente com os seus professores não "engagés ", para que elaborem modelos credíveis que se imponham pela lógica e inteligência de argumentos, portanto, outros que não estes, onde o liberalismo económico deixe de existir para ser fortemente controlado, com leis realmente claras e concisas e sem subterfúgios (subterfúgios que fazem as delícias e as fortunas dos advogados!), e visando a sustentabilidade não só social mas também ambiental. Sem um Planeta saudável, nem os "malditos" dos ricos se "safam"! Mas eles, obcecados que estão pela ganância do lucro, nem se apercebem de que estão a cavar a própria sepultura muito mais cedo do que esperavam. O problema é que arrastam, com eles, toda a humanidade!
Quanto à importância dos economistas, lá diz a blague que a sua importância para a economia é a mesma que a dos meteorologistas para a meteorologia.
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