terça-feira, 4 de julho de 2017

Do peido do Salvador às reações da populaça


As pessoas com a mesma energia que saudaram Salvador Sobral pelo seu inesperado, mas merecido sucesso na edição deste ano na Eurovisão, levando bem alto a música portuguesa reagiram em cardume, como devoradores tubarões, porque esta ingénua criatura, pouca dada a heroísmos instantâneos, disse, no concerto solidário com as vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande, “(...) sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece.”


O Salvador, em Kiev, como Éder, em Paris, ganharam, de um momento para o outro, como que caído do céu, o estatuto de vedetas. Éder está desaparecido. E Salvador diz o que disse, pese embora já tenha pedido desculpas: “Peço desculpa se ofendi alguém, sinceramente. Não era a minha intenção, nunca foi".


 


A propósito deste momento folclórico, escreveu, no  Público, João Miguel Tavares, : “Salvador Sobral, 27 anos, é um homem desconcertante e profundamente incomodado com a absurda fama que se abateu sobre ele, por causa de uma canção simples composta pela sua irmã.” E, sobretudo acrescenta: “Salvador não tem nada que pedir desculpa. Tem apenas de aprender, como Nietzsche há muito nos ensinou, a beber de um só trago as tempestades que é capaz de criar.”


Tavares está coberto de razão. Salvador tem idade para crescer e ter mais cuidado com tempestades. Tempestades que o Povo adora. Pedrogão Grande foi uma tragédia terrível, que ceifou vidas humanas – caso fosse só árvores era tão somente mais um fogo florestal. E o português adora isto. O português deve ser um povo bipolar: Vai da alegria suprema, as vitórias no Euro e na Eurovisão, à tragédia de Pedrogão, num pulo: abraçam-se na alegria como no luto com o mesmo entusiasmo. Gostam de sentir uns pobres coitados. E nesse limite acham que a piada mal-cheirosa de Salvador Sobral não teve graça. É claro que não teve. Ele só lá estava, no Meo Arena, porque é uma estrela instantânea. Só isso!

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