Estou pasmada com esta tomada de posse do Presidente da República. Doze horas de festa. O que é esta nova ordem nacional? Marcelo Rebelo de Sousa elevou a Presidência ao estatuto de Monarquia e ... de Papa.
"Um presidente de todos sem excepção" e "é preciso cicatrizar as feridas" são os lemas para fazer da tomada de posse uma festa nacional. (Foi por um triz que não foi decretado feriado).
Começou com a tradicional tomada de posse no Parlamento. Até aí tudo como sempre foi. Ou não? Não, Marcelo Rebelo de Sousa chega a pé ao Parlamento. É saudado pela Guarda de Honra e acompanhado pelo presidente da Assembleia da República ao interior do Parlamento. Até Junker veio assistir às cerimónias de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Sem dúvida Marcelo é one man show.
Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu a presença do Rei Filipe de Espanha e do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, na tomada de posse. Esteve também o presidente da República de Moçambique. Pode dizer-se que Marcelo é o mais próximo de um rei que agora temos. Na verdade Marcelo Rebelo de Sousa mais do que tomar posse como Presidente da República, foi proclamado Chefe de Estado. Se a Monarquia nos está vedada pela Constituição chegou-nos agora através do 20º Presidente da República. Marcelo é o Presidente-Rei com que muitos sonhavam.
"A Lei fundamental continua a ser o nosso denominador comum" e o Presidente da República tem o dever de a fazer cumprir. Marcelo no seu discurso pôs a tónica na defesa da Constituição.
Marcelo Rebelo de Sousa lembra que "temos de ser fieis aos compromissos a que nos vinculámos, nomeadamente, União Europeia, CPLP e Aliança Atlântica". Um claro recado para os partidos da "geringonça".
"Temos de sair deste clima de crise em que vivemos desde o início do século. Temos de cicatrizar feridas destes tão longos anos de sacrifícios", diz Marcelo.
O discurso de Marcelo, aqui na integra, aborda um tema que passou despercebido: o da banca. Apelou a que o "sistema financeiro previna em vez de remediar e não crie ostracismos ou dependências contrárias ao interesse nacional, política a ensaiar novas fórmulas, exigência de respostas mais claras, mais rápidas e mais equitativas". Contrárias ao interesse nacional? Será que se vai posicionar na defesa da banca portuguesa e não espanhola. Há uma vaga de fundo que vê neste apelo de Marcelo uma posição contra a integração dos bancos portugueses nas mãos de espanhóis.
Marcelo apelou aos consensos, tal como Cavaco que hoje deixou de ser Presidente. Os consensos são daquelas virtudes que escravizam. A ditadura dos consensos. Eu percebo a tentação de unir todos de mãos dadas, mas na prática a política dos consensos apenas cria uma ditadura do pensamento único, um sistema que se baseia na força dos alinhados. Cala os críticos de forma silenciosa.
Não deixa de ser irónico que no mesmo dia em que Marcelo organiza uma mega festa de homenagem ao fim das desigualdades sociais, "é preciso cicatrizar as feridas" é o seu lema, Jean Claude Juncker tenha validado o que o Comissário Europeu Moscovici já tinha dito: O governo português tem de apresentar um novo pacote de medidas até Abril, que podem passar por um aumento de impostos, principalmente no IVA para um valor acima dos 23%. No mesmo dia a Comissão Europeia emitiu uma avaliação que coloca o País "em situação de desequilíbrio excessivo". Portugal arrisca, no limite, ser alvo de sanções.
Depois da cerimónia no Parlamento, Marcelo foi aos Jerónimos para uma homenagem a Camões e Vasco da Gama nos Jerónimos e ofereceu um almoço em Belém para 30 convidados.
A tarde foi assinalada com uma cerimónia na Mesquita Central de Lisboa. O novo Presidente da República participou numa cerimónia inter-religiosa que juntou representantes de 18 confissões religiosas, o Cardeal Patriarca incluído. Recebido com coroa de flores, Marcelo assumiu-se defensor da liberdade religiosa. Não faltou uma referência aos "drama dos refugiados" - uma atitude muito "Papa Francisco". Marcelo disse então que "Portugal foi grande" sempre que se abriu ao outro e a outras culturas, civilizações e religiões. "Portugal será defensor da liberdade religiosa".
Depois a tradicional condecoração ao ex-Presidente Aníbal Cavaco Silva.
Na cerimónia memorável (uma festa digna da proclamação de um rei) saúda democraticamente os candidatos que com ele disputaram as eleições presidenciais.
O presidente dos afectos deixou uma mensagem aos Portugueses: Nós, portugueses, continuamos a minimizar o que valemos.E, no entanto, valemos muito mais do que pensamos ou dizemos.O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo. Ela nos fez como somos. Grandes no passado. Grandes no futuro. Por isso, aqui estamos.Por isso, aqui estou. Pelo Portugal de sempre!
Lá pelas oito horas da noite depois de Parlamento; Jerónimos; Mesquita; Palácio de Belém, Palácio da Ajuda, lá chega o Presidente à Câmara de Lisboa. Foi recebido por Fernando Medina. O Presidente-Rei sobe ao salão nobre e assoma à janela dos Paços do Concelho de onde assiste à entoação do hino nacional.
E na Praça do Municipio Mariza canta o hino nacional. Uma festa cheia de nacionalismo, fraternidade e saudosismo. Uma festa digna de um evento à altura da exposição dos anos 40 "O Mundo Português".
A maratona de 12 horas chega ao fim com música na Praça do Município. Na primeira fila do espectáculo Marcelo ladeado pelo Presidente da Câmara e por crianças de todas as raças, assiste a um concerto comemorativo da sua tomada de posse. A primeira artista a actuar é Mariza. Marcelo, rodeado por jovens, dá autografos.
Seguem-se vários artistas a actuar: Pedro Abrunhosa canta "vamos fazer o que ainda não foi feito"; José Cid; Anselmo Ralph fecha o concerto.
O país a ruir e Anselmo Ralph a cantar. Ao menos haja alegria. Viva la vida!
A partir de agora não vou estranhar se o Presidente da República aparecer de quando em vez no talk show, ou mesmo se se voltar sentar, por graça, no estúdio da TVI a comentar o país "por caturreira".
Estranha-se, mas depois entranha-se.
O que queres dizer com isto: "O país a ruir e Anselmo Ralph a cantar. Ao menos haja alegria. Viva la vida!"?
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