terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Católico e Maçon são compatíveis? (entrevista ao Bispo de Toulon)

 


Católico e maçon?


 


Uma contradição nos próprios termos


 


Dom Dominique Rey, bispo de Fréjus-Toulon, publicou, já em 2007, o livro "Pode-se ser cristão e maçon?". Onde afirma que a posição da Igreja sobre a questão não mudou. A revista "Valeurs actuelles" entrevistou-o


 


Poderia resumir a posição da Igreja?


A posição da Igreja, desde que a questão se pôs pela primeira vez, é que não é possível pertencer a uma loja maçónica e ao mesmo tempo professar a fé católica. A pertença à maçonaria é a adesão a um sistema de pensamento que se inscreve no relativismo, na negação do papel da graça de Deus na relação com o esforço do homem, num sistema que relativiza também o lugar da Igreja, e que pode ser definido como a exaltação de uma inteligência privada do amor. É uma nova forma de gnosticismo.


Mas não podemos distinguir diferentes tipos de maçonarias?


Há de fato maçonarias para quem a afirmação de Deus é absolutamente fundamental, numa forma de deísmo: mas, de que Deus estamos a falar? Nós, cristãos, falamos de Deus manifestado em Jesus Cristo, que se revela através do Magistério da Igreja. Deus não resulta apenas da subjectividade, mas manifestou-se como logos, isto é, como razão, como sabedoria.


E nele encontramos o critério supremo da inteligência, a explicação completa sobre o sentido da vida. A maçonaria, pelo contrário, está marcada pelo racionalismo: tudo o que não se justifica pela razão, não tem valor intrínseco; a fé é rapidamente relegada para o subjectivismo e, segundo alguns, para o obscurantismo. Isto significa que, na sua essência, para lá das suas variantes, a maçonaria é um princípio que lesa a doutrina da Igreja.


Para os maçons, a verdade é considerada insusceptível de ser conhecida; enquanto na fé católica ocupa o centro.


De facto, para os maçons, não há verdade absoluta. Tudo parte da inteligência do homem, da explicação de que o homem dá de si mesmo e do sentido das coisas. A vida já não é recebida; é construída. É ao homem que compete transformar o mundo através do conhecimento íntimo das leis do universo (é a visão do arquitecto), é o homem que se salva pela sua inteligência, ele não precisa de Deus. O recurso a Deus passa então a valer mais como uma emoção interior do que como uma graça; enquanto, para nós cristãos, é o principal alento para a nossa acção.


Mais concretamente, a Igreja acusa os maçons de estarem, muitas vezes, na vanguarda da legislação que contraria a moral natural.


Com efeito. Porque, como é ao homem que compete transformar o mundo, chegamos ao que se chama construtivismo, que actualmente encontramos numa série de teorias como a do gender (género). É a negação da natureza humana, que precisaria, pelo contrário, ser recebida, que se enraíza na biologia ou na natureza. Na visão maçónica, é o homem que é levado a auto-definir-se, a auto-construir-se. No plano prático, essa visão leva a uma moral que é, em última análise, muito auto-centrada, subjectivista.


No cristianismo, existe o respeito pela natureza. É a partir de Deus que se define a natureza humana: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Há uma relação na definição daquilo que somos, nós referimo-nos a um ser que nos precede e que nos fez surgir para a existência. E ao mesmo tempo, é na tomada de consciência dessa relação da nossa existência em referência Deus que nós encontramos um sinal daquilo a que a Igreja chama divinização. Não se trata de nos rebaixarmos, mas de nos situarmos na realidade de que Deus é Deus, para descobrir no rosto de Cristo aquele que nos faz subir à altura do rosto divino.


A Igreja também criticou, entre os maçons, a cultura do segredo.


Para nós, cristãos, Cristo é a luz do mundo; é a luz de Cristo, que revela os mistérios escondidos desde o início. Enquanto nas lojas, há um elitismo, com a iniciação, que recupera o sistema ritual cristão para desenvolver aquilo a que se chama gnose, a primazia do conhecimento e da sabedoria sobre a economia da salvação que é oferecida a todos. Há uma distinção muito fundamental: o princípio cristão é universal, a luz do único Cristo que ilumina e transforma o mundo inteiro, o cosmos, a História. Na visão cristã, o amor traz conhecimento, mas o conhecimento ajoelha-se diante da revelação sublime e suprema do amor de Deus.


Que respostas pode a Igreja dar para o desafio posto pela maçonaria?


Eu julgo que a Maçonaria desafia a Igreja em quatro pontos.


 Primeiro, a necessidade de criar grupos de reflexão, de pôr em acção a pastoral da inteligência.


 


 Segunda coisa, a ritualização: a dessacralização que podemos encontrar num ou noutro espaço eclesial, numa comunidade ou noutra, faz que se tenham procurado simbólicas alheias, que se tenham utilizado outras reservas simbólicas


 


 A terceira coisa é a fraternidade: a experiência de uma comunhão entre pessoas, não apenas na ordem da experiência espiritual, interior, mas uma reflexão construída e compartilhada por todos.


 


 Acrescentaria, ainda, a formação de uma elite: é preciso libertar-se do elitismo iniciático das lojas, que muitas vezes são também redes de influência, mas precisamos nos dias de hoje de formar uma elite verdadeiramente cristã, de pessoas que fazem uma autêntica experiência de Cristo e que nos seus talentos, competências e redes expressam uma mensagem que se pretende universal, onde os pequenos e os pobres têm um lugar central.


A última tomada de posição do Vaticano sobre este assunto data de 1983. Por-quê? Foi necessária por causa de uma certa ambiguidade posterior ao Concílio, em que alguns tenham chegado a pensar que a Igreja renunciara à ideia de uma verdade única, o que poderia levar a uma convergência com a maçonaria?


Sim, houve realmente uma teologia do mundo que nasceu sob a inspiração do Concílio, uma vontade de reencontrar o mundo a partir das suas aspirações mais profundas, onde se pudesse discernir a acção do Espírito. Teologia que é, ao que parece, justa, no sentido de que o mundo contém o rasto das "sementes do Verbo", para usar as palavras dos padres do Concílio.


Mas ao mesmo tempo temos de ser cautelosos - e é aí que eu acho que alguns interpretaram de maneira inadequada o Concílio – para não esquecermos que o mundo também é atravessado pelo espírito do mal.


Querendo reconciliar-se com o mundo, por vezes rendeu-se ao mundo. Iniciaram-se então alguns diálogos com a maçonaria, e uma série de coisas podiam ser positivas nestas tentativas ao mesmo tempo fraternas e intelectuais, mas sem ter suficientemente em conta a incompatibilidade entre a fé cristã e a essência da maçonaria.


A aproximação feita na década de 1970, precisamente na mesma altura em que algumas lojas trabalhavam para aprovar a legislação sobre o aborto, não era uma certa ingenuidade de alguns católicos?


Sim, com certeza. Houve na França, sobre questões que afectam a ética da vida, uma insuficiente reflexão e reacção da Igreja, que se envolveu muito na dimensão social. Nos Estados Unidos e em outros lugares, houve nessas questões maior discernimento e também a coragem de se distanciar de uma série de leis que começaram a ser implementadas, alertando para as transgressões antropológicas em causa. Em França isso aconteceu muito menos. Mas é verdade que, nas leis de bioética e nas que afectam o sentido da sexualidade, algumas lojas estavam a trabalhar de forma conscienciosa e determinada.


 

3 comentários:

  1. No século XIX todos os homens políticos e pessoas da alta sociedade eram maçons. Nesse tempo, como vem nos livros de história, havia, entre os maçons, padres, cardeais e ouros membros do clérigo...Pelo que pergunto: o que terá mudado para que a igreja tenha cerrado os dentes contra esta organização secreta? Aliás, terá sido a Opus Dei criada de forma a ser o seu antídoto?

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    1. Tem razão. Mas o facto de pessoas da Igreja terem pertencido à Maçonaria, nalgum momento da história não confirma qualquer compatibilidade entre a Igreja e a Maçonaria. São de facto incompatíveis na sua génese ideológica. Agora as pessoas, mesmo as da Igrejas, movem-se muitas vezes por poder e vaidade.
      A Opus Dei não tem nada a ver com a maçonaria. A Opus dei é uma prelatura, aberta e transparente, que acredita na beatificação pelo trabalho. Não é uma organização secreta, nem uma sociedade com uma hierarquia paralela. É um movimento da Igreja como há outros: os carismáticos, as comunidades neo-catecumenais, etc. A Opus Dei, porque tem muitas pessoas ricas e com lugares de destaque nas sociedades tende a ser envolvida em desconfiança, assim como no passado aconteceu com os jesuítas. Claro que não sendo maçonarias, nem existindo para ajudar os seus membros unidos por uma pacto de aliança, é muito provável que mesmo dentro da Opus Dei haja a tentação da cunha, que de resto existe numa qualquer associação. Como por exemplo nas desportivas: nos Clubes de futebol, de rugby, de vela, etc. Nas associações profissionais, nos grupos de amigos, tudo se presta à cunha, neste país pequeno. Isto só acaba com uma radical revolução de valores em que o mérito é soberano. Para isso é preciso uma brutal evolução cultural das elites do país. Para que se perca esta tentação da futilidade.

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