sexta-feira, 4 de março de 2011

Ideias sobre o 12 de Março


 


 


1|           Quando sou confrontado por mensagens de toda a espécie – desde o Facebook até a um corriqueiro e-mail, sobre a realização, em Lisboa e Porto, de manifestações de desagrado com a situação a que política chegou - com as quais estou genericamente de acordo - sinto-me dividido e confuso. Como é possível que um grupo de pessoas pugne por alterações na praxis política se habitualmente uma considerável parte destes se abstém de votar; delegando que outros que escolham por si? Porque se é certo que este movimento reflecte o sucesso das revoltas no mundo árabe onde efectivamente existe uma cultura ditatorial, em Portugal somos desde 1974 que somos um país democrático, como temos, inclusive, uma Constituição particularmente “generosa”? Outra interrogação que este movimento suscita está necessariamente ligada com a sua base ideológica. Em toda a informação que recebi esta é endereçada ao Povo. Falam em Povo! Mas, ao fim e ao cabo, que povo é este? Porque enquanto realidade social e mesmo semântica o Povo não é mais do que um simples substantivo colectivo, que, em rigor, não tem substância.


2|           Numa interpretação social o conceito de revolta – que se aplica, também, à ideia de revolução “tout court” - é estruturalmente esquerdista, i.e., porque pugna pelo progresso. Portanto, por pessoas não acomodadas, ou seja, ao invés do que naturalmente acontece com as forças pro-sistémicas ou conservadoras: com o “aparelho”[1]!


                Dito isto – porque a condição humana o justifica - ainda não se apercebeu quais são (serão) as forças que irão aproveitar a situação. No entanto, uma coisa é certa: os “abutres” estão-se a preparar (para levantar voo) para o que der e vier. Até porque, todos sabemos, na esteira do que dissemos sobre a “populaça”, a multidão em abstracto – em número versus em qualidade – é perfeitamente incapaz de estruturar o quer que seja!


3|           Desde as primeiras eleições livres até às recentes eleições presidenciais que a participação eleitoral tem diminuído. É preocupante o desinteresse demonstrado pelo cidadão eleitor em relação à “res pública”, à “coisa pública”, pelo que esta manifestação marcada para 12 de Março parece mais “um tiro nos pés” do que algo verdadeiramente substancial. Desde as primeiras eleições (como já referi) o cidadão eleitor tem o direito – e o dever também – de perante a oferta possível escolher o que (segundo ele) mais convém a Portugal. As elevadas abstenções legitimam o status quo de que estes são cúmplices. E nesta óptica – só nesta óptica – este movimento é extemporâneo, i.e., não sendo mais que uma forma diferente – seguramente democrática – de se passar uma tarde sábado!






[1] No quadro das diversas “geografias” políticas a qualidade ideológica varia conforme a circunstância. Por exemplo, na antiga URSS e países do leste europeu, os liberais eram uns terríveis esquerdistas porque eram contrários ao sistema vigente.




 

7 comentários:

  1. Olha António, gosto muito deste teu artigo. Eu também acho que esta manifesta�

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    Olha António, gosto muito deste teu artigo. Eu também acho que esta manifestação está out of time, porque agora já nada depende de nós, está já quase tudo nas mãos da Europa. O mal está feito.
    Em relação à esquerda ser dona do "progresso" estou totalmente em desacordo. Aliás a esquerda é boa é em desconservar, mas depois é a direita que constroi, progredindo, em cima dos destroços que a esquerda deixa. A direita progride na continuidade. É um progresso à gatto pardo. A esquerda vem sempre com umas ideias novas, muito pouco inteligentes e muito emotivas, muito superficiais, que normalmente vêm mais de um sentimento de opressão e de inferioridade do que de pensamentos visionários. Os visionários são quase sempre de direita.... salvo raras excepções que isto não há regras perfeitas quando se trata da natureza humana e da sua componente social. A meritocracia na realidade é uma ideia de direita... a esquerda quer igualar e não distinguir pessoas. A esquerda tem aquela mania de não criar privilegiados, e por isso tende a não reconhecer o mérito. Nesse aspecto Portugal é de esquerda.

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    1. O Problema português não é a Europa. Muito pelo contrario! O que seria de nós se ainda estivéssemos "orgulhosamente sós"?
      Concordo com a importância meritocracia, nomeadamente porque através dela iríamos, por exemplo, desenvolver a educação. No entanto, eu quando comparo direita e esquerda faço numa dimensão global - teórica - e não localizada. Ser direita na URSS é diferente do que ser direita em Portugal. Tem em si uma noção de conservação do poder, o que evidentemente não faz parte do património genético da esquerda. Por isto mesmo a esquerda é mais romântica do que a direita que é mais pragmática e realista.

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    2. ANTÓNIO A ESQUERDA NÃO É ROMANTICA! A esquerda é REALISTA e NEO-REALISTA! Essas são as correntes da esquerda. O romantismo é de direita! Please, isso é histórico. O sonho é da direita, porque na esquerda não há o sonho, há uma utopia que é o sonho colectivo. Vê Cuba por exemplo, ninguém pode aspirar individualmente a nada, o sonho é substituído pela utopia do colectivo.

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    3. Sabes quem é Hans Morgenthau? Tu provavelmente possas já ter ouvido falar nele. Eu, pelo contrário, tive que escrever sobre ele e tantos outros teóricos das relações internacionais. Este americano - nascido alemão - foi o pai da chamada teoria realista das relações internacionais que, ainda hoje, tem adeptos nas visões mais conservadoras da política internacional - com o respectivos upgrades - que basicamente está na base do pensamento de pessoas tão insuspeitas como Henry Kissinger ou George Bush. Ora que eu saiba estes representam a direita norte-americana, e no entanto são realistas. Eu próprio não sou de esquerda - nem sou da direita clássica, pois (em bom rigor) sinto-me bem no centro - gosto de ter os pés assentes no chão, e para mim isso chama-se ser realista. Até tu, Maria, eu achava-te realista e pragmática...mas estou disposto mudar de opinião. És romântica e ponto final!

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    4. para ser coerente, nas RI quem eu gostava mesmo era de Raymond Aron. [http://pt.wikipedia.org/wiki/Raymond_Aron]

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