quinta-feira, 2 de abril de 2015

Tudo é literatura

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Se há uma coisa que gostava em Manoel de Oliveira é do elogio que o cinema dele faz à literatura. A relação com a palavra literária é vital no universo de Manoel de Oliveira. Daí a forte relação com Agustina Bessa Luís, de quem gostava como amiga e escritora.


Chegou a dizer que gostava de realizar a última obra de Agustina, A Ronda da Noite. «Gostava de fazer esse em homenagem à Agustina Bessa-Luís, que é uma grande escritora». Morreu sem conseguir cumprir esse desejo.












Mas já lhe prestou muitas homenagens, já fez outros filmes baseados na obra dela. Essa sua ligação à Agustina, o que é? [pergunta-se o DN] «A Agustina é uma pessoa que me faz bastante falta. Faz muita falta à literatura portuguesa».


Mas faz mais falta à cultura portuguesa ou a si, como amiga? [pergunta-lhe o DN] «Faz mais falta à literatura portuguesa, à literatura universal. Porque um artista faz sempre parte desse conjunto, não está limitado a si próprio, está ligado ao mundo e à história. Isso é importante. Se fizesse esse... porque gosto muito de A Ronda da Noite, porque é um quadro que o pintor apresentou à corte e a corte figurava nele, n'A Ronda da Noite, e foi pessimamente recebido. Foi troçado. E ele ficou desgostosíssimo e depois voltou para casa. E no dia seguinte, ao pequeno-almoço, falava com os discípulos e dizia-lhes: "É terrível, não é? Porque o militar tem a sua glória na vitória, o comerciante tem a sua glória nos lucros, e o artista, onde é que tem a sua glória? Já a perdi. A sua glória, verdadeiramente, é morrer pobre." Ele fingiu-se de pobre, o Rembrandt, fez-se triste, precisava, e não lhe ligavam nenhuma. Mas depois fez-se um pobre alegre, brincalhão, e então toda a gente achava graça e ajudava-o!»


 


Perguntam vocês: porque raio se escolhe uma fotografia destas para ilustrar este tema?


Para mim tudo é literatura. O jornalismo só é bom se tiver uma boa dose de literatura. Claro que pode haver jornalismo sem literatura, mas para dar aquele salto para a genialidade tem de ser literatura. Quem viu no jornalismo nada mais do que marketing, pessoal ou colectivo, não levou os jornais a sério, nem elevou o jornalismo à categoria de alta qualidade. Falhou redondamente. Porque apenas a qualidade resiste ao tempo e às adversidades.


Com o cinema também acontece a mesma coisa. Precisa da literatura para atingir a genialidade. Woody Allen, nos seus melhores filmes, era literatura. François Truffaut era literatura. Entre outros. Por exemplo, porque é que o Birdman ganhou o óscar de melhor filme? Porque é literatura.


Tudo é literatura. A negação das evidências é literatura (daí a foto que ilustra este post).


As nossas vidas têm de ser lugares de beleza [Bento XVI]. Pois se nem todos podemos ser escritores sejamos literatura. Como diria um célebre actor If you cannot be a poet, be the poem.


 












 

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