quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Meritocracia moral


Numa conversa com o António Canavarro por mensagem via caixa do Facebook (é o que dá viveres em Santarém e nunca nos encontrarmos pessoalmente hoje em dia) a propósito do Papa Francisco, cheguei ao conceito de meritocracia moral. Refiro-me ao mérito de escolher o bem, de escolher a vida, de escolher a generosidade como dom do coração. O mérito de deixar o amor entrar em nós de modo puro. O que exige que sejamos crédulos e a ter uma certa ingenuidade por princípio. Não nos deixarmos dominar pelas desconfianças, pela soberba, pela inveja, não deixarmos que o moralismo e os seus rígidos conceitos de bem e mal nos oxidem o coração. É preciso ser duro com o mal mas ter o coração aberto para reconhecer o amor quando nos deparamos com ele. Procurar aquele refúgio do coração dos outros que não tem defesas e nos deixa entrar. Às vezes, para isso acontecer, é preciso a tragédia, a guerra, a perda para deixarmos cair as barreiras intelectuais que acumulamos ao longo de uma vida de moralidade sedentária. Quando corre tudo bem não sentimos nada e por isso conceituamos o amor. Travestimos o amor em aliança contratual, numa "win-win situation". O amor passa a estar naquele plano da racionalidade que cria a justiça, que define o bem e o mal como um conjunto de normas estatutárias e não como instinto. O instinto esse pequeno tesouro deixado aos Homens por Deus. 


É preciso estar distraído das vantagens do outro para as nossas necessidades, para o amarmos. É preciso olhar para o outro como se não soubéssemos nada sobre ele para o vemos como ele realmente é, para descobrirmos esse admirável mundo novo que é o coração do outro. 

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