quinta-feira, 1 de abril de 2010

Jogar xadrez com a morte


Não sou a melhor pessoa para escrever sobre Ingmar Bergman, porque, por falha minha, não consigo amar os seus filmes. Mas amo os conceitos desses filmes, e a arte neles:
Em sétimo selo, (Det Sjunde Inseglet, 1956), a morte é um inteligente estratega que desafia a vida a evitá-la.
A parábola do cavaleiro medieval que está a jogar xadrez com a morte e está a perder, remete-nos para a vitória da pulsão das forças destruitivas.
Sétimo selo, é uma metáfora à visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse (Bíblia, Antigo Testamento, muito importante para os cristãos protestantes). O que representam os 7 selos do Apocalipse? Profetizam as características básicas dos 7 períodos que a igreja viveria desde sua fundação até a segunda vinda de Jesus, descrita na última parte do sexto selo. Os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os quatro períodos da igreja cristã e os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O primeiro seria um grande líder que conquistaria grande poder e autoridade (motivo pelo qual muitos o identificam como o AntiCristo ou o próprio Cristo), o segundo significaria uma "guerra mundial" entre o homem representado pelo primeiro cavaleiro e aqueles que não aceitariam a sua dominação, o terceiro seria a "fome" ou racionamento de alimentos, causada por estes se tornarem raros com a guerra, e o quarto seria uma grande crise de mortalidade, como uma consequência dos cavaleiros anteriores. Os quatro cavaleiros representariam os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O ultimo cavaleiro seria a "morte espiritual", causada pela propagação de falsas doutrinas e religiões que substituiriam o verdadeiro cristianismo (muitos considerando que tal período se iniciaria com a Reforma protestante e seguiria até o "fim dos tempos").
No livro do Apocalipse de João, o sétimo selo revela sete anjos que receberão sete trombetas que, quando sopradas, uma por vez, iniciarão cataclismas que prenunciarão a derrocada da humanidade.

Freud e a luta entre a pulsão da vida contra a pulsão da morte, esta está a ganhar

Vou aqui publicar um bom artigo de um homem ideológicamente distante de mim, Manuel Maria Carrilho (sobre Freud e Keynes)

A cupidez
por MANUEL MARIA CARRILHO

Os estereótipos são aquelas coisas que, com as intenções mais diversas, toda a gente diz sem saber bem o que está a dizer. São eles que frequentemente reduzem personagens extraordinárias a uma simples fórmula, que se cola a um aspecto, a uma faceta da sua vida.
Com Keynes, a fórmula que ficou foi a da associação do seu nome ao intervencionismo do Estado. Não me surpreendeu por isso o espanto de tantos, quando há semanas aqui falei da fortíssima ligação de Keynes com a cultura, tanto no plano da criação como da sua difusão, e que o levou a fundar e dirigir o Arts Council - em acumulação, note-se, com a direcção do Bank of England!
Hoje vou talvez espantar um pouco mais esses leitores, com um outro aspecto da obra de Keynes: o da sua proximidade com a psicanálise e as ideias do seu criador, Sigmund Freud, sobre as quais ele chegou mesmo a escrever.
Em 1930, um ano depois do colapso bolsista, Freud e Keynes editaram dois textos singulares: Freud publica o Mal-estar na Cultura, e Keynes lança As Perspectivas Económicas para os Nossos Netos. São reflexões sobre a evolução da sociedade, num momento que era então de generalizada perplexidade.
Freud expõe a sua visão sombria sobre a evolução do mundo, alicerçada na ideia de que a civilização contém no seu próprio interior, a par com a força (a pulsão, como ele a designa) de vida que lhe deu forma, uma outra força, de natureza autodestruidora, a pulsão de morte. Para Freud, a luta entre elas é, na história da humanidade, tão constante como inconsciente. A novidade é que o resultado dessa luta se tornou cada vez mais favorável às forças autodestrutivas, obsessivamente orientadas para o domínio da natureza e para a acumulação de bens.
A visão que Keynes expõe então era mais optimista do que a de Freud, sobretudo porque a sua opção foi olhar para o longo prazo (para o tempo dos seus netos), apostando que a humanidade conseguiria resolver, como disse, o "problema económico". A utopia keynesiana antecipava então, no prazo de cer- ca de um século, o fim das lutas de classes e dos conflitos entre nações e esboçava um mundo em que a humanidade se libertaria da escassez e das preocupações materiais des-de que se dotasse da "organização adequada" - os economistas, dizia, poderiam mesmo vir a não ter mais relevância do que os dentistas…
Mas, apesar do contraste que decorre destas visões - e que, no essencial, definem uma polarização que continua a alimentar muitas controvérsias actuais -, Freud e Keynes partilharam várias ideias. Uma dessas convergências encontra-se no modo como pensaram o dinheiro, a moeda, na sua ligação com a psicologia individual e a natureza do mercado.
É que a moeda não é para Keynes, ao contrário do que pensavam e pensam muitos economistas, um instrumento neutro destinado a facilitar a troca. Não, a moeda é uma invenção que remete para a dinâmica das pulsões mais inconscientes da humanidade, que interfere com a ansiedade humana (acalmando-a ou intensificando-a), dá um valor ao tempo, despersonaliza as relações sociais, torna a dívida abstracta e permite - como disse G. Simmel - que os homens possam deixar de se olhar nos olhos uns dos outros.
E é na cupidez, no amor irracional do dinheiro, que Keynes vê o motor do capitalismo. E como Freud tinha recorrido a Thanatos para explicar a pulsão de autodestruição, Keynes recorre a Midas para explicar o modo como o dinheiro se pode tornar, de intermediário da troca, na finalidade última da actividade humana: "Auri sacra fames!…"
Na sua Teoria Geral, Keynes fará referência explícita a Freud (e a outros psicanalistas, como Ferenczi e Jones) para sublinhar a pertinência das suas análises sobre a relação do dinheiro com certos episódios do desenvolvimento infantil, uma das mais controversas teses do criador da psicanálise. E mais claro ainda é o modo como subscreve a hipótese freudiana da ligação da civilização à sublimação das pulsões humanas mais básicas. Quadro em que a cupidez lhe aparece como um catalisador fundamental da libido individual, seja no sentido da abstinência e da poupança, seja no da fruição e do consumo.
Claro que estas opções, mais do que individuais, são eminentemente colectivas - e também aqui Keynes se revela um bom leitor de Freud: se a influência social se faz sobretudo por contágio, a imitação sobrepõe-se à racionalidade e o mercado corre amiúde o risco de se enganar. J. Stiglitz não diz hoje outra coisa, quando fala da finança contemporânea.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Jogar xadrez com a morte


Não sou a melhor pessoa para escrever sobre Ingmar Bergman, porque, por falha minha, não consigo amar os seus filmes. Mas amo os conceitos desses filmes, e a arte neles:
Em sétimo selo, (Det Sjunde Inseglet, 1956), a morte é um inteligente estratega que desafia a vida a evitá-la.
A parábola do cavaleiro medieval que está a jogar xadrez com a morte e está a perder, remete-nos para a vitória da pulsão das forças destruitivas.
Sétimo selo, é uma metáfora à visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse (Bíblia, Antigo Testamento, muito importante para os cristãos protestantes). O que representam os 7 selos do Apocalipse? Profetizam as características básicas dos 7 períodos que a igreja viveria desde sua fundação até a segunda vinda de Jesus, descrita na última parte do sexto selo. Os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os quatro períodos da igreja cristã e os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O primeiro seria um grande líder que conquistaria grande poder e autoridade (motivo pelo qual muitos o identificam como o AntiCristo ou o próprio Cristo), o segundo significaria uma "guerra mundial" entre o homem representado pelo primeiro cavaleiro e aqueles que não aceitariam a sua dominação, o terceiro seria a "fome" ou racionamento de alimentos, causada por estes se tornarem raros com a guerra, e o quarto seria uma grande crise de mortalidade, como uma consequência dos cavaleiros anteriores. Os quatro cavaleiros representariam os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O ultimo cavaleiro seria a "morte espiritual", causada pela propagação de falsas doutrinas e religiões que substituiriam o verdadeiro cristianismo (muitos considerando que tal período se iniciaria com a Reforma protestante e seguiria até o "fim dos tempos").
No livro do Apocalipse de João, o sétimo selo revela sete anjos que receberão sete trombetas que, quando sopradas, uma por vez, iniciarão cataclismas que prenunciarão a derrocada da humanidade.

Jogar xadrez com a morte


Não sou a melhor pessoa para escrever sobre Ingmar Bergman, porque, por falha minha, não consigo amar os seus filmes. Mas amo os conceitos desses filmes, e a arte neles:
Em sétimo selo, (Det Sjunde Inseglet, 1956), a morte é um inteligente estratega que desafia a vida a evitá-la.
A parábola do cavaleiro medieval que está a jogar xadrez com a morte e está a perder, remete-nos para a vitória da pulsão das forças destruitivas.
Sétimo selo, é uma metáfora à visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse (Bíblia, Antigo Testamento, muito importante para os cristãos protestantes). O que representam os 7 selos do Apocalipse? Profetizam as características básicas dos 7 períodos que a igreja viveria desde sua fundação até a segunda vinda de Jesus, descrita na última parte do sexto selo. Os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os quatro períodos da igreja cristã e os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O primeiro seria um grande líder que conquistaria grande poder e autoridade (motivo pelo qual muitos o identificam como o AntiCristo ou o próprio Cristo), o segundo significaria uma "guerra mundial" entre o homem representado pelo primeiro cavaleiro e aqueles que não aceitariam a sua dominação, o terceiro seria a "fome" ou racionamento de alimentos, causada por estes se tornarem raros com a guerra, e o quarto seria uma grande crise de mortalidade, como uma consequência dos cavaleiros anteriores. Os quatro cavaleiros representariam os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O ultimo cavaleiro seria a "morte espiritual", causada pela propagação de falsas doutrinas e religiões que substituiriam o verdadeiro cristianismo (muitos considerando que tal período se iniciaria com a Reforma protestante e seguiria até o "fim dos tempos").
No livro do Apocalipse de João, o sétimo selo revela sete anjos que receberão sete trombetas que, quando sopradas, uma por vez, iniciarão cataclismas que prenunciarão a derrocada da humanidade.

Freud e a luta entre a pulsão da vida contra a pulsão da morte, esta está a ganhar

Vou aqui publicar um bom artigo de um homem ideológicamente distante de mim, Manuel Maria Carrilho (sobre Freud e Keynes)

A cupidez
por MANUEL MARIA CARRILHO

Os estereótipos são aquelas coisas que, com as intenções mais diversas, toda a gente diz sem saber bem o que está a dizer. São eles que frequentemente reduzem personagens extraordinárias a uma simples fórmula, que se cola a um aspecto, a uma faceta da sua vida.
Com Keynes, a fórmula que ficou foi a da associação do seu nome ao intervencionismo do Estado. Não me surpreendeu por isso o espanto de tantos, quando há semanas aqui falei da fortíssima ligação de Keynes com a cultura, tanto no plano da criação como da sua difusão, e que o levou a fundar e dirigir o Arts Council - em acumulação, note-se, com a direcção do Bank of England!
Hoje vou talvez espantar um pouco mais esses leitores, com um outro aspecto da obra de Keynes: o da sua proximidade com a psicanálise e as ideias do seu criador, Sigmund Freud, sobre as quais ele chegou mesmo a escrever.
Em 1930, um ano depois do colapso bolsista, Freud e Keynes editaram dois textos singulares: Freud publica o Mal-estar na Cultura, e Keynes lança As Perspectivas Económicas para os Nossos Netos. São reflexões sobre a evolução da sociedade, num momento que era então de generalizada perplexidade.
Freud expõe a sua visão sombria sobre a evolução do mundo, alicerçada na ideia de que a civilização contém no seu próprio interior, a par com a força (a pulsão, como ele a designa) de vida que lhe deu forma, uma outra força, de natureza autodestruidora, a pulsão de morte. Para Freud, a luta entre elas é, na história da humanidade, tão constante como inconsciente. A novidade é que o resultado dessa luta se tornou cada vez mais favorável às forças autodestrutivas, obsessivamente orientadas para o domínio da natureza e para a acumulação de bens.
A visão que Keynes expõe então era mais optimista do que a de Freud, sobretudo porque a sua opção foi olhar para o longo prazo (para o tempo dos seus netos), apostando que a humanidade conseguiria resolver, como disse, o "problema económico". A utopia keynesiana antecipava então, no prazo de cer- ca de um século, o fim das lutas de classes e dos conflitos entre nações e esboçava um mundo em que a humanidade se libertaria da escassez e das preocupações materiais des-de que se dotasse da "organização adequada" - os economistas, dizia, poderiam mesmo vir a não ter mais relevância do que os dentistas…
Mas, apesar do contraste que decorre destas visões - e que, no essencial, definem uma polarização que continua a alimentar muitas controvérsias actuais -, Freud e Keynes partilharam várias ideias. Uma dessas convergências encontra-se no modo como pensaram o dinheiro, a moeda, na sua ligação com a psicologia individual e a natureza do mercado.
É que a moeda não é para Keynes, ao contrário do que pensavam e pensam muitos economistas, um instrumento neutro destinado a facilitar a troca. Não, a moeda é uma invenção que remete para a dinâmica das pulsões mais inconscientes da humanidade, que interfere com a ansiedade humana (acalmando-a ou intensificando-a), dá um valor ao tempo, despersonaliza as relações sociais, torna a dívida abstracta e permite - como disse G. Simmel - que os homens possam deixar de se olhar nos olhos uns dos outros.
E é na cupidez, no amor irracional do dinheiro, que Keynes vê o motor do capitalismo. E como Freud tinha recorrido a Thanatos para explicar a pulsão de autodestruição, Keynes recorre a Midas para explicar o modo como o dinheiro se pode tornar, de intermediário da troca, na finalidade última da actividade humana: "Auri sacra fames!…"
Na sua Teoria Geral, Keynes fará referência explícita a Freud (e a outros psicanalistas, como Ferenczi e Jones) para sublinhar a pertinência das suas análises sobre a relação do dinheiro com certos episódios do desenvolvimento infantil, uma das mais controversas teses do criador da psicanálise. E mais claro ainda é o modo como subscreve a hipótese freudiana da ligação da civilização à sublimação das pulsões humanas mais básicas. Quadro em que a cupidez lhe aparece como um catalisador fundamental da libido individual, seja no sentido da abstinência e da poupança, seja no da fruição e do consumo.
Claro que estas opções, mais do que individuais, são eminentemente colectivas - e também aqui Keynes se revela um bom leitor de Freud: se a influência social se faz sobretudo por contágio, a imitação sobrepõe-se à racionalidade e o mercado corre amiúde o risco de se enganar. J. Stiglitz não diz hoje outra coisa, quando fala da finança contemporânea.

Freud e a luta entre a pulsão da vida contra a pulsão da morte, esta está a ganhar

Vou aqui publicar um bom artigo de um homem ideológicamente distante de mim, Manuel Maria Carrilho (sobre Freud e Keynes)

A cupidez
por MANUEL MARIA CARRILHO

Os estereótipos são aquelas coisas que, com as intenções mais diversas, toda a gente diz sem saber bem o que está a dizer. São eles que frequentemente reduzem personagens extraordinárias a uma simples fórmula, que se cola a um aspecto, a uma faceta da sua vida.
Com Keynes, a fórmula que ficou foi a da associação do seu nome ao intervencionismo do Estado. Não me surpreendeu por isso o espanto de tantos, quando há semanas aqui falei da fortíssima ligação de Keynes com a cultura, tanto no plano da criação como da sua difusão, e que o levou a fundar e dirigir o Arts Council - em acumulação, note-se, com a direcção do Bank of England!
Hoje vou talvez espantar um pouco mais esses leitores, com um outro aspecto da obra de Keynes: o da sua proximidade com a psicanálise e as ideias do seu criador, Sigmund Freud, sobre as quais ele chegou mesmo a escrever.
Em 1930, um ano depois do colapso bolsista, Freud e Keynes editaram dois textos singulares: Freud publica o Mal-estar na Cultura, e Keynes lança As Perspectivas Económicas para os Nossos Netos. São reflexões sobre a evolução da sociedade, num momento que era então de generalizada perplexidade.
Freud expõe a sua visão sombria sobre a evolução do mundo, alicerçada na ideia de que a civilização contém no seu próprio interior, a par com a força (a pulsão, como ele a designa) de vida que lhe deu forma, uma outra força, de natureza autodestruidora, a pulsão de morte. Para Freud, a luta entre elas é, na história da humanidade, tão constante como inconsciente. A novidade é que o resultado dessa luta se tornou cada vez mais favorável às forças autodestrutivas, obsessivamente orientadas para o domínio da natureza e para a acumulação de bens.
A visão que Keynes expõe então era mais optimista do que a de Freud, sobretudo porque a sua opção foi olhar para o longo prazo (para o tempo dos seus netos), apostando que a humanidade conseguiria resolver, como disse, o "problema económico". A utopia keynesiana antecipava então, no prazo de cer- ca de um século, o fim das lutas de classes e dos conflitos entre nações e esboçava um mundo em que a humanidade se libertaria da escassez e das preocupações materiais des-de que se dotasse da "organização adequada" - os economistas, dizia, poderiam mesmo vir a não ter mais relevância do que os dentistas…
Mas, apesar do contraste que decorre destas visões - e que, no essencial, definem uma polarização que continua a alimentar muitas controvérsias actuais -, Freud e Keynes partilharam várias ideias. Uma dessas convergências encontra-se no modo como pensaram o dinheiro, a moeda, na sua ligação com a psicologia individual e a natureza do mercado.
É que a moeda não é para Keynes, ao contrário do que pensavam e pensam muitos economistas, um instrumento neutro destinado a facilitar a troca. Não, a moeda é uma invenção que remete para a dinâmica das pulsões mais inconscientes da humanidade, que interfere com a ansiedade humana (acalmando-a ou intensificando-a), dá um valor ao tempo, despersonaliza as relações sociais, torna a dívida abstracta e permite - como disse G. Simmel - que os homens possam deixar de se olhar nos olhos uns dos outros.
E é na cupidez, no amor irracional do dinheiro, que Keynes vê o motor do capitalismo. E como Freud tinha recorrido a Thanatos para explicar a pulsão de autodestruição, Keynes recorre a Midas para explicar o modo como o dinheiro se pode tornar, de intermediário da troca, na finalidade última da actividade humana: "Auri sacra fames!…"
Na sua Teoria Geral, Keynes fará referência explícita a Freud (e a outros psicanalistas, como Ferenczi e Jones) para sublinhar a pertinência das suas análises sobre a relação do dinheiro com certos episódios do desenvolvimento infantil, uma das mais controversas teses do criador da psicanálise. E mais claro ainda é o modo como subscreve a hipótese freudiana da ligação da civilização à sublimação das pulsões humanas mais básicas. Quadro em que a cupidez lhe aparece como um catalisador fundamental da libido individual, seja no sentido da abstinência e da poupança, seja no da fruição e do consumo.
Claro que estas opções, mais do que individuais, são eminentemente colectivas - e também aqui Keynes se revela um bom leitor de Freud: se a influência social se faz sobretudo por contágio, a imitação sobrepõe-se à racionalidade e o mercado corre amiúde o risco de se enganar. J. Stiglitz não diz hoje outra coisa, quando fala da finança contemporânea.

terça-feira, 30 de março de 2010

André Villas-Boas afinal não vai para o Sporting....




André Villas-Boas