quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pedro Mexia dixit

Noutra sua crónica na revista Ler deste mês (Março) Pedro Mexia, a propósito de uma sátira ao mau livro de um tal de Joaquim Quintino Aires "O Amor não se aprende na escola), diz "Há uma certa sofisticação em enganar pessoas com tautologias. Mas faz parte desta nova psicologia ad hoc e ad lib". Gostei muito desta verdade simples.
Para quem não sabe, o livro de que fala Mexia é uma espécie de manual de instruções do sexo e do amor (ambos separados para análise pelo o psicoterapeuta Quintino), que serve bem a donas de casa que vejam as manhãs da TVI, leiam a Flash e a TV Mais.

Pedro Mexia dixit

Noutra sua crónica na revista Ler deste mês (Março) Pedro Mexia, a propósito de uma sátira ao mau livro de um tal de Joaquim Quintino Aires "O Amor não se aprende na escola), diz "Há uma certa sofisticação em enganar pessoas com tautologias. Mas faz parte desta nova psicologia ad hoc e ad lib". Gostei muito desta verdade simples.
Para quem não sabe, o livro de que fala Mexia é uma espécie de manual de instruções do sexo e do amor (ambos separados para análise pelo o psicoterapeuta Quintino), que serve bem a donas de casa que vejam as manhãs da TVI, leiam a Flash e a TV Mais.

Sakharov de Portimão (Pedro Mexia)


Transcrevo aqui as partes essenciais da divertida e sábia crónica de Pedro Mexia na revista Ler de Fevereiro:

"O Sakharov de Portimão"

Faço parte de um pequeno grupo que se reúne às quintas-feiras numa cave em Algés e que não possui qualquer opinião sobre os processos judiciais em curso. Sabemos que se trata de uma actividade socialmente minoritária e condenada, e por isso juntámos-nos em segredo, como os primeiros cristãos.
Cá fora toda a gente opina. Toda a gentes sabe. Não há cafés, quiosque ou autocarro onde subsistam dúvidas sobre a culpabilidade de autarcas, banqueiros, pedófilos. Portugal tornou-se numa república da opinião. Não da opinião publicada , mas da opinião de rua. Não é o comentador televisivo que dita a opinião geral, são o taxista e a porteira.
No caso do desaparecimento de uma menina inglesa no Algarve, a opinião das porteiras dos taxas flutuou. Primeiro, toda a simpatia foi para os pais da criança, que atravessavam o maior sofrimento de que uma pessoa pode experimentar: depois, vieram as dúvidas. Finalmente a onda virou, e os MacCann, tratados com desprezo como os «ingleses», já eram culpados, de desleixo certamente, de ocultação provavelmente e talvez de homicidio da própria filha.
Houve duas pessoas que contribuiram para esta mudança. Dois ex-inspectores, Gonçalo Amaral e Francisco Moita Flores. Estes membros do CSI Portimão e do CSI Santarém desmultiplicaram-se em aparições públicas sugerindo que os culpados eram os ingleses. Não só o casal, mas a imprensa inglesa, os advogados ingleses, os jornais ingleses e os políticos ingleses. Como dizia a versão original do nosso hino: contras os bretões marchar, marchar.
(...)
Segundo Amaral há fortes indícios de que os MaCann eram culpados, e se o juíz arquivou o caso, isso não significa nada. (...) os pais da criança não gostaram e interpuseram uma providência cautelar que impedisse a circulação de ambos os panfletos. É a essa proibição que se refer o opus 2 de Amaral: "a Mordaça Inglesa". O livro é uma espécie de revisitação do 'Ultimatum' . Os bretões são poderosos e asquerosos, nós vergamo-nos à sua influência, e isso é inaceitável. Amaral que foi comunista durante anos até se filiar nos laranjinhas, diz nos que os MacCann pertencem às classes «privilegiadas», donde se conclui que talvez devessem ser julgados por um júri popular composto por porteiras e taxistas.
Depois, Gonçalo Amaral queixa-se da «censura». Conta-nos «onde estava no 25 de Abril», faz uma história abreviada da liberdade de expressão, clama pelo «direito à indignação» e diz que foi «amordaçado». Por momentos parece uma autobiografia de Manuel Alegre. E compara-se a Sakhrov, um homem que diga-se de passagem, se antecipou umas décadas à perspicácia de Amaral acerca da bondade do comunismo.
O terceiro ponto é o mais estapafúrdio. Segundo Amaral não havia razões para que o livro fosse retirado de circulação porque constituía apenas uma «opinião» (além disso, acrescenta, a providência cautelar é um instituto burguês). A tese de que os pais fizeram desaparecer ou ocultaram o cadáver da sua filha é apenas isso, uma opinião: «Uma opinião não é um insulto, uma afronta ultrajante. É, isso sim, um modo de ver as coisas que, para ser livremente julgado não tem que estar correcto. E em regra não está. De outro modo, todos os homens estariam unidos nas suas opiniões.» Tudo, para Amaral, são opiniões: as teses dele, a sentença do juiz, o próprio Código Penal. Mas será que alguém pode fazer acusações tão graves a coberto do direito de opinião? Gonçalo Amaral, o Shakarov de Portimão responde: «e a minha tese pode estar correcta ou incorrecta? Quem sabe?» E se estiver incorrecta? Gonçalo Amaral diz: bem, nesse caso «lamento». Ah, então está bem.


A inteligência é um posto.

Sakharov de Portimão (Pedro Mexia)


Transcrevo aqui as partes essenciais da divertida e sábia crónica de Pedro Mexia na revista Ler de Fevereiro:

"O Sakharov de Portimão"

Faço parte de um pequeno grupo que se reúne às quintas-feiras numa cave em Algés e que não possui qualquer opinião sobre os processos judiciais em curso. Sabemos que se trata de uma actividade socialmente minoritária e condenada, e por isso juntámos-nos em segredo, como os primeiros cristãos.
Cá fora toda a gente opina. Toda a gentes sabe. Não há cafés, quiosque ou autocarro onde subsistam dúvidas sobre a culpabilidade de autarcas, banqueiros, pedófilos. Portugal tornou-se numa república da opinião. Não da opinião publicada , mas da opinião de rua. Não é o comentador televisivo que dita a opinião geral, são o taxista e a porteira.
No caso do desaparecimento de uma menina inglesa no Algarve, a opinião das porteiras dos taxas flutuou. Primeiro, toda a simpatia foi para os pais da criança, que atravessavam o maior sofrimento de que uma pessoa pode experimentar: depois, vieram as dúvidas. Finalmente a onda virou, e os MacCann, tratados com desprezo como os «ingleses», já eram culpados, de desleixo certamente, de ocultação provavelmente e talvez de homicidio da própria filha.
Houve duas pessoas que contribuiram para esta mudança. Dois ex-inspectores, Gonçalo Amaral e Francisco Moita Flores. Estes membros do CSI Portimão e do CSI Santarém desmultiplicaram-se em aparições públicas sugerindo que os culpados eram os ingleses. Não só o casal, mas a imprensa inglesa, os advogados ingleses, os jornais ingleses e os políticos ingleses. Como dizia a versão original do nosso hino: contras os bretões marchar, marchar.
(...)
Segundo Amaral há fortes indícios de que os MaCann eram culpados, e se o juíz arquivou o caso, isso não significa nada. (...) os pais da criança não gostaram e interpuseram uma providência cautelar que impedisse a circulação de ambos os panfletos. É a essa proibição que se refer o opus 2 de Amaral: "a Mordaça Inglesa". O livro é uma espécie de revisitação do 'Ultimatum' . Os bretões são poderosos e asquerosos, nós vergamo-nos à sua influência, e isso é inaceitável. Amaral que foi comunista durante anos até se filiar nos laranjinhas, diz nos que os MacCann pertencem às classes «privilegiadas», donde se conclui que talvez devessem ser julgados por um júri popular composto por porteiras e taxistas.
Depois, Gonçalo Amaral queixa-se da «censura». Conta-nos «onde estava no 25 de Abril», faz uma história abreviada da liberdade de expressão, clama pelo «direito à indignação» e diz que foi «amordaçado». Por momentos parece uma autobiografia de Manuel Alegre. E compara-se a Sakhrov, um homem que diga-se de passagem, se antecipou umas décadas à perspicácia de Amaral acerca da bondade do comunismo.
O terceiro ponto é o mais estapafúrdio. Segundo Amaral não havia razões para que o livro fosse retirado de circulação porque constituía apenas uma «opinião» (além disso, acrescenta, a providência cautelar é um instituto burguês). A tese de que os pais fizeram desaparecer ou ocultaram o cadáver da sua filha é apenas isso, uma opinião: «Uma opinião não é um insulto, uma afronta ultrajante. É, isso sim, um modo de ver as coisas que, para ser livremente julgado não tem que estar correcto. E em regra não está. De outro modo, todos os homens estariam unidos nas suas opiniões.» Tudo, para Amaral, são opiniões: as teses dele, a sentença do juiz, o próprio Código Penal. Mas será que alguém pode fazer acusações tão graves a coberto do direito de opinião? Gonçalo Amaral, o Shakarov de Portimão responde: «e a minha tese pode estar correcta ou incorrecta? Quem sabe?» E se estiver incorrecta? Gonçalo Amaral diz: bem, nesse caso «lamento». Ah, então está bem.


A inteligência é um posto.

Jogar xadrez com a morte


Não sou a melhor pessoa para escrever sobre Ingmar Bergman, porque, por falha minha, não consigo amar os seus filmes. Mas amo os conceitos desses filmes, e a arte neles:
Em sétimo selo, (Det Sjunde Inseglet, 1956), a morte é um inteligente estratega que desafia a vida a evitá-la.
A parábola do cavaleiro medieval que está a jogar xadrez com a morte e está a perder, remete-nos para a vitória da pulsão das forças destruitivas.
Sétimo selo, é uma metáfora à visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse (Bíblia, Antigo Testamento, muito importante para os cristãos protestantes). O que representam os 7 selos do Apocalipse? Profetizam as características básicas dos 7 períodos que a igreja viveria desde sua fundação até a segunda vinda de Jesus, descrita na última parte do sexto selo. Os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os quatro períodos da igreja cristã e os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O primeiro seria um grande líder que conquistaria grande poder e autoridade (motivo pelo qual muitos o identificam como o AntiCristo ou o próprio Cristo), o segundo significaria uma "guerra mundial" entre o homem representado pelo primeiro cavaleiro e aqueles que não aceitariam a sua dominação, o terceiro seria a "fome" ou racionamento de alimentos, causada por estes se tornarem raros com a guerra, e o quarto seria uma grande crise de mortalidade, como uma consequência dos cavaleiros anteriores. Os quatro cavaleiros representariam os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O ultimo cavaleiro seria a "morte espiritual", causada pela propagação de falsas doutrinas e religiões que substituiriam o verdadeiro cristianismo (muitos considerando que tal período se iniciaria com a Reforma protestante e seguiria até o "fim dos tempos").
No livro do Apocalipse de João, o sétimo selo revela sete anjos que receberão sete trombetas que, quando sopradas, uma por vez, iniciarão cataclismas que prenunciarão a derrocada da humanidade.

Freud e a luta entre a pulsão da vida contra a pulsão da morte, esta está a ganhar

Vou aqui publicar um bom artigo de um homem ideológicamente distante de mim, Manuel Maria Carrilho (sobre Freud e Keynes)

A cupidez
por MANUEL MARIA CARRILHO

Os estereótipos são aquelas coisas que, com as intenções mais diversas, toda a gente diz sem saber bem o que está a dizer. São eles que frequentemente reduzem personagens extraordinárias a uma simples fórmula, que se cola a um aspecto, a uma faceta da sua vida.
Com Keynes, a fórmula que ficou foi a da associação do seu nome ao intervencionismo do Estado. Não me surpreendeu por isso o espanto de tantos, quando há semanas aqui falei da fortíssima ligação de Keynes com a cultura, tanto no plano da criação como da sua difusão, e que o levou a fundar e dirigir o Arts Council - em acumulação, note-se, com a direcção do Bank of England!
Hoje vou talvez espantar um pouco mais esses leitores, com um outro aspecto da obra de Keynes: o da sua proximidade com a psicanálise e as ideias do seu criador, Sigmund Freud, sobre as quais ele chegou mesmo a escrever.
Em 1930, um ano depois do colapso bolsista, Freud e Keynes editaram dois textos singulares: Freud publica o Mal-estar na Cultura, e Keynes lança As Perspectivas Económicas para os Nossos Netos. São reflexões sobre a evolução da sociedade, num momento que era então de generalizada perplexidade.
Freud expõe a sua visão sombria sobre a evolução do mundo, alicerçada na ideia de que a civilização contém no seu próprio interior, a par com a força (a pulsão, como ele a designa) de vida que lhe deu forma, uma outra força, de natureza autodestruidora, a pulsão de morte. Para Freud, a luta entre elas é, na história da humanidade, tão constante como inconsciente. A novidade é que o resultado dessa luta se tornou cada vez mais favorável às forças autodestrutivas, obsessivamente orientadas para o domínio da natureza e para a acumulação de bens.
A visão que Keynes expõe então era mais optimista do que a de Freud, sobretudo porque a sua opção foi olhar para o longo prazo (para o tempo dos seus netos), apostando que a humanidade conseguiria resolver, como disse, o "problema económico". A utopia keynesiana antecipava então, no prazo de cer- ca de um século, o fim das lutas de classes e dos conflitos entre nações e esboçava um mundo em que a humanidade se libertaria da escassez e das preocupações materiais des-de que se dotasse da "organização adequada" - os economistas, dizia, poderiam mesmo vir a não ter mais relevância do que os dentistas…
Mas, apesar do contraste que decorre destas visões - e que, no essencial, definem uma polarização que continua a alimentar muitas controvérsias actuais -, Freud e Keynes partilharam várias ideias. Uma dessas convergências encontra-se no modo como pensaram o dinheiro, a moeda, na sua ligação com a psicologia individual e a natureza do mercado.
É que a moeda não é para Keynes, ao contrário do que pensavam e pensam muitos economistas, um instrumento neutro destinado a facilitar a troca. Não, a moeda é uma invenção que remete para a dinâmica das pulsões mais inconscientes da humanidade, que interfere com a ansiedade humana (acalmando-a ou intensificando-a), dá um valor ao tempo, despersonaliza as relações sociais, torna a dívida abstracta e permite - como disse G. Simmel - que os homens possam deixar de se olhar nos olhos uns dos outros.
E é na cupidez, no amor irracional do dinheiro, que Keynes vê o motor do capitalismo. E como Freud tinha recorrido a Thanatos para explicar a pulsão de autodestruição, Keynes recorre a Midas para explicar o modo como o dinheiro se pode tornar, de intermediário da troca, na finalidade última da actividade humana: "Auri sacra fames!…"
Na sua Teoria Geral, Keynes fará referência explícita a Freud (e a outros psicanalistas, como Ferenczi e Jones) para sublinhar a pertinência das suas análises sobre a relação do dinheiro com certos episódios do desenvolvimento infantil, uma das mais controversas teses do criador da psicanálise. E mais claro ainda é o modo como subscreve a hipótese freudiana da ligação da civilização à sublimação das pulsões humanas mais básicas. Quadro em que a cupidez lhe aparece como um catalisador fundamental da libido individual, seja no sentido da abstinência e da poupança, seja no da fruição e do consumo.
Claro que estas opções, mais do que individuais, são eminentemente colectivas - e também aqui Keynes se revela um bom leitor de Freud: se a influência social se faz sobretudo por contágio, a imitação sobrepõe-se à racionalidade e o mercado corre amiúde o risco de se enganar. J. Stiglitz não diz hoje outra coisa, quando fala da finança contemporânea.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Jogar xadrez com a morte


Não sou a melhor pessoa para escrever sobre Ingmar Bergman, porque, por falha minha, não consigo amar os seus filmes. Mas amo os conceitos desses filmes, e a arte neles:
Em sétimo selo, (Det Sjunde Inseglet, 1956), a morte é um inteligente estratega que desafia a vida a evitá-la.
A parábola do cavaleiro medieval que está a jogar xadrez com a morte e está a perder, remete-nos para a vitória da pulsão das forças destruitivas.
Sétimo selo, é uma metáfora à visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse (Bíblia, Antigo Testamento, muito importante para os cristãos protestantes). O que representam os 7 selos do Apocalipse? Profetizam as características básicas dos 7 períodos que a igreja viveria desde sua fundação até a segunda vinda de Jesus, descrita na última parte do sexto selo. Os quatro cavaleiros do Apocalipse representam os quatro períodos da igreja cristã e os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O primeiro seria um grande líder que conquistaria grande poder e autoridade (motivo pelo qual muitos o identificam como o AntiCristo ou o próprio Cristo), o segundo significaria uma "guerra mundial" entre o homem representado pelo primeiro cavaleiro e aqueles que não aceitariam a sua dominação, o terceiro seria a "fome" ou racionamento de alimentos, causada por estes se tornarem raros com a guerra, e o quarto seria uma grande crise de mortalidade, como uma consequência dos cavaleiros anteriores. Os quatro cavaleiros representariam os quatro primeiros eventos do "fim do mundo". O ultimo cavaleiro seria a "morte espiritual", causada pela propagação de falsas doutrinas e religiões que substituiriam o verdadeiro cristianismo (muitos considerando que tal período se iniciaria com a Reforma protestante e seguiria até o "fim dos tempos").
No livro do Apocalipse de João, o sétimo selo revela sete anjos que receberão sete trombetas que, quando sopradas, uma por vez, iniciarão cataclismas que prenunciarão a derrocada da humanidade.